Inês Rocha, a portuguesa que está a reconstruir a Ucrânia

Aos 50 anos, Inês Rocha, tem um sonho: voltar a ter uma Europa em paz.  A portuguesa, que nasceu no Porto e saiu cedo para estudar e abraçar o mundo, lidera, desde maio de 2024, a Internacional Finance Corporation (IFC) na Europa, instituição do Grupo Banco Mundial focada no investimento do setor privado europeu nos…
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Inês Rocha, anteriormente directora de Parcerias e Impacto no BERD, assumiu, em 2024, a direção regional para a Europa da IFC, instituição do Banco Mundial para o investimento privado nos mercados emergentes. A gestora nacional tem como missão, entre outras, a reconstrução da Ucrânia, procurando apoiar investimento privado na região devastada pela guerra. O Banco Mundial estima que sejam necessários 520 mil milhões de dólares para reconstruir o país nos próximos anos.
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Aos 50 anos, Inês Rocha, tem um sonho: voltar a ter uma Europa em paz.  A portuguesa, que nasceu no Porto e saiu cedo para estudar e abraçar o mundo, lidera, desde maio de 2024, a Internacional Finance Corporation (IFC) na Europa, instituição do Grupo Banco Mundial focada no investimento do setor privado europeu nos mercados emergentes. Um dos seus grandes desafios é encontrar investimento privado para apoiar a reconstrução da Ucrânia. Juntamente com o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), no qual trabalhou quase duas décadas, apoiou um investimento de mais de 400 milhões de dólares (cerca de 345 milhões de euros) na Ucrânia, no setor das telecomunicações, sendo este o maior investimento privado no país desde o início da guerra, em fevereiro de 2022. Ainda que tenha outros desafios pela frente, o de recolher investimento para esta zona em conflito é de todos o que lhe ocupa mais tempo. Encara a sua carreira como uma missão de vida, e não apenas como um emprego, já que as questões sociais sempre foram o motor da sua atuação. Conheça um pouco, em entrevista, desta gestora que não abandona as suas raízes e guarda na memória o cheiro da maresia e dos bons momentos de infância passados junto ao mar.

Oriunda de uma família de médicos e engenheiros, Inês é a segunda de quatro filhos, que cresceram com as memórias do mar sempre presentes. Gostava de Matemática, mas decidiu seguir o caminho da Economia, porque já então tinha o sonho de fazer algo com impacto social. Acabou o curso na Faculdade de Economia da Faculdade do Porto e o seu primeiro emprego foi no Banco de Portugal. Dois anos depois partiu rumo a Londres para seguir os estudos na London School of Economics. Trabalhou na UBS e no Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), instituição na qual se manteve cerca de 19 anos. Foi em maio de 2024 que foi nomeada diretora regional para a Europa da IFC. Casada com um italiano, que conheceu em Oxford, tem dois filhos, Matias, com 17 anos e Frederico com 15. Apesar de estar a trabalhar a partir de Paris, a família está a sediada em Milão, cidade para a qual viaja habitualmente aos fins de semana. A executiva, que tem dupla nacionalidade – portuguesa e britânica – pertence ainda ao grupo Diáspora Portuguesa, no qual participa ativamente.

Inês Rocha concedeu esta entrevista à Forbes Portugal no início deste ano, e foi publicada em papel na edição número 84, relativa a fevereiro/março, e vamos agora replicar a versão integral da mesma na revista online. 

 

A Inês nasceu no Porto. Conte-me um pouco da sua infância e algumas memórias de família que a tenham marcado…

Eu nasci, vivi e cresci no Porto. Os meus pais são os dois portugueses, embora a minha avó materna seja brasileira, do Rio de Janeiro. Cresci à beira-mar, na zona da Foz, e passei muito tempo na praia. Uma das grandes memórias que ainda tenho é o mar. Cresci com o mar e com o cheiro do mar, e sempre que venho a Portugal, tenho de ver água. Nós, os portugueses, sempre fomos muito mais virados para o mar do que para a terra e eu tenho esta relação muito forte com o mar. Somos uma família grande – sou a segunda de quatro irmãos – e a minha mãe, como adora receber, tinha sempre a porta aberta. Tenho muitos primos e a minha mãe fazia às quartas-feiras à noite um jantar de primos. Portanto, cresci com a minha família alargada muito presente. Aliás, um dos meus melhores amigos sempre foi um primo, o João. Foi uma infância muito tranquila, muito feliz.

 

Fez o seu curso de Economia na Faculdade de Economia da Faculdade do Porto. O que é que a puxou para esta área? Teve alguma influência familiar?

