Opinião

Instabilidade global: desafios e resposta do setor segurador

Afonso Themudo Barata

Uma das maiores inevitabilidades da vida é a mudança. Não é um fenómeno novo, mas a velocidade e a intensidade com que hoje se manifesta tornam-na particularmente desafiante. Vejamos, aliás, o que se passa no Médio Oriente e a crescente imprevisibilidade no posicionamento das partes envolvidas.

Ora, isso traz grandes desafios porque o mundo é global. Os mercados estão interligados e um conflito à escala do que testemunhamos impacta a normalidade. Desde logo, é impossível não referir aquilo que teve um efeito mais imediato: a subida do preço do gás e do petróleo, à qual se associa a inflação, as flutuações nas taxas de juro e a crescente fragmentação das cadeias de abastecimento.

Se a normalidade é afetada e o crescimento económico se vê refém da incerteza que se vive por estes dias, tanto no âmbito do posicionamento político como das regras e enquadramentos legais, o planeamento estratégico das empresas a médio e longo prazo torna-se num enorme desafio. A isto soma-se a perda de rendimento real, a insegurança laboral e a consequente vulnerabilidade financeira de famílias e empresas.

Apesar de Portugal não ser um foco geopolítico e continuar, à beira-mar, a aproveitar o seu horizonte azul, o país não é imune à mudança do mundo. É expectável, como já acontece em alguns casos, que os efeitos deste confronto se venham a sentir no dia a dia das pessoas, nomeadamente através do aumento do custo de vida, da pressão inflacionista e de perturbações nas cadeias de abastecimento, que impactam diretamente os custos operacionais e, no caso do setor segurador, a gestão dos sinistros.

Quando a situação é de grande volatilidade e o mercado está vulnerável, é natural que o setor segurador desempenhe o seu papel, assumindo-se como um agente estabilizador. Num contexto de risco crescente e interligado, onde fatores geopolíticos, climáticos, energéticos e até cibernéticos se influenciam mutuamente, a necessidade de proteção torna-se mais evidente. Ainda assim, a pressão económica sobre famílias e PME’s, marcada pela perda de poder de compra, leva muitas vezes à redução ou eliminação de coberturas de seguro precisamente num momento em que estas são mais necessárias, agravando o desafio de mitigação do “protection gap”.

Ao refletir sobre o impacto que a atual situação geopolítica tem na indústria seguradora, não posso deixar de referir outros desafios que se tornam cada vez mais evidentes. Os eventos extremos, mais frequentes e severos, têm vindo a pressionar a sinistralidade, sobretudo nos ramos patrimoniais, ao mesmo tempo que introduzem maior imprevisibilidade no comportamento dos sinistros. A par disso, a dependência da imigração no tecido laboral português, num contexto de envelhecimento da população, levanta novas questões sobre o impacto que a instabilidade geopolítica poderá ter nos fluxos migratórios, seja através da sua restrição, seja pelo aumento de movimentos provenientes de regiões em conflito.

Em suma, o mundo é composto de mudança. E se o mundo é global, os efeitos dessas mudanças, mais rápidas ou mais lentas, fazem-se sentir de forma transversal. A imprevisibilidade e a instabilidade geram insegurança e, por isso, torna-se cada vez mais necessária uma maior predisposição para planear atempadamente e investir na proteção, salvaguardando a estabilidade. Neste contexto, o setor segurador tem também a responsabilidade de se adaptar com agilidade, antecipar tendências e desenvolver soluções que respondam de forma eficaz aos novos riscos, apoiando clientes e parceiros num ambiente em constante transformação. É neste enquadramento que, na Mudum e em alinhamento com o nosso Grupo Crédit Agricole, acompanhamos de perto esta evolução, trabalhando em conjunto com clientes e parceiros para desenvolver soluções que respondam de forma eficaz a um contexto de risco cada vez mais dinâmico e exigente.

Construir resiliência hoje será determinante para garantir segurança amanhã.

Afonso Themudo Barata,
CEO da Mudum – Companhia de Seguros

 

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