A 18 de setembro, 111 membros da Câmara dos Representantes publicaram uma carta aberta dirigida aos líderes da indústria tecnológica, apelando à imposição de regras rigorosas para a construção de centros de dados. Entre as exigências estavam acordos com as comunidades locais que garantissem benefícios para a população, salários em linha com os valores praticados no mercado para os trabalhadores dos centros de dados e um compromisso de mitigação dos impactos ambientais. “Se não cumprirem estas normas e não proporcionarem mais do que um benefício seguro e direto às comunidades que acolhem estes centros de dados, rejeitaremos a sua construção”, advertia a carta, assinada por um grupo de legisladores maioritariamente democratas.
Entre os nomes de maior peso na lista de signatários estava Nancy Pelosi, antiga presidente da Câmara dos Representantes, que representa o distrito de São Francisco no Congresso há quase quatro décadas. A sua assinatura conferiu um peso particular à carta: uma democrata da região da Baía de São Francisco a pressionar a indústria tecnológica local. Mas também levantou uma questão incómoda. Nos quatro meses anteriores à assinatura, Pelosi declarou compras de ações e opções de empresas ligadas aos centros de dados no valor de milhões de dólares. Em maio, o seu marido, Paul Pelosi, adquiriu opções da Intel no valor entre 1 milhão e 5 milhões de dólares (860 mil e 4,3 milhões de euros). A divisão de inteligência artificial e centros de dados do fabricante de chips cresceu 59% no último ano e representou 41% das receitas dos seus produtos no trimestre anterior. A 24 de julho, Paul Pelosi voltou a comprar títulos da Intel, além de ações e opções da Bloom Energy no valor entre 2 milhões e 10 milhões de dólares (1,7 milhões e 8,6 milhões de euros). A empresa fabrica células de combustível utilizadas para alimentar centros de dados. Quatro dias depois, acrescentou mais 1 milhão a 2 milhões de dólares (860 mil a 1,7 milhões de euros) em investimentos na Bloom Energy.
Os membros do Congresso apenas têm de declarar o valor dos seus ativos, bem como os dos cônjuges e filhos dependentes, através de intervalos de valores. Por isso, não é possível saber exatamente quanto cada congressista investiu em cada posição. Ainda assim, as compras da família Pelosi destacam-se pela sua dimensão. Uma nova análise da Forbes identificou, nas declarações financeiras da família, ativos ligados aos centros de dados avaliados entre 16 milhões e 75 milhões de dólares (13,8 milhões e 64,5 milhões de euros), o que faz de Pelosi — ou, pelo menos, do seu agregado familiar — quase certamente a maior investidora em centros de dados do Congresso. Apesar disso, a antiga presidente da Câmara dos Representantes apelou à regulamentação deste setor.
Nicholas Martin, porta-voz de Pelosi, afirmou num comunicado que “a presidente Pelosi não possui ações e não tem conhecimento nem qualquer envolvimento posterior em quaisquer transações”. Pelosi tem apoiado a proibição da negociação de ações por membros do Congresso.
Quem tem mais a ganhar com os centros de dados
A Forbes analisou as declarações financeiras de todos os membros do Congresso para determinar quem tem mais a ganhar com os centros de dados — ou a perder se o crescimento do setor, que está a sustentar quase sozinho toda a economia norte-americana, entrar em colapso. Com recurso à inteligência artificial, foram recolhidas informações das declarações financeiras dos congressistas e dos registos de transações para identificar ativos potencialmente associados aos centros de dados. Um jornalista analisou manualmente a lista de investimentos candidatos, identificando as empresas que possuem centros de dados ou que estão significativamente envolvidas na sua construção. Foram excluídas as grandes empresas de serviços na nuvem com atividades relevantes fora dos centros de dados, como a Apple, a Alphabet (Google) e a Meta. A 6 de outubro, a Forbes publicou os resultados da análise ao Senado, que identificou pelo menos 7 milhões de dólares (6 milhões de euros) em investimentos associados aos centros de dados nas carteiras de 26 senadores.
Pelosi poderá ocupar o primeiro lugar no Congresso, mas está longe de ser a única. Centenas de membros da Câmara dos Representantes possuem investimentos ligados aos centros de dados, num valor mínimo de 45 milhões de dólares (38,7 milhões de euros), tendo em conta os intervalos identificados pela Forbes. Quatro dos cinco primeiros são democratas. Três são da Califórnia. Outros dois assinaram a mesma carta que Pelosi.
