O maestro Álvaro Cassuto, que morreu hoje aos 87 anos, fundou a Nova Filarmonia Portuguesa, em 1988, trabalhou com orquestras nacionais e internacionais, e deixa uma vasta discografia, incluindo a integral das Sinfonias de Joly Braga Santos.
Segundo o Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa, foi “um dos mais conceituados maestros portugueses” e “um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos [1924-1988], seu amigo e colega”.
Em 2004, o álbum com a gravação da Quarta Sinfonia deste compositor, com a Orquestra Nacional da República da Irlanda, valeu-lhe o Prémio Internacional do Disco do Mercado Internacional do Disco e da Indústria de Entretenimento (MIDEM).
Cassuto foi um dos maiores defensores da internacionalização da música erudita portuguesa, prioridade que levou para as orquestras que dirigiu e que reforçou, sobretudo a partir do final dos anos 1990, com a gravação de compositores portugueses como João Domingos Bomtempo, José Vianna da Motta, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça, em particular para a discográfica internacional Naxos e a sua subsidiária Marco Polo.
Em setembro de 2022 recebeu o Prémio Vida e Obra atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores.
Nascido no Porto, em 17 de novembro de 1938, filho de pais alemães de origem portuguesa que procuraram refúgio do regime Nazi, Álvaro Leon Cassuto cresceu em Lisboa, estudou violino e piano desde a infância, desenvolvendo a formação musical, mais tarde, com os compositores Artur Santos (1914-1987) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994).
Em 1959, estreou-se como compositor com obras como Sonatina, Sinfonia Breve e Abertura para Cordas (1959), abordando o Dodecafonismo Serial.
Em 1960, frequentou os cursos internacionais de Darmstadt, na Alemanha, onde trabalhou com os compositores Karlheinz Stockhausen, Gyorgy Ligeti, Pierre Boulez e Olivier Messiaen.
Estudou direção de orquestra com o maestro Pedro Freitas Branco (1896-1963), internacionalmente reconhecido como um dos melhores intérpretes da música de Maurice Ravel, e depois com Herbert von Karajan (1908-1989), em Berlim, pelo qual confessava grande admiração.
“Para mim, nunca tive outro maestro no meu panorama que admirasse tanto como Karajan”, afirma no livro “Álvaro Cassuto: Maestro sem Fronteiras”, acrescentando que o maestro alemão “era um dos pouquíssimos que fazia essa ‘fusão’ de sons de uma maneira absolutamente espantosa, sem dizer uma palavra, só pelo gesto e pela sua personalidade”.
Jean Fournet (1913-2008) e Franco Ferrara (1911-1985), em Hilversum, nos Países Baixos, estão também no percurso de formação de Álvaro Cassuto.
Em Portugal, licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, em 1964, com o objetivo de encetar uma carreia diplomática à qual chegou a candidatar-se. Mas a música impôs-se.
Em 1965, concluiu o curso de Direção (Kapellmeister) no Conservatório de Viena.
Em 1961, com 22 anos, estreou-se como maestro à frente da Orquestra do Porto. Posteriormente, foi maestro assistente (1965-1968) e subdiretor (1970-1975) da Orquestra Gulbenkian.
Em 1969, quando residia nos Estados Unidos, recebeu o Prémio Serge Koussevitzky, para jovens maestros, atribuído pelo Tanglewood Music Center, fundado pelo maestro de origem russa, histórico diretor da Orquestra Sinfónica de Boston.
Sobre a decisão de ir para os Estados Unidos afirmou: “Rapidamente cheguei à conclusão de que não tinha grande futuro em Portugal”, portanto, esta era “a melhor decisão que podia tomar”.
Aos Estados Unidos havia de ir e voltar ao longo da carreira. Aqui se manteve de 1968 a 1986. Foi professor na Universidade da Califórnia, de 1974 a 1979, maestro titular da Filarmónica de Rhode Island, de 1979 a 1985, e da Orquestra Nacional de Nova Iorque, entre 1981 e 1986.
O maestro Leopold Stokowski (1882-1977) convidou-o para seu assistente na American Symphony Orchestra. Foi também professor na Juilliard School of Music, em Nova Iorque, em 1981-1982.
Neste ‘período americano’, também dirigiu alguns concertos de Amália Rodrigues (1920-1999) nos Estados Unidos.
Paralelamente, foi desenvolvendo uma carreira de compositor e dirigiu em salas do circuito internacional, uma “atividade de sucesso”, segundo a “Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX”.
Em 1970, recebeu o Prémio Imprensa em Portugal. Entre 1975 e 1990, foi maestro-diretor da Orquestra Sinfónica da Radiodifusão Portuguesa.
No regresso a Portugal, fundou a Nova Filarmonia Portuguesa, em 1988, com a qual efetuou 635 concertos e que dirigiu até 1993. Nesse ano, foi convidado pelo Governo a formar a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), que incluiu os músicos da Filarmonia e da Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Da OSP foi maestro titular e diretor artístico entre 1993 e 1999.
Mais tarde, foi convidado a criar a Orquestra do Algarve.
Em 2000, assumiu os postos de maestro titular e de diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Raanana, em Israel, que manteve até 2002.
Em 2004, iniciou as funções de diretor artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que exerceu até inícios de 2008.
