O programa Cheque-Formação + Digital aproxima-se do fim. Em que consistiu e que balanço faz do impacto desta iniciativa na qualificação digital dos profissionais em Portugal?
O Cheque-Formação + Digital foi uma medida do programa Emprego + Digital, financiada pelo PRR, com o objetivo claro de reduzir as barreiras financeiras ao acesso à formação e apoiar os profissionais na atualização e requalificação das suas competências digitais. O apoio foi atribuído diretamente a cada pessoa, trabalhadores por conta de outrem, independentes e empresários, não às empresas, o que é um detalhe importante para perceber o alcance real da iniciativa.
O balanço que fazemos é muito positivo. Na FLAG, sentimos um aumento claro da procura por formação em áreas com aplicação prática imediata, como Inteligência Artificial, Marketing Digital e ferramentas de produtividade. E um dos aspetos que pudemos observar foi a diversidade de perfis que recorreram à medida, desde profissionais em reconversão a pessoas no ativo que procuravam atualizar competências para acompanhar a evolução das suas funções.
“Sentimos um aumento claro da procura por formação em áreas com aplicação prática imediata, como Inteligência Artificial, Marketing Digital e ferramentas de produtividade”.
A flexibilidade do programa acabou por ser decisiva. O facto de permitir formação online e em formatos mais curtos facilitou muito a conciliação com a vida profissional, o que faz toda a diferença. Aliás, continuamos a receber diariamente pedidos de informação de pessoas interessadas em candidatar-se, mas que acabam por não avançar apenas por estarmos já muito próximos do fim do prazo. Isto mostra que o interesse real se mantém e que a existência de um apoio financeiro continua a ser um incentivo muito relevante para quem quer atualizar ou requalificar as suas competências.
O que a iniciativa veio reforçar e ajudar a tornar visível foi uma necessidade que já existia, mas que muitos iam adiando, a atualização digital deixou de ser opcional e é hoje uma condição para continuar relevante e acompanhar a transformação das organizações.
“O facto de permitir formação online e em formatos mais curtos facilitou muito a conciliação com a vida profissional, o que faz toda a diferença”.
Do ponto de vista das empresas, até que ponto este tipo de programas se traduz efetivamente em ganhos de produtividade e competitividade?
Embora o Cheque-Formação + Digital seja uma medida dirigida aos profissionais, e não diretamente às empresas, o impacto acaba por se refletir de forma muito concreta no contexto organizacional.
Quando um profissional reforça as suas competências digitais, isso traduz-se quase imediatamente na forma como trabalha, maior eficiência na utilização de ferramentas, mais autonomia, maior capacidade de automatizar tarefas e de tomar decisões com base em dados. No dia a dia das equipas, isto significa ganhar tempo, reduzir erros e trabalhar com mais agilidade.

Vemos também que equipas mais preparadas têm uma resistência muito menor à mudança. Conseguem integrar novas tecnologias com mais naturalidade, seja inteligência artificial, análise de dados ou ferramentas colaborativas, o que facilita imenso os processos de transformação digital que, muitas vezes, falham menos pela tecnologia e mais pela dificuldade de adoção interna.
Por outro lado, a formação contínua tem um impacto claro na forma como as empresas se posicionam. Equipas mais qualificadas conseguem inovar com mais rapidez, responder melhor às exigências do mercado e até criar condições mais atrativas para reter talento. Isto é particularmente visível em estruturas mais pequenas, onde o impacto individual de cada pessoa é ainda mais significativo.
Mesmo não sendo um apoio direto às empresas, o resultado é coletivo. O mercado fica com quadros mais qualificados e as empresas tornam-se mais resilientes e preparadas para responder às exigências de um mercado que não para de evoluir. E isso, inevitavelmente, traduz-se em ganhos de competitividade para as organizações.
“Equipas mais preparadas têm uma resistência muito menor à mudança”.
Ainda existe a tendência de encarar a formação como um custo? Se sim, o que falta para que as organizações passem a vê-la como um investimento estratégico?
