No final de 2025, a aquisição da startup chinesa de Inteligência Artificial (IA) Manus pela Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, integrou a lista dos acontecimentos mais marcantes do ano no setor tecnológico. Avaliada em mais de dois mil milhões de dólares, a operação simboliza a intensificação da guerra tecnológica entre os Estados Unidos da América (EUA) e a China.
No ano passado, a Manus destacou-se pelo desenvolvimento de agentes de IA autónomos, capazes de executar tarefas complexas com mínima supervisão. A incorporação desta tecnologia permitirá à Meta reforçar os seus produtos com funcionalidades que superam os chatbots tradicionais e aproximam a interação entre IA e utilizadores de um cenário em que ambos colaboram de forma mais contínua e produtiva.
A trajetória da Manus, fundada na China, inclui a transferência da sua sede para Singapura, numa manobra estratégica que antecipava restrições regulatórias. Pouco depois, as autoridades chinesas anunciaram uma investigação à própria aquisição, motivada, entre outros fatores, pela mudança de sede, entendida como uma tentativa de contornar tensões entre os EUA e a China, enquanto facilitava investimentos estrangeiros. Portanto, no atual contexto internacional, grandes transações estão inevitavelmente sujeitas a escrutínios políticos cada vez mais rigorosos.
Já nos primeiros dias de 2026, o mercado de monetização de IA também sofreu alterações significativas. A OpenAI declarou que vai testar anúncios no ChatGPT nos EUA, incluindo na versão gratuita, como forma de diversificar receitas e sustentar a operação de modelos cuja escala implica custos elevados. Tal decisão assinala o início de uma nova era na IA, que transita de ferramenta experimental para um produto de consumo global com objetivos de rentabilidade.
Além disso, a introdução de publicidade em chatbots levanta questões sobre a experiência do utilizador e a perceção de imparcialidade. Não obstante, empresas como a Anthropic criticaram esta opção e apostam em alternativas sem anúncios, de modo a demonstrar que a confiança e reputação continuarão a ser critérios determinantes na escolha dos utilizadores.
Paralelamente, a rivalidade tecnológica entre “superpotências” manifestou‑se também nas redes sociais. A plataforma TikTok concluiu, em janeiro, a venda da maioria das suas operações nos EUA. O acordo transfere o controlo de dados e algoritmos para uma entidade com maioria acionista americana e encerra uma disputa legal que se prolongava desde 2019. Este desfecho ilustra claramente como a preocupação pela segurança nacional e soberania digital condiciona atualmente as operações de empresas de grande escala e redefine a presença das plataformas nos diferentes mercados.
A venda do TikTok confirma que, para além da IA generativa, existem outras frentes em que a rivalidade entre potências mundiais dita o futuro digital. Plataformas que operam globalmente e acumulam dados de utilizadores tornaram‑se objetos de política pública, com o governo norte‑americano a procurar limitar a interferência de empresas oriundas de países considerados adversários estratégicos.
No seu conjunto, a compra da Manus, a aposta da OpenAI em publicidade e a reestruturação do TikTok revelam que a tecnologia se transformou num campo de batalha económico e geopolítico. Cada decisão corporativa tem repercussões globais, que influenciam os mercados, regulamentos e, inclusive, estratégias nacionais de segurança tecnológica. O ano de 2026 será, assim, de consolidação da guerra entre EUA e China no universo tecnológico.
Margarida Loureiro,
Presidente da JUNITEC – Júnior Empresa do Instituto Superior Técnico





