María Hesse: “Eu não faço um livro para que as pessoas aprendam, mas sim para que as pessoas sintam”

Como descreve o seu processo criativo? Os processos criativos têm variado ao longo dos anos e dependem do livro. Por exemplo, quando faço biografias primeiro preciso de me documentar muito e começar a escrever, para ver o que quero contar e como quero contar. Também para os ensaios, para "O Prazer" e para "Mulheres Más",…
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Autora de livros como "O Medo", "O Prazer" e "Mulheres Más", María Hesse mistura a escrita e a ilustração para contar histórias. A Forbes falou com a autora espanhola durante uma visita a Portugal.
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Como descreve o seu processo criativo?
Os processos criativos têm variado ao longo dos anos e dependem do livro. Por exemplo, quando faço biografias primeiro preciso de me documentar muito e começar a escrever, para ver o que quero contar e como quero contar. Também para os ensaios, para “O Prazer” e para “Mulheres Más”, também precisei documentar-me. Antes eu começava a desenhar nesse processo e decidi parar de o fazer até ter escrito bastante, porque percebi que, até ter interiorizado tudo, também não tinha interiorizado a simbologia que queria aplicar às imagens ou às cores, por exemplo, que são importantes. Cada livro tem cores predominantes. O que acontecia é que os primeiros desenhos tinham de ser repetidos. Mas, por exemplo, “O Medo”, o último livro, na verdade não ia ser um livro. Comecei a desenhar para mim porque é algo que sempre fiz antes de querer ser ilustradora, para me cuidar ou por necessidade de me libertar. Como quando alguém também escreve para si mesmo porque isso o ajuda. Aí, aquilo que iam ser apenas imagens acabou por se tornar um livro. É um processo um pouco peculiar porque primeiro comecei a pintar, depois comecei a pintar os poemas e as canções que decidi que ia colocar, depois a banda desenhada e depois comecei a escrever e a ilustrar o que estava a escrever. Foi diferente.

Qual é que influencia mais o seu trabalho: a escrita ou a ilustração?
A ilustração. Acho que sou melhor a contar histórias com imagens e acho que é isso que mais toca as pessoas. Ainda não me sinto à vontade para, por exemplo, publicar um livro que só tenha palavras e não imagens. Acho que isso seria estranho. Sou definida pela imagem, pela ilustração. Sempre pela ilustração. É como se fosse o mais natural, o mais espontâneo, o terreno em que me sinto mais à vontade. É verdade que cada vez escrevo mais e acho que talvez a minha forma de contar com palavras conecte com as pessoas. Coisas que não se podem contar apenas com a imagem, que é preciso verbalizar. Na verdade, em Espanha escrevi artigos para jornais, mas acho que a parte da imagem conecta mais. Embora existam coisas que, evidentemente, ficariam aquém. Agora, nas redes sociais, falo muito sobre maternidade e preciso de palavras para contar e para que se compreenda.

Como é que descreve o seu processo de pesquisa, principalmente quando falamos das biografias?
Comecei com a biografia de Frida Kahlo porque gostava dela. Tinha uma certa timidez em dizer que sim, há muitas biografias dela, mas quis contá-la com uma perspetiva mais emocional. Escrevi na primeira pessoa porque também me parecia lógico, tendo em conta como era a Frida. E queria muito falar abertamente sobre como ela se sentia, acho que essa forma de o fazer talvez tenha sido mais inovadora. Não estou a dizer que não existam livros assim, provavelmente existem, mas não da minha perspetiva. Claro, cada pessoa conta a partir da sua visão. Funcionou e as outras biografias seguiram essa linha. Não importa que existam muitas biografias, muitas vezes também depende do que te contam e de como te contam. A forma como te contam às vezes também faz com que te conectes de maneira diferente com esses personagens.

Em relação a outros temas, como o prazer por exemplo, agora já se falou muito sobre isso, não é? Mas a verdade é que quando comecei a pesquisar existiam livros que falavam sobre o prazer, mas não eram tão populares naquela época. Quando comecei a trabalhar sobre o prazer, não era tão mainstream. Depois, começou-se a falar muito mais sobre isso e coincidiu que saiu ali num bom momento. Ou com o “Mulheres Más”. Às vezes é verdade que há coisas que estão no ar e, por alguma razão, és capaz de captá-las. E agora que já está feito, parece que há muitos livros, mas quando eu estava a escrevê-lo, não senti que houvesse tantos livros, ou para todos os públicos. É claro que alguém que tenha lido muito sobre feminismo pode achar que o meu livro é insuficiente, não são ensaios profundos de teses de doutorado sobre feminismo, é um livro que compila e cria uma ideia precisamente para esse espetro de pessoas que não leu tanto sobre feminismo e que o aproxima.