A ideia de que a formação é um custo tem vindo a perder força e hoje a maioria das organizações já percebe que a atualização de competências é um fator crítico de sucesso. No entanto, ainda existem casos onde a formação é encarada de forma mais reativa ou como uma obrigação pontual, em vez de ser vista como uma alavanca estratégica.
O que falta para que esse passo seguinte seja dado é, muitas vezes, uma integração mais profunda da formação na estratégia de negócio. Em vez de ser algo isolado nos Recursos Humanos, o desenvolvimento de competências deve estar alinhado com os objetivos de crescimento da empresa.
As empresas que lideram este mindset já usam a formação como uma ferramenta para a retenção de talento, para a motivação das equipas e, acima de tudo, para acelerar a inovação. Elas perceberam que, num mercado onde a tecnologia evolui tão rápido, o risco de não investir na atualização é muito superior ao custo da formação em si. No fundo, as organizações mais competitivas são aquelas que criaram uma cultura de aprendizagem contínua e que entendem que uma empresa só evolui se as suas pessoas evoluírem também.
“As organizações mais competitivas são aquelas que criaram uma cultura de aprendizagem contínua e que entendem que uma empresa só evolui se as suas pessoas evoluírem também”.
Num mercado de trabalho em rápida transformação, que competências digitais estão hoje a fazer a diferença na progressão de carreira dos profissionais?
Atualmente, a diferença não se faz apenas pelo domínio de uma ferramenta específica, mas pela capacidade de combinar o conhecimento técnico com uma visão estratégica. Áreas como a inteligência artificial, a análise de dados, o marketing digital e o UX/UI continuam a ser pilares fundamentais, mas a verdadeira vantagem competitiva está na literacia em IA, saber como utilizar estas ferramentas para potenciar a produtividade e interpretar resultados de forma crítica.
Assistimos a uma valorização crescente das competências híbridas. Já não basta saber “carregar no botão”, o mercado procura profissionais que saibam cruzar a técnica com o pensamento criativo e a resolução de problemas. A tecnologia é o meio, mas a estratégia e o espírito crítico continuam a ser o diferencial humano.
Além disso, a capacidade de aprendizagem contínua passou a ser a competência mais importante de todas. Num cenário onde o que aprendemos hoje pode estar desatualizado em dois ou três anos, quem demonstra adaptabilidade e curiosidade para aprender constantemente acaba por se destacar muito mais rapidamente em qualquer processo de progressão de carreira. No fundo, ter uma mentalidade digital é muito mais do que saber tecnologia, é saber trabalhar e evoluir num ecossistema digital que é transversal a todas as funções.
“A verdadeira vantagem competitiva está na literacia em IA, saber como utilizar estas ferramentas para potenciar a produtividade e interpretar resultados de forma crítica”.
A literacia digital tornou-se transversal a praticamente todas as funções. Estamos a conseguir acompanhar esse ritmo ou Portugal ainda está a correr atrás do prejuízo?
Portugal tem feito um caminho interessante e há hoje uma consciência muito maior da importância das competências digitais, mas seria ambicioso dizer que o ritmo é o ideal. A verdade é que a tecnologia evolui a uma velocidade exponencial e o esforço de qualificação, embora real, foca-se muitas vezes na resposta a necessidades imediatas e nem sempre de forma estrutural.
“O que vemos no mercado são níveis de maturidade diferentes. Há organizações bastante avançadas, já a integrar tecnologia e dados de forma estratégica, mas também outras que ainda estão numa fase mais inicial desse percurso”.
O que vemos no mercado são níveis de maturidade diferentes. Há organizações bastante avançadas, já a integrar tecnologia e dados de forma estratégica, mas também outras que ainda estão numa fase mais inicial desse percurso. Nas PME, em particular, fatores como o tempo, os recursos disponíveis e as prioridades do dia a dia podem tornar este processo mais lento. O caminho para não ficarmos para trás passa por uma aposta consistente na requalificação e na atualização constante. Não podemos olhar para a literacia digital como um objetivo que se atinge e fica concluído. É um investimento contínuo. Portugal está a evoluir bem, mas o sucesso futuro vai depender da nossa capacidade de manter este investimento no talento digital de forma estratégica e permanente.





