Negócios portugueses aceleram na China no arranque do Ano do Cavalo de Fogo

O Grupo Portugália Restauração vai avançar, em abril, com a primeira loja em Hong Kong da Manteigaria, Fábrica de Pastéis de Nata. A informação foi confirmada à Lusa por Diogo Vieira, sócio-gerente do grupo em Macau, que descreveu o projeto como “real e em andamento”. “É um projeto real e em andamento. Atrasou um bocadinho,…
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A Manteigaria, do Grupo Portugália Restauração, vai abrir em abril a primeira loja em Hong Kong e quer chegar a três espaços em apenas um ano. A aposta surge no momento em que Pequim volta a elogiar o papel de Macau como plataforma nas relações entre a China e os países de língua portuguesa.
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O Grupo Portugália Restauração vai avançar, em abril, com a primeira loja em Hong Kong da Manteigaria, Fábrica de Pastéis de Nata. A informação foi confirmada à Lusa por Diogo Vieira, sócio-gerente do grupo em Macau, que descreveu o projeto como “real e em andamento”.

“É um projeto real e em andamento. Atrasou um bocadinho, mas já temos o espaço identificado [e] vai entrar em obras logo após o Ano Novo Chinês”, disse o responsável à Lusa, referindo que a abertura está prevista para a zona Central da ilha de Hong Kong.

A decisão surge num contexto simbólico. O Ano Novo Lunar, que este ano é dedicado ao Cavalo de Fogo, começou esta segunda-feira às 16:00 em Portugal, meia-noite na China, e marca o início de um período de feriados associado à maior migração anual do mundo. Na China continental, os feriados decorrem entre 15 e 23 de fevereiro.

“Estamos com muita expectativa e muito felizes por podermos entrar naquele mercado, que tem uma dinâmica diferente”, afirmou Diogo Vieira à Lusa, sublinhando que a marca olha para Hong Kong como um território com potencial de crescimento rápido.

Segundo o executivo, o plano de expansão é ambicioso: “É o objetivo da marca, no espaço de um ano, após a abertura da primeira, conseguirmos pôr pelo menos três lojas abertas em diferentes locais de Hong Kong”.

A estratégia passa por apostar tanto no público local como no fluxo turístico, numa cidade com “sete milhões de habitantes, pelo menos”, e com zonas “muito populosas” onde, disse Vieira, “é possível expandir com alguma rapidez”.

“Vamos querer mostrar aos locais e aos turistas que visitam Hong Kong que é possível ter um produto que vem de Portugal (…) e mostrarmos o fabrico, a tradição portuguesa”, acrescentou.

Depois de Hong Kong, a Manteigaria pretende avançar para outros mercados asiáticos. Segundo o sócio-gerente do Grupo Portugália Restauração em Macau, o “projeto de expansão” irá espreitar “os outros mercados circundantes”, incluindo a China continental, Coreia do Sul, Singapura e Tailândia.

A marca entrou no mercado de Macau em janeiro de 2025, com uma primeira loja na baixa, e abriu um segundo espaço na ilha da Taipa em novembro. De acordo com Diogo Vieira, a operação emprega atualmente “entre 25 e 30 pessoas” e vende em média 2.500 pastéis por dia.

“A operação da Manteigaria em Macau é lucrativa e está em crescimento portanto, espera-se que o investimento seja recuperado em bastante pouco tempo”, afirmou o responsável à Lusa.

Macau já contava com pastéis de nata locais inspirados pelo pastel português, recriados por um britânico radicado na cidade, Andrew Stow (1955-2006). Ainda assim, Diogo Vieira considera que esse histórico funciona como “uma vantagem”, embora a marca tenha feito “os ajustamentos necessários (…) às necessidades de mercado, às vontades e à cultura local”, reduzindo para metade o açúcar usado na receita.

O enquadramento cultural também tem evoluído. Em outubro, o Governo de Macau inscreveu 12 manifestações, incluindo os pastéis de nata locais e a dança folclórica portuguesa, na Lista do Património Cultural Intangível do território, uma decisão que, segundo Vieira, pode beneficiar o produto português.

“Nós com a versão original portuguesa, os outros produtores locais com a versão de Macau, mas todos competimos um pouco no mesmo meio e num produto muito semelhante e acabamos todos por sermos beneficiados”, defendeu.

Diplomacia chinesa enfatiza papel estratégico de Macau nas relações com países de língua portuguesa

A aposta do Grupo Portugália Restauração na região surge numa altura em que a diplomacia chinesa volta a enfatizar o papel estratégico de Macau nas relações com países de língua portuguesa. Numa mensagem divulgada hoje, a nova comissária para os Assuntos de Macau do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Bian Lixin, elogiou a forma como o território tem “aproveitado ao máximo” a função atribuída por Pequim na cooperação com estados lusófonos.

Segundo a diplomata, em 2025 a cooperação com os países de língua portuguesa e hispânicos e com o Sudeste Asiático “foi continuamente aprofundada”. A declaração foi divulgada a propósito do Ano Novo Lunar do Cavalo de Fogo, que começou esta segunda-feira.

A China estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003 e, nesse mesmo ano, criou o Fórum de Macau, que integra, além da China, os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e, desde 2022, Guiné Equatorial.

Na mesma mensagem, Bian Lixin prometeu que o Comissariado vai ajudar Macau, “implementando medidas detalhadas para facilitar o intercâmbio de pessoal entre a China e países estrangeiros”, e defendeu ainda o reforço da “salvaguarda da segurança nacional”.

Lei polémica

O tema surge num momento em que o parlamento de Macau, a Assembleia Legislativa, está a analisar uma proposta de lei que regula a Comissão de Defesa da Segurança do Estado (CDSE), já aprovada por unanimidade em 10 de janeiro. O documento prevê, entre outras medidas, que a escolha de um advogado para casos de segurança nacional esteja sujeita à aprovação de um juiz, com parecer vinculativo da CDSE, não passível de recurso. Juristas e advogados ouvidos pela Lusa consideram a proposta de lei inconstitucional.

Também numa outra mensagem, o diretor do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central em Macau, Zheng Xincong, apelou a “novas conquistas na salvaguarda da segurança nacional e da estabilidade social” durante o Ano Lunar do Cavalo de Fogo. Já o líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai, demonstrou otimismo quanto ao sucesso da região, defendendo que Macau deve “potenciar melhor as vantagens institucionais do princípio ‘um país, dois sistemas’”.

O conceito “um país, dois sistemas”, originalmente proposto pelo líder chinês Deng Xiaoping (1904-1997) e aplicado pela primeira vez em 1997 e 1999 com a transferência de soberania de Hong Kong e de Macau, respetivamente, prevê ao longo de 50 anos um determinado grau de autonomia para as duas regiões, com foco no respeito pelas liberdades e garantias dos cidadãos.

com Lusa

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