A Maria fala de temas como o feminismo, prazer, medo, saúde mental. Sentiu sempre que a sociedade recebeu bem esses livros?
Com “O Medo” eu não queria reivindicar nada. Não queria fazer nada relacionado com a saúde mental, não era a minha intenção. O que acontece é que, como ele fala sobre medos, tudo se associa à saúde mental. Mas os medos são algo inerente ao ser humano e, mesmo que sejamos muito felizes e tenhamos muitas coisas a temer, é natural que ainda assim tenhamos medo e que a nossa vida não seja toda cor-de-rosa. Com “O Prazer” ou “Mulheres Más”, sim. E arrisquei porque, no final, sempre haverá críticas, pessoas que concordam mais, pessoas que concordam menos. Tu mesma podes criticar o teu livro porque, se eu tivesse escrito sobre o prazer agora, seria diferente. Não sou a mesma pessoa que escreveu isso em 2019, muitas coisas aconteceram na minha vida, continuei a ler, a debater, a documentar-me e há coisas que mudaria no livro. Isso é bom. Mas acredito que o fiz porque, na altura, achei que era necessário, que estava bem e que não vou mudar o mundo com o meu livro, mas talvez abra caminhos a algumas pessoas.

Quais são as maiores lições que espera conseguir passar com os seus livros?
Aprender apenas com os meus livros, não, mas pode haver uma parte de aprendizagem. Houve uma época em que eu lia muito sobre feminismo. Evidentemente, a mesma ideia era contada pelas autoras e a reflexão de cada uma delas repetia-se, mas eu acabava a aprender algo novo com todas. No final há um campo limitado, mas eu precisava que me contassem a partir de outra visão.

Sobre o “Marilyn”, por exemplo, acho que há muitas pessoas que ficaram surpreendidas. Eu não inventei nada. É claro que encontrei essas informações ao ler outros livros, pesquisei muito porque há informações que foram menos divulgadas. Então, acho que pode surpreender. Mas depois eu tive que aprender mais, porque talvez se leres a biografia, além do que podes ou não aprender, acho que te aproximas dos personagens de uma perspetiva mais emocional e te conectas de outra forma. Como se fosse um amigo que te está a contar algo. Com “O Prazer “, “Mulheres Más” ou “O Medo”, mais do que aprender, acho que também pode haver uma conexão com alguém que te está a contar algo, porque são livros que, além dos estudos que existem, há uma primeira pessoa que te fala como viveu certas coisas e que talvez quem lê tenha passado por essas questões e pensava que estava sozinho. De repente, sente-se menos sozinho ou mais conectado. Eu não faço um livro para que as pessoas aprendam, mas sim para que as pessoas sintam.

Escreveu a ilustrou a biografia da Frida Kahlo, Marilyn Monroe e David Bowie. Porquê estes?
Um pouco por acaso. Há muitas personalidades que parecem ter uma vida muito interessante. A Frida encantava-me, tinha um desenho dela e quando estava a mostrar o meu portfólio à editora, ele apareceu. O Bowie propôs-me a editora porque tinha feito um desenho em sua homenagem no aniversário da sua morte. E eu gostava dele como profissional. A Marilyn eu queria fazer-lhe justiça porque acho que a visão que temos dela é muito injusta, não nos contaram bem a sua vida. Na verdade, há muitas personagens que têm vidas muito interessantes e sobre as quais eu escreveria.

As biografias são para continuar?
É difícil para mim. É difícil, sinceramente. Às vezes penso sobre quem poderia escrever biografias, mas hoje em dia acho que me motiva mais escrever outro tipo de livros. Não sei, talvez daqui a alguns anos volte a escrever biografias.

Quem são as mulheres más?
Somos todas nós. Porque a conclusão de “Mulheres Más” é que, por qualquer motivo, nos chamam de loucas, prostitutas, más mães. Agora, por exemplo, como sou mãe, é muito forte como nos observam e questionam cada decisão que tomamos. E quando os pais fazem por estar envolvidos, são ótimos pais. Exige-se muito das mulheres. Já foi muito discutido, mas mesmo quando se trata de beleza, não é? Arranja-te, mas não demais. Tem que se estar num ponto de equilíbrio, mas para quem? Além disso, se de repente no trabalho te impões, significa que queres ter autoridade e isso é mal visto. Mas se não, falta-te autoridade. As mulheres são questionadas o tempo todo. Então, a conclusão do livro é que todas nós somos más, porque é muito difícil seguir os padrões que o patriarcado exige.

Nesse livro – “Mulheres Más” – fala de alguns nomes em especifico. O que a levou a escolher esses?
Era abrir um livro, uma revista, consultar a internet. Era importante escolher certos arquétipos, como o da mulher violentada. No caso da Medusa e tantas outras mulheres que foram questionadas depois de terem sofrido violência. O exemplo das más mães, o exemplo das loucas. Pegar nesses arquétipos e a partir daí fazer uma seleção que era muito difícil porque, claro, se partir da base de que todas nós somos más mulheres, qualquer uma poderia ter entrado. Foi muito difícil selecionar. Ao início seriam apenas mulheres da ficção, porque o que eu queria contar era como a ficção nos educava e nos dizia, através do modelo da mulher má, como não devíamos ser, e que essas mulheres acabam sempre por ser mulheres poderosas. Com finais maioritariamente trágicos, porque, além de tudo, se tiverem essa ambição, o final vai ser mau. Mas acabei por decidir colocar-me como um exemplo que agora aborda não apenas o que acontece com pessoas famosas, mas o que acontece com todas as pessoas.

Que projetos serão lançados em breve?
Neste momento estou a ilustrar livros que não escrevi e tenho mais alguns projetos. Espero começar um novo livro no próximo ano. Estamos a ver um pouco o tema, mas tem sido difícil porque estou muito cansada. Sou mãe e a maternidade também me esgota, e a verdade é que “O Medo” não foi lançado há muito tempo.

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