O segundo lugar pertence a Cleo Fields, um democrata que, ao longo de várias décadas, alternou entre cargos políticos estaduais e federais e a advocacia privada no Louisiana. Fields declarou uma participação na NVIDIA — empresa com uma capitalização bolsista superior a 5 biliões de dólares (4,3 biliões de euros), cujos chips avançados alimentam a maioria dos centros de dados de inteligência artificial — avaliada entre 7 milhões e 35 milhões de dólares (6 milhões e 30,1 milhões de euros). Possui também participações significativas no fabricante de chips de Taiwan TSMC, cujas ações subiram mais de 300% em cinco anos, e na norte-americana AMD, que valorizou mais de 500% no mesmo período. No total, os seus investimentos situam-se entre 8,5 milhões e 41 milhões de dólares (7,3 milhões e 35,3 milhões de euros).
Na terceira posição está Darrell Issa, republicano que representa a região de San Diego. A sua posição na lista deve-se a um único investimento: ações do fundo cotado iShares Semiconductor ETF, avaliadas entre 5 milhões e 25 milhões de dólares (4,3 milhões e 21,5 milhões de euros). O fundo valorizou-se 300% nos últimos cinco anos e as suas maiores posições — Intel, AMD, Micron, NVIDIA e Broadcom — estão todas ligadas, direta ou indiretamente, aos centros de dados.
A completar os cinco primeiros lugares estão o democrata Tom Suozzi, de Long Island, com investimentos associados aos centros de dados avaliados entre 2,25 milhões e 10,5 milhões de dólares (1,9 milhões e 9 milhões de euros), e o também democrata Gil Cisneros, da região de Los Angeles, com participações entre 2,2 milhões e 9,4 milhões de dólares (1,9 milhões e 8,1 milhões de euros). Ambos detêm participações significativas na NVIDIA. Cisneros também possui ações de empresas que ilustram a amplitude do crescimento dos centros de dados. As ações da Caterpillar valorizaram-se 300% em cinco anos, impulsionadas pela forte procura de equipamento de construção. A Parker-Hannifin, fabricante de equipamentos de refrigeração líquida e outras soluções de gestão térmica, subiu 225%. Cisneros detém participações entre 15.000 e 50.000 dólares (12.900 e 43.000 euros) em cada uma destas empresas.
Entre o sexto e o décimo lugar encontram-se o congressista Kevin Hern (republicano do Oklahoma, com investimentos entre 2 milhões e 5 milhões de dólares, ou 1,7 milhões e 4,3 milhões de euros), Rob Bresnahan (republicano da Pensilvânia, entre 1 milhão e 3,3 milhões de dólares, ou 860 mil e 2,8 milhões de euros), Kelly Louise Morrison (democrata do Minnesota, entre 770.000 e 2 milhões de dólares, ou 662.000 e 1,7 milhões de euros), Bill Foster (democrata do Illinois, entre 500.000 e 1 milhão de dólares, ou 430.000 e 860.000 euros) e James French Hill (republicano do Arkansas, entre 400.000 e 950.000 dólares, ou 344.000 e 817.000 euros).
Ashley Haines, porta-voz de Hern, afirmou num comunicado que a carteira de investimentos do congressista é gerida por um consultor financeiro independente. Liz Smalley, porta-voz de Morrison, declarou que a congressista está a proceder à alienação das suas posições individuais em ações e apoia a proibição da negociação de ações por membros do Congresso. Grace Bouton, porta-voz de Foster, escreveu num comunicado que o congressista não determina a distribuição da carteira de investimentos da família, “para além de especificar que mantenha uma proporção aproximada de um para dois entre fundos obrigacionistas e fundos de ações diversificados, sem exposição à China”. Acrescentou que os investimentos do congressista ligados aos centros de dados — o fundo de semicondutores SMH e o fundo imobiliário de infraestruturas digitais SRVR — foram adquiridos em 2021, antes do crescimento da inteligência artificial.
Eis os cinco maiores investidores em centros de dados da Câmara dos Representantes — e do Congresso norte-americano — e o que afirmaram publicamente sobre os centros de dados e a expansão da inteligência artificial.
1. Nancy Pelosi (democrata, São Francisco)
Investimentos em centros de dados: entre 16 milhões e 75 milhões de dólares (13,8 milhões e 64,5 milhões de euros).
Algumas das empresas em que investe: NVIDIA, Bloom Energy, Broadcom e Palo Alto Networks.
Posição pública sobre os centros de dados: além de ter assinado a aberta (dirigida aos líderes da indústria tecnológica, apelando à imposição de regras rigorosas para a construção de centros de dados), Pelosi não apoiou todas as iniciativas de regulamentação dos centros de dados que chegaram à Câmara dos Representantes, embora a maioria tenha sido apresentada por membros da ala progressista do Partido Democrata. Em 2026, recusou ser coautora de uma proposta de moratória à construção de centros de dados apresentada pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez, de uma proposta de proibição da construção de centros de dados em terrenos públicos apresentada por Rashida Tlaib e de uma declaração de direitos para os centros de dados proposta por Ro Khanna. Nenhum dos outros democratas que integram os dez primeiros lugares da lista apoiou estas iniciativas.
2. Cleo Fields (democrata, Baton Rouge)
Investimentos em centros de dados: entre 8,5 milhões e 41 milhões de dólares (7,3 milhões e 35,3 milhões de euros).
Algumas das empresas em que investe: NVIDIA, TSMC, AMD e Micron.
Posição pública sobre os centros de dados: além de ter votado a favor da Ratepayer Protection Act, uma proposta legislativa destinada a proteger os consumidores dos aumentos dos custos da eletricidade associados aos centros de dados, Fields não construiu um historial público significativo sobre o tema. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Representantes por 417 votos contra três, mas acabou por ficar bloqueada no Senado.
Fields vai abandonar a Câmara dos Representantes no final do atual mandato, depois de uma reorganização dos círculos eleitorais ter eliminado o seu distrito. No entanto, não está a abandonar a política: pretende regressar ao Senado estadual do Louisiana. O estado, que acaba de isentar alguns centros de dados do pagamento de impostos sobre as vendas, está a viver uma forte expansão do setor. A Meta estará a planear construir uma instalação de 5 gigawatts, com um investimento de 50 mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros). O gabinete de Fields não respondeu a um pedido de comentário.
3. Darrell Issa (republicano, região de San Diego)
Investimentos em centros de dados: entre 5 milhões e 25 milhões de dólares (4,3 milhões e 21,5 milhões de euros).
Algumas das empresas em que investe: iShares Semiconductor ETF.
Posição pública sobre os centros de dados: como único republicano entre os cinco primeiros, Issa distingue-se pelo apoio público à implementação da inteligência artificial na administração federal promovida pelo presidente Donald Trump. Integra também uma comissão da Câmara dos Representantes dedicada à ciência e à tecnologia, onde apoiou uma proposta legislativa que determinaria que o Departamento de Energia melhorasse a medição do consumo de eletricidade e água dos centros de dados.
O congressista tem igualmente apoiado algumas formas de regulamentação da inteligência artificial. Em 2024, apresentou uma proposta para regular as reproduções não autorizadas da voz, imagem e aparência de pessoas através de tecnologias deepfake.
4. Tom Suozzi (democrata, Long Island)
Investimentos em centros de dados: entre 2,25 milhões e 10,5 milhões de dólares (1,9 milhões e 9 milhões de euros).
Algumas das empresas em que investe: NVIDIA e AMD.
Posição pública sobre os centros de dados: Suozzi representa um círculo eleitoral disputado em Long Island e copreside ao Problem Solvers Caucus, um grupo bipartidário que integra também um republicano da Pensilvânia. Quando anunciou a criação, no âmbito deste grupo, de uma equipa de trabalho dedicada à inteligência artificial e aos centros de dados, adotou um tom moderado.
“A resposta à questão da inteligência artificial não é ‘mãos fora, não fazer nada’, nem ‘encerrar tudo'”, afirmou. “O Problem Solvers Caucus está a tentar encontrar uma resposta bipartidária para um dos maiores desafios da atualidade. Temos de encontrar um equilíbrio entre os extremos.”
Pouco depois, Suozzi assinou uma carta a pedir ao presidente Donald Trump que coordenasse com a China os esforços em matéria de segurança da inteligência artificial.
5. Gil Cisneros (democrata, região de Los Angeles)
Investimentos em centros de dados: entre 2,2 milhões e 9,4 milhões de dólares (1,9 milhões e 8,1 milhões de euros).
Algumas das empresas em que investe: NVIDIA, Quanta Services, Ingersoll Rand e Eaton Corporation.
Posição pública sobre os centros de dados: Cisneros assinou a carta que apela à imposição de regras para os centros de dados e votou a favor da Ratepayer Protection Act. No entanto, não se opõe totalmente aos centros de dados nem ao desenvolvimento da inteligência artificial. Também apoiou duas propostas legislativas que determinariam que a Administração de Pequenas Empresas dos Estados Unidos divulgasse a forma como utiliza a inteligência artificial e estudasse os desafios enfrentados pelas pequenas empresas do setor.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