De 2010 a 2013, dirigiu a Orquestra de Bari, em Itália. Como maestro convidado, dirigiu ainda, entre outras, a Orquestra Filarmónica de Londres, a Real Orquestra Filarmónica e a Orquestra Filarmónica da BBC, no Reino Unido. Noutras paragens, dirigiu as orquestras de Filadélfia, de São Petersburgo e a de Moscovo.
O Wiener Concert-Verein, de Viena, a Orchestre de la Suisse Romande, a Orquestra de Paris e as orquestras da RAI (Itália) e a Nacional de Espanha foram outras que regeu.
Na Alemanha, estreou-se com a Radio Sinfonie Orchester de Berlim, foi um dos maestros convidados principais da Sinfónica de Berlim e dirigiu, entre muitas outras, a Orquestra da Radio de Leipzig, a Sinfónica de Munique, a Staatskapelle Weimar e a Philharmonia Hungarica.
Em 2016, numa mensagem escrita para a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), sobre o seu percurso, Cassuto recordou: “Em 1993, quando fui incumbido de formar e de dirigir a Orquestra Sinfónica Portuguesa, uma das minhas prioridades foi a afirmação internacional daquela que deveria vir a ser a primeira e mais importante orquestra sinfónica portuguesa e, ao mesmo tempo, difundir, através dela, as mais importantes obras orquestrais dos nossos compositores”
Nessa mensagem escrita para a rubrica “Em nome dos autores”, dava conta do projeto discográfico encetado com as editoras Naxos e Marco Polo, em 1997, de gravação dos principais compositores portugueses, que incluiu a integral da obra para orquestra de Joly Braga Santos, com a OSP e as orquestras Bournemouth Symphony e National Symphony of Ireland.
“Estas gravações mereceram desde a primeira hora os mais entusiásticos elogios da exigente crítica internacional […] enaltecendo não só a extraordinária qualidade das obras, como a da orquestra e das respetivas interpretações”, escreveu Álvaro Cassuto, sublinhando a atribuição do Prix Internacional du Disque, em Cannes.
O projeto acabou por abranger um “número apreciável de cerca de 60 obras orquestrais interpretadas por orquestras de referência e nível internacional como a Royal Scottish National Orchestra (4 CD) e a já referida Orquestra Sinfónica Nacional da Irlanda (5 CD)”, prosseguiu o maestro português. “A gravação mais recente data de 2015 e abrange a integral das obras orquestrais de José Viana da Mota interpretadas pela Royal Liverpool Philharmonic Orchestra”.
Sobre a atividade de compositor de Álvaro Cassuto, a “Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX” afirma que “reflete a sua prática orquestral”. “Nas primeiras obras aplicou o dodecafonismo serial, depois optou pelo atonalismo livre”.
Entre as suas composições, constam-se “Sexteto de Cordas” (1961), música de cena para “Frei Luís de Sousa”, de Garrett (1968), “Homenagem ao Povo” (1976), Abertura para cordas (1959), Sinfonia Breve n.º 1 (1959), Sinfonia Breve n.º 2 (1960), “Permutações” (1962), “In Memoriam Pedro Freitas Branco” (1963), “Cro (mo-no)fonia” (1967), “Canto da Solidão” (1970), “AS 4 Estações” (1987) e a ópera em um ato “Em Nome da Paz” (1971), com libreto da poetisa Natália Correia (1923-1993).
Algumas das suas obras estão também editadas pela Naxos, gravadas pela Royal Scottish National Orchestra.
Em 1999, publicou uma autobiografia intitulada “Sinfonias Incompletas. A Odisseia de um Maestro Português” (Hugin Editores) e, em 2016, José Jorge Letria, presidente da SPA, publicou uma longa conversa com o maestro, que intitulou “Álvaro Cassuto: Maestro sem Fronteiras”.
Em 2018, publicou uma biografia do seu compositor de eleição, “Joly Braga Santos, Uma vida e uma obra”, publicada pela Caminho. Em 2021, foi a vez de novo relato de cariz autobiográfico, “Memórias de Um Maestro”, editado pela Guerra & Paz.
Seis anos antes, em 2012, a SPA convidara-o a redigir a mensagem do Dia do Autor, que intitulou “A Criatividade numa Sociedade Materialista”. Nela deu destaque aos autores, aos criadores de bens culturais imateriais – romancistas, compositores, artistas -, “aqueles que nos enriquecem com bens que, infelizmente, na sociedade contemporânea e essencialmente materialista em que vivemos, são os menos valorizados”, obrigando os seus criadores “a transformá-los em bem materiais, para sobreviverem e para poderem continuar a criar”.
Álvaro Cassuto deixa editados mais de 30 álbuns por diferentes discográficas, com centenas de obras, na maioria de compositores portugueses.
Em 2009, por ocasião do 50.º aniversário da sua carreira, o Coliseu do Porto descerrou no vestíbulo uma lápide comemorativa e, em 10 de junho desse ano, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva agraciou-o com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
Sobre a homenagem da Associação dos Amigos do Coliseu do Porto, o seu então presidente, José António Barros, afirmou que a iniciativa traduzia “o reconhecimento da cidade a um portuense ilustre, que tem prestigiado o Porto e Portugal pelos quatro cantos do mundo”.
Lusa