Não, até porque venho de uma família de médicos e engenheiros. Desde sempre que tenho a convicção de que queria fazer alguma coisa com impacto social e económico. Recordo-me que, quando estava no 9º ano, e escolhi Economia, já gostava de ler os temas políticos e económicos nos jornais. A The Economist e o Financial Times eram as minhas leituras de fim de semana. Isso e resolver problemas matemáticos. Entrei na FEUP, em 1993, e pelo meio fiz um Erasmus em Grenoble, na França, experiência que mudou bastante a minha vida. Foi a primeira vez que eu saí de Portugal e comecei a ver as coisas de maneira diferente.

 

Entretanto terminou o curso em 1998 e entrou logo no Banco de Portugal. Como surgiu essa oportunidade?

Na altura, foi o único emprego a que concorri, porque estava muito focada naquilo que queria. Entrei no Banco de Portugal através de um estágio, para o Departamento de Relações Internacionais, no qual trabalhava com os Palop, na altura da adoção do Euro. Foi um momento de grande transição para Portugal, de grandes mudanças, de muita esperança na União Europeia. Trabalhei dois anos neste departamento que geria as relações com o Banco Central Europeu (BCE), e foi uma grande experiência, porque tinha aqui uma ponte para o mundo.

 

De que forma é que essa experiência marcou o futuro e o desenrolar da sua carreira?

Marcou muito porque reconfirmou que era por ali o meu caminho. Foi uma forma também de estabelecer contactos com instituições portuguesas, com a África, o que também reforçou esta vontade de ir além de Portugal. Foi nessa altura que resolvi fazer um mestrado na London School of Economics, e deixei o Banco de Portugal para ir viver em Londres. Londres era uma cidade grande, o curso era exigente, e além disso fui sozinha. No início não foi fácil, porque estava habituada a ser boa aluna e de repente cheguei a uma universidade em que todos eram bons. Mas, viver em Londres mudou a minha vida. No Porto, estava habituada a pessoas com muita afinidade cultural, e em Londres passei a estar próxima de pessoas com muita afinidade de pensamento, de filosofia de vida e de ambições. Além disso, foi em Oxford que conheci o meu marido, que é italiano.

 

Uma vez em Londres acaba por ir trabalhar para a UBS. Como recorda a experiência da banca privada de investimento?

Londres é um centro financeiro por excelência e por isso é quase impossível não ir parar ao setor financeiro. Acabei o mestrado e fui para a UBS. O meu primeiro trabalho foi numa sala de mercados e eu era uma das poucas mulheres que ali trabalhavam. Era um mundo dominado por homens.

 

Porque deixou a UBS e porquê a escolha do BERD?

Estive cerca de quatro anos na banca de investimento, mas sempre com o foco de querer voltar para um trabalho mais institucional. Nessa lógica, o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), que tem base em Londres, era uma ótima opção. O edifício era ao lado do da UBS e pensava: um dia ainda venho para aqui trabalhar. E fui. Entrei para o departamento de tesouraria e mal sabia que ia ficar lá 19 anos, até chegar ao Banco Mundial.

Inês Rocha. Foto/Marisa Cardoso

O que a fez mudar para a IFC? Como surgiu este cargo?

O Banco Mundial foi sempre um sonho meu, porque é a maior instituição de desenvolvimento global que existe com o objetivo de redução da pobreza. Esta instituição tem o poder de atuar, e assim contribuir para ajudar a atenuar alguns dos grandes desafios do mundo. Em 2024 surgiu esta oportunidade, candidatei-me e felizmente fui selecionada. Na altura assumia, no BERD, a função de Managing Director Impact and Partnerships, e também a de diretora para a segurança nuclear. Estive, por exemplo, envolvida na nova cúpula para a cobertura da radioatividade em Chernobyl, uma obra de engenharia que foi muito importante para a Ucrânia. O meu trabalho no BERD representou um período fantástico da minha vida, quer de trabalho quer de vida pessoal. Foi nesta fase que nasceram os meus depois filhos, Matias com 17 anos e Federico com 15), fruto de alguma diversidade, porque o meu marido é italiano, mas com origem alemã, da parte do pai e eslovena, da parte da mãe. Portanto, os meus filhos agora falam inglês, português e italiano, e são um bocado o fruto desta nossa diversidade europeia.

 

E estão a viver todos em Paris?

Não, não estão, porque eu viajo muito. O Banco Mundial tem um grande escritório em Paris, com quase 300 pessoas – cerca de 70 pessoas, só na IFC, a área privada. Estou no escritório de Paris durante a semana, mas acabo por estar sempre a viajar. Como sou diretora da IFC, com a responsabilidade do investimento parte ocidental da Europa nos países emergentes, estou muitas vezes em Kiev, na Ucrânia. Demoro mais de 24 horas para lá chegar, já que tenho de apanhar um comboio que demora 12 horas. Por isso, o meu marido e os filhos estão em Milão, e aos fins de semana ou vou a Milão ou eles vêm a Paris.

 

No fundo, na IFC acaba por dar continuidade ao trabalