Mais de 400 milionários de mais de duas dezenas de países estão a apelar aos líderes mundiais para que aumentem os impostos sobre os super-ricos, numa altura em que uma nova sondagem revela que a maioria dos milionários dos países do G20 apoia a regulamentação da riqueza extrema e manifesta preocupação com o papel que indivíduos muito ricos, incluindo o presidente norte-americano Donald Trump, estão a desempenhar na política global.
Centenas de personalidades assinaram uma carta aberta dirigida aos líderes mundiais, muitos dos quais se reuniram esta semana no Fórum Económico Mundial, na Suíça, apelando à necessidade de “tributar os super-ricos” como forma de reduzir a sua influência política.
A carta insere-se numa campanha mais ampla a favor da criação de um imposto sobre a riqueza, promovida pela organização sem fins lucrativos Patriotic Millionaires, que divulgou também, na quarta-feira, os resultados de um inquérito online enviado a milhares de milionários dos países do G20, incluindo os Estados Unidos.
O documento, assinado, entre outros, pelos herdeiros da Disney Abigail e Tim Disney, pelos atores Brian Cox e Mark Ruffalo e pelo músico Brian Eno, defende que o aumento dos impostos sobre os mais ricos do mundo permitirá que “todas as pessoas” consigam “recuperar o poder daqueles que o capturaram, recuperar as nossas democracias daqueles que as abusam (…) e recuperar a nossa riqueza partilhada”.
O inquérito, realizado pela agência britânica de estudos de mercado Survation, concluiu que 63% dos 3.900 milionários do G20 que responderam consideram que a riqueza extrema representa uma ameaça à democracia.
Mais de três em cada quatro inquiridos (77%) afirmaram que as pessoas extremamente ricas conseguem comprar influência política, enquanto uma percentagem ainda mais elevada (81%) considera que o dinheiro compra acesso aos decisores políticos.
Quase a totalidade dos participantes (82%) defendeu a existência de um limite para os montantes que políticos e partidos podem receber de indivíduos privados, e apenas 17% afirmaram opor-se à tributação dos mais ricos para financiar serviços públicos e mitigar a crise do custo de vida.
Seis em cada dez inquiridos consideraram ainda que Donald Trump, que é bilionário, teve um impacto negativo tanto na estabilidade económica global como na acessibilidade económica para as pessoas comuns desde que regressou à presidência, em janeiro do ano passado.
“Os super-ricos têm ganho durante tempo suficiente, agora é a vez de todos os outros ganharem”, afirmou Brian Eno, em comunicado.
“Queremos a nossa segurança de volta, as nossas comunidades de volta, a riqueza dos nossos países de volta — e queremos as nossas democracias de volta. Está na hora de tributar os super-ricos”, salienta Brian Eno.
Há décadas que se multiplicam os apelos para combater a desigualdade de riqueza, recentemente reforçados por evidências de um agravamento acelerado da disparidade de rendimentos. Um relatório recente da Oxfam International revelou que a riqueza dos bilionários aumentou mais de 16% em 2025, uma taxa três vezes superior à média dos últimos cinco anos.
Segundo o mesmo relatório, a riqueza dos bilionários cresceu 81% desde 2020, com o património agregado deste grupo a atingir 2,5 biliões de dólares (cerca de 2,14 biliões de euros) no último ano, um valor equivalente à riqueza total detida pelos 4,1 mil milhões de pessoas mais pobres do mundo. A Base de Dados Mundial sobre Desigualdade indica que, em quase todos os países, os 10% mais ricos concentram mais de 50% da riqueza pessoal, estando os Estados Unidos entre os países com maior desigualdade na distribuição de riqueza.
Quem está contra esta ideia
Apesar de dados do UBS, anteriores às eleições de 2024, indicarem que uma ligeira maioria dos milionários norte-americanos preferia a então vice-presidente Kamala Harris a Donald Trump, os bilionários apoiaram, em larga medida, Trump e o Partido Republicano. Indivíduos com património líquido ultraelevado investiram fortemente na sua campanha, com mais de 80% das despesas federais de campanha realizadas pelos 100 norte-americanos mais ricos em 2024 a beneficiarem os republicanos, segundo o Washington Post.
Trump angariou junto dos 100 norte-americanos mais ricos um montante 15 vezes superior ao que conseguiu durante a sua primeira campanha presidencial. Ao longo da presidência, continuou a cortejar os super-ricos e integrou vários bilionários na sua administração, incluindo o secretário do Comércio, Howard Lutnick, e a secretária da Educação, Linda McMahon, entre outros.
Consequência disso, 33% de milionários do G20 inquiridos afirma que a presidência de Donald Trump beneficiou as suas finanças pessoais. Desde que regressou ao cargo, o presidente aprovou várias medidas que favorecem os mais ricos, incluindo o aumento da isenção do imposto sucessório e a redução de impostos aplicáveis a empresas multinacionais.
Trump a lucrar com o cargo
Donald Trump “utilizou o cargo de presidente” para aumentar a sua fortuna pessoal em pelo menos 1,4 mil milhões de dólares (cerca de 1,20 mil milhões de euros), segundo uma investigação recente do New York Times. Este valor, que o jornal classifica como uma estimativa conservadora, inclui pelo menos 867 milhões de dólares (cerca de 742 milhões de euros) provenientes de várias criptomoedas, 90 milhões de dólares (cerca de 77 milhões de euros) em acordos com empresas de tecnologia e media, 23 milhões de dólares (cerca de 19,7 milhões de euros) pelo licenciamento do seu nome no estrangeiro desde a reeleição e 28 milhões de dólares (cerca de 24 milhões de euros) pela produção de um documentário da Amazon sobre Melania Trump.
Mary Whitfill Roeloffs/Forbes Internacional





