A Inteligência Artificial está aí para ficar e está a impactar todos os setores. O da Saúde não é exceção e é alias, um dos que mais pode ganhar com a adoção desta tecnologia. A Forbes Portugal fez uma ronda por diversos especialistas e startup na área para medir o pulso ao setor nacional, um trabalho que foi publicado na edição impressa de fevereiro/março. O português Ricardo Batista Leite, CEO da HealthAI – The Global Agency for Responsible AI in Health, , foi um dos ouvidos neste trabalho e cuja entrevista vamos publicar aqui na integra.
“Portugal está entre os países mais envelhecidos da União Europeia e sabemos que os sistemas de saúde, conforme os conhecemos, não vão ter capacidade de resposta. São modelos reativos que apenas atuam quando as pessoas estão doentes, ou seja, tarde demais. Muitas das empresas nacionais que se têm focado na IA aplicada à saúde têm procurado contribuir no sentido de trazer soluções que permitem, por um lado, a monitorização e acompanhamento dos doentes crónicos e, por outro, ferramentas de apoio à decisão clínica que promovem a existência de cuidados mais personalizados, assim como intervenções preventivas”, explica Ricardo Baptista Leite. O responsável da instituição sem fins lucrativos que procura dar voz a uma utilização responsável da IA na área da saúde refere ainda que se pretende que este tipo de ferramentas sejam um parceiro dos profissionais de saúde. “Surgem continuamente soluções que contribuem para uma mais eficiente análise dos milhares de dados que todos os dias são gerados em locais de prestação de cuidados de saúde, e outras que apoiam as equipas em tarefas consideradas mais burocráticas e que, por isso, permitem aos profissionais de saúde ter mais tempo para investir em atividades que possam gerar maiores ganhos em saúde das populações que servem”. Veja em baixo a entrevista completa.
Como avalia o desenvolvimento e a qualidade das empresas nacionais que estão a surgir no segmento da IA aplicada à saúde?
Creio que as empresas nacionais que estão a surgir no segmento da Inteligência Artificial aplicada à Saúde têm conseguido posicionar-se corretamente, procurando responder aos desafios atuais e a antever oportunidades futuras na área da saúde. Muitas têm-no feito alinhando o desenvolvimento da inovação com uma abordagem de utilização responsável da inteligência artificial, fator que contribui para uma maior confiança na tecnologia e, consequentemente, maior probabilidade de escalabilidade destas soluções no mercado português e além-fronteiras. Sabemos que Portugal está entre os países mais envelhecidos da União Europeia e que os Sistemas de Saúde, conforme os conhecemos, não vão ter capacidade de resposta. São modelos reativos que apenas atuam quando as pessoas estão doentes, ou seja, tarde demais.
Muitas das empresas nacionais que se têm focado da IA aplicada à Saúde, têm procurado contribuir no sentido de trazer soluções que permitem, por um lado a monitorização e acompanhamento dos doentes crónicos e por outro, ferramentas de apoio à decisão clínica que promovem a existência de cuidados mais personalizados, assim como intervenções preventivas. Pretende-se que este tipo de ferramentas sejam um parceiro – um verdadeiro coadjuvante – dos profissionais de saúde. Ainda neste campo, continuamente surgem soluções que contribuem para uma mais eficiente análise dos milhares de dados que todos os dias são gerados em locais de prestação de cuidados de saúde, e outras que apoiam as equipas em tarefas consideradas mais burocráticas e que, por isso, permitem aos profissionais de saúde ter mais tempo para investir em atividades que possam gerar maiores ganhos em saúde das populações que servem.
Portugal tem de criar as condições regulatórias e de governança que permitam que as soluções de IA que objetivamente acrescentem valor à saúde possam escalar e contribuir para a transformação do sistema de saúde como um todo.
Como vê o crescimento deste mercado em Portugal?
Apesar de já termos muito bons exemplos de startups portuguesas nesta área, penso que Portugal tem ainda um grande caminho a percorrer. O nosso país ocupa a posição 39 no Ranking Ease of Doing Business do World Bank Group, comparativamente com por exemplo a Dinamarca, um país europeu que ocupa a 4ª posição o que, naturalmente, tem impacto na forma como as empresas se instalam e se desenvolvem em Portugal. É necessário criar incentivos para empresas nacionais e internacionais que trabalham nesta área se possam instalar e desenvolver o seu negócio no nosso país. Por outro lado, os exemplos práticos de aplicação de Inteligência Artificial no nosso país cingem-se quase sempre a projetos-piloto. Portugal tem de criar as condições regulatórias e de governança que permitam que as soluções de IA que objetivamente acrescentem valor à saúde possam escalar e contribuir para a transformação do sistema de saúde como um todo. Por fim, o mercado carece ainda de ferramentas de acesso aos dados de forma estruturada e orientada para a inovação. Sem resolver o problema da gestão dos dados em saúde, dificilmente veremos um crescimento excecional do mercado de IA no país.
