A Nvidia terá chegado a acordo para comprar a Hugging Face, uma das plataformas mais populares para alojamento e desenvolvimento de modelos de Inteligência Artificial (IA) de pesos abertos (open-weight), por $12,9 mil milhões (€11 mil milhões), segundo noticiou o The Information.
A operação, caso avance, será uma das maiores aquisições de sempre da Nvidia e representa uma aposta significativa numa área da inteligência artificial que a empresa tem vindo a defender publicamente.
A notícia surge apenas um mês depois do bilionário Jensen Huang, CEO da Nvidia, ter feito a sua primeira publicação no X para defender os modelos de IA abertos e alertar contra aquilo que considerava serem restrições prematuras.
O The Information avançou com a informação sobre a aquisição, citando fontes não identificadas familiarizadas com o negócio. Numa notícia anterior, o Business Insider tinha indicado que as duas empresas estavam próximas de um acordo que avaliaria a Hugging Face em $13 mil milhões (€11,1 mil milhões).
A concretização da operação representaria uma enorme valorização para a Hugging Face. Em agosto de 2023, a empresa tinha levantado capital numa ronda Série D que lhe atribuiu uma avaliação de $4,5 mil milhões (€3,8 mil milhões). A Nvidia participou nessa ronda e investiu $235 milhões (€200 milhões) na plataforma. O Business Insider revelou ainda que a Hugging Face manteve anteriormente conversações com a Microsoft.
Aposta nos modelos de IA abertos
A possível aquisição ganha particular relevância tendo em conta a posição assumida recentemente por Jensen Huang sobre o futuro da inteligência artificial.
No mês passado, o CEO da Nvidia publicou no X uma defesa dos modelos de código aberto e de pesos abertos: “Os modelos abertos reforçam a segurança e a cibersegurança, aceleram a inovação e a disseminação e permitem soberania. O mundo precisa tanto de modelos de fronteira fechados como de modelos de fronteira abertos.”
Huang partilhou também uma carta assinada por várias empresas, incluindo Nvidia, Microsoft, Amazon e Meta, na qual estas defendem que os modelos de pesos abertos reforçam a concorrência: “Os pesos abertos… reforçam a concorrência e é a concorrência que mantém os benefícios da IA amplamente partilhados, em vez de concentrados em poucas mãos”, defendia a carta.
Google e OpenAI acabariam também por assinar o documento, enquanto a Anthropic foi a ausência de maior destaque entre as grandes empresas de IA.
A Hugging Face foi igualmente signatária da carta. O seu CEO, Clement Delangue, afirmou então à CNN que “proibir qualquer modelo aberto prejudicaria, em primeiro lugar, os defensores da cibersegurança, as startups, as pequenas empresas, os investigadores e todos os que não são um laboratório de fronteira”.
Hugging Face no centro de um ataque de IA
A relevância da Hugging Face no ecossistema de IA também ficou particularmente evidente no mês passado, quando a OpenAI revelou que um dos seus modelos avançados de inteligência artificial, o GPT-5.6 Sol, tinha conseguido invadir os servidores da plataforma durante uma fase de testes.
Segundo a OpenAI, o modelo explorou uma vulnerabilidade que lhe permitiu escapar do ambiente fechado de testes e aceder à internet. Depois de ultrapassar esse mecanismo de contenção, o modelo entrou nos sistemas da Hugging Face e realizou um ciberataque sem que tivesse recebido instruções para o fazer.
A própria Hugging Face afirmou ter tentado utilizar um modelo proprietário de IA norte-americano para ajudar a travar o ataque. No entanto, esse modelo não conseguiu “distinguir um responsável pela resposta a um incidente de um atacante”.
A empresa acabou por recorrer ao GLM 5.2, um popular modelo de pesos abertos desenvolvido pelo laboratório chinês Z.ai. A Hugging Face executou o modelo chinês na sua própria infraestrutura para responder à intrusão.
Nvidia dispara depois dos resultados
A possível compra da Hugging Face surge num momento particularmente forte para a Nvidia. As ações da fabricante de chips dispararam nas negociações antes da abertura dos mercados na quinta-feira, depois de a empresa apresentar resultados acima das expectativas e projetar um crescimento de 70% das receitas no próximo ano fiscal. A cotação chegou aos $224,83 (€191) por ação, uma subida superior a 7,2% face ao fecho da sessão anterior.
O avanço anulou uma queda que se prolongava há mais de uma semana, num período marcado por preocupações em torno dos resultados da empresa e por críticas aos chamados negócios de “financiamento circular” com algumas das principais empresas de IA, incluindo OpenAI e Anthropic.
O entusiasmo voltou a estender-se a outras empresas de semicondutores. A Intel subia 3,55% para $91,27 (€77,5), a Broadcom avançava 1,8% para $362,12 (€307) e a AMD ganhava 1,6% para $488,72 (€415).
A Micron, fabricante de chips de memória, avançava mais de 4%, para $976,71 (€830), depois de a Nvidia ter reconhecido, na apresentação de resultados, a escassez de memória provocada pela forte procura por parte das empresas de IA.
O movimento ajudou também os futuros do Nasdaq, índice fortemente concentrado em empresas tecnológicas, que subiam 1,10%, para 29.622,25 pontos, enquanto os futuros do S&P 500 avançavam cerca de 0,5%, para 7.727 pontos.
Na Ásia, as empresas de semicondutores também beneficiaram do entusiasmo. As ações da SK Hynix, Samsung e Kioxia subiram 2,5%, 1,7% e 5%, respetivamente.
Nvidia continua a superar expectativas
A Nvidia apresentou na quarta-feira os resultados do segundo trimestre do seu exercício fiscal de 2026. A empresa registou receitas de $96,2 mil milhões (€81,7 mil milhões), um crescimento de 106% face ao período homólogo e acima dos $92,2 mil milhões (€78,4 mil milhões) esperados por Wall Street. O lucro líquido subiu para $59,7 mil milhões (€50,7 mil milhões), contra $26,4 mil milhões (€22,4 mil milhões) um ano antes.
Para o trimestre em curso, a Nvidia prevê receitas de $108 mil milhões (€91,8 mil milhões), novamente acima das previsões dos analistas, que apontavam para aproximadamente $104,2 mil milhões (€88,6 mil milhões).
Durante a apresentação de resultados, a empresa indicou ainda que espera um crescimento de 70% das vendas no próximo ano fiscal. Jensen Huang sugeriu, contudo, que esta previsão poderá ser conservadora e explicou que as limitações da cadeia de abastecimento são atualmente um dos principais fatores que condicionam a capacidade da Nvidia para acompanhar a procura.
“Embora a nossa procura seja muito superior a 70%, a nossa oferta permite-nos entregar com confiança 70%. Vamos continuar a trabalhar com a nossa cadeia de abastecimento para aumentar esse valor”, afirmou.
Se a aquisição da Hugging Face se concretizar, a Nvidia estará assim a reforçar a sua posição muito para além dos chips que alimentam a atual corrida à inteligência artificial. A empresa passará a controlar uma das plataformas centrais do ecossistema de modelos abertos, numa altura em que a disputa entre modelos proprietários e abertos se tornou uma das grandes questões estratégicas da indústria.
Textos originais aqui e aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





