Surgiu um paradoxo em torno da possível nomeação de Kevin Warsh para liderar o Sistema da Reserva Federal. Por um lado, ele é um clássico “hawk” (“falcão” – defensor de política monetária restritiva), que criticou abertamente a Fed em 2025 por não manter a estabilidade de preços. Por outro lado, a sua candidatura está a ser promovida por uma administração interessada em “dinheiro barato”.
À primeira vista, estas posições parecem incompatíveis. No entanto, Warsh está, na verdade, a propor uma nova base intelectual para a política monetária: o crescimento da produtividade através da IA como escudo deflacionário, permitindo manter as taxas mais baixas sem risco de sobreaquecimento.
Neste enquadramento, importa considerar que a hipótese de a IA funcionar como um amortecedor da inflação estrutural caso se materialize o expectável incremento da produtividade poderá motivar uma ação mais agressiva da FED na trajetória da flexibilização monetária.
Focar na produtividade: mudar a dinâmica da curva da oferta
O modelo clássico da Fed trabalha com a procura: se a inflação sobe, as taxas são aumentadas para “arrefecer” o mercado. Mas Warsh aposta no lado da oferta.
Se a IA generativa aumentar a produtividade total dos fatores, as empresas poderão produzir mais ao mesmo custo. O PIB potencial aumentaria e os custos unitários tenderiam a moderar-se. Neste contexto, a inflação poderia ser contida não através da restrição monetárias, mas sim pela expansão da capacidade produtiva.
É relevante notar que se trata de uma alteração do paradigma estrutural: no lugar da política monetária visar o arrefecimento da procura, subsiste a confiança que os ganhos de produtividade com a IA potenciem o incremento da oferta que permita absorver os riscos de pressões inflacionistas.
Precedente histórico: o paralelismo com a era Greenspan
Desde 2012, a Fed fixou um objetivo de inflação de 2%. A hipótese atual introduz uma nova interpretação: a estabilidade de preços poderá ser alcançada não apenas através da restrição monetária, mas também por via de ganhos estruturais de produtividade.
Historicamente, isto recorda a “era Greenspan” dos anos 1990. Nessa altura, o presidente da Fed ignorou os apelos para subir as taxas, argumentando que a internet tinha mudado a estrutura da economia. Ele tinha razão: os EUA viveram uma década de rápido crescimento com baixa inflação. Warsh tenta repetir esta manobra, ao fazer da IA o principal argumento para manter condições financeiras acomodatícias (flexíveis).
É também relevante sublinhar que a comparação com o final dos anos 90 acaba por ser inevitável face a alteração de paradigma que também se vivenciou com o início da revolução dotcom. Ainda assim, o ciclo económico atual oferece circunstâncias distintas, uma vez que o nível absoluto do crescimento do nível de preços no final da decada de 90 não tem paralelo com o que observamos na decada vigente em resultado dos excessos fiscais e monetários realizados na saída do Covid, independentemente da revolução IA em curso. Esta situação torna evidente que os riscos de um eventual erro de política monetária para conter a inflação no ciclo atual acarretaria um efeito macroeconómico potencialmente bastante mais adverso.
Implicações para os mercados
Se a Fed adotar esta doutrina e se tornar mais tolerante a picos inflacionários, os mercados poderão interpretar a mensagem como estruturalmente favorável aos ativos de risco. No caso das ações, um cenário “Goldilocks” — de crescimento equilibrado sem inflação excessiva — tende a beneficiar ações de crescimento e o setor tecnológico, especialmente empresas com alta proporção de custos laborais que podem ser otimizados pela IA. Para o mercado de rendimento fixo, espera-se um bear steepening, com taxas de curto prazo mantendo-se baixas, enquanto os rendimentos de longo prazo (10 anos ou mais) podem subir devido a expectativas de crescimento sustentado, prémios de inflação e déficits orçamentais estruturalmente elevados. No âmbito do capital de risco, uma política monetária acomodatícia proporcionará liquidez para investimentos de longo prazo em inovação e start-ups.
Principal risco: o paradoxo de Solow
A aposta na IA não é um dado adquirido, mas sim uma hipótese. Aqui reside uma armadilha conhecida como paradoxo de Solow: “Vemos computadores em todo o lado, exceto nas estatísticas de produtividade”.
- Cenário otimista: A produtividade supera 2–2,5 % ao ano e valida a tolerância monetária.
- Cenário adverso (erro de política): O impacto real da IA atrasa-se e a Fed já flexibilizou a sua política, gerando inflação persistente com taxas baixas.
Observa-se um foco de tensão na expectativa de suavização dos riscos inflacionistas com os ganhos de produtividade resultantes da IA pouco discutido: caso a revolução em curso avance mais rápido pode verificar-se uma deterioração significativa no mercado de trabalho que se traduz numa perda de receita fiscal importante e pode mesmo obrigar o Governo a incrementar o nível de despesa pública para mitigar riscos sociais. Esta situação coloca maior pressão nas taxas de juro de longo prazo como sustenta a inflação a níveis historicamente mais elevados.
Implicações para o investimento
Os investidores devem preparar-se não para as taxas de juro em si, mas para maior volatilidade. No curto prazo, este é um sinal otimista para ativos de risco em geral, mas no médio prazo o papel dos ativos defensivos aumentará.
Os investidores devem considerar três pontos:
- O período de política acomodatícia pode sustentar as ações, especialmente as tecnológicas.
- Se o crescimento da produtividade ficar aquém das expectativas, a inflação voltará a ser um problema.
- Neste caso, a resposta da Fed será mais severa do que num ciclo normal.
Num ambiente assim, aumenta o papel dos instrumentos defensivos: ativos protegidos contra a inflação, matérias-primas e imobiliário. Neste contexto, é fundamental equilibrar risco e proteção.
Para monitorar o sucesso da estratégia de Warsh, é importante acompanhar a produtividade do trabalho, que deve crescer acima de 2% ao ano, os custos unitários do trabalho, cuja queda indicaria eficácia da IA, e a inflação implícita; se as expectativas de mercado se afastarem de 2%, o “crédito de confiança” de Warsh estará em risco.
Em suma:
Se a produtividade estiver a crescer e a inflação a cair, a estratégia de Warsh estará a funcionar. Se a produtividade estagnar e a inflação subir com taxas baixas, estaremos perante um “erro de política”, e o mercado obrigacionista começará a reagir de forma brusca. Neste contexto é igualmente relevante ter em conta que o repricing dos ativos financeiros será significativo caso a taxa da dívida americana a 10 anos supere o corredor de 4,5-5%, traduzindo uma clara deterioração dos prémios de risco que pode determinar uma quebra mais acentuada do mercado acionista.
Conclusão
A abordagem de Kevin Warsh é, essencialmente, uma estratégia de capital de risco à escala nacional. O regulador está a apostar que a tecnologia superará a “imprensa de imprimir dinheiro” (metáfora para a expansão monetária). Se a aposta resultar, os EUA poderão viver um novo superciclo de crescimento. Caso contrário, os investidores enfrentarão um regresso abrupto à realidade, onde a inflação volta a ser combatida com taxas de juro elevadas. Os próximos anos serão um período em que a política monetária dependerá diretamente da velocidade do progresso tecnológico, mais do que dos ciclos de consumo.
João Lampreia,
especialista de mercado na Freedom24