O que estima para os próximos anos em termos de novas soluções disruptivas?
Se os responsáveis pela saúde continuarem a aplicar a IA em processos reconhecidamente ineficientes, apenas veremos como a tecnologia tornará o sistema de saúde cada vez “mais eficiente a ser ineficiente”. É fundamental que se saiba qual a transformação que pretende provocar no sistema de saúde e depois a tecnologia será um instrumento para operacionalizar essa visão. Dito isto, será inevitável que os sistemas de saúde se tornem cada vez menos reativos à doença e mais focados em proativamente promover a saúde das populações. Assim, creio que veremos cada vez mais soluções de apoio ao diagnóstico precoce de doenças e na área da prevenção e da promoção da saúde. De forma a conseguirmos responder aos desafios que um sistema de saúde enfrenta quando existe uma população envelhecida, é necessário garantir que fazemos tudo para que as pessoas não fiquem doentes e, se ficarem, é importante garantir que sejam diagnosticadas o mais rapidamente possível para serem tratadas de forma célere. Todas as doenças que são evitáveis devem ser prevenidas. E todas as doenças que são curáveis devem ser curadas. Se seguirmos estes princípios com o apoio da IA, acabaremos por ver uma redução significativa da carga da doença nas comunidades e teremos uma população mais saudável, produtiva e feliz.
De que forma as empresas nacionais se vão impor neste mercado tão concorrencial?
Não tenho dúvidas do talento que temos no nosso país. Tenho a certeza de que surgirão soluções disruptivas e melhoradas nesta área fruto do trabalho de inovadores muito competentes e que serão capazes de obter investimento para levar o seu trabalho mais além. No entanto, o esforço que necessitarão de fazer para obter esse investimento é muito maior quando comparado com outros mercados. Acredito que é um processo que traz alguma resiliência que depois é valorizada lá fora, mas o caminho até lá pode ser verdadeiramente exigente. Dito isto, sem resolver alguns dos desafios estruturais que citei anteriormente, desde a governança da IA à gestão e acesso aos dados em saúde, dificilmente os inovadores portugueses conseguirão competir com os principais concorrentes à escala internacional.
Resolvidas as questões estruturais, será depois necessário encontrar formas de atrair capital e alinhar os incentivos fiscais para empresários e investidores para acelerar o desenvolvimento do setor em território nacional.
Acredita que conseguiremos ter um cluster nacional nesta área?
Quero acreditar que sim, também porque muitas das empresas que se estabelecem nesta área querem posicionar o nosso país e criar cluster nacionais é uma forma de aumentar a competitividade de um país. Além disso, são sempre uma excelente oportunidade de fomentar colaboração entre empresas com backgrounds diferentes (empresarial, académicos) e de trocar conhecimento, aspetos muito úteis na fase de crescimento das startups. Aqui o apoio intencional do governo e das autoridades locais poderão ser um potencial acelerador na criação de clusters geradores de valor. Uma oportunidade que deve ser assumida como de importância estratégica para a economia do país.
Como pode o país ajudar a melhor a qualidade e o investimento nestas startups? Se não o fizer, muitas acabarão por ir parar a mercados internacionais, certo – ou vão acabar por sair do país como a Sword Health?
Creio que o essencial será promover um ambiente regulatório e de governança em Portugal que seja mais atrativo para empreendedores que querem desenvolver inovação no país. Insisto que sem resolver a gestão e acesso aos dados em saúde, assim como a relação de colaboração entre os que desenvolvem as tecnologias e os reguladores com vista a acelerar a agenda da inovação, dificilmente veremos um verdadeiro crescimento do setor. Resolvidas as questões estruturais que acabo de mencionar, será depois necessário encontrar formas de atrair capital e alinhar os incentivos fiscais para empresários e investidores para acelerar o desenvolvimento do setor em território nacional. Por fim, é fundamental que as inovações que venham a ser desenvolvidas tenham acesso ao mercado, podendo o sistema de saúde português, incluindo o SNS, um excelente ‘laboratório’ onde estas tecnologias possam beneficiar os doentes portugueses, e com isso apoiar as empresas a demonstrarem o impacto das suas soluções. Se demonstrarem que a IA pode melhorar a saúde dos portugueses, estaremos a apoiar as empresas a serem mais bem-sucedidas a exportar essas mesmas tecnologias para outros mercados estrangeiros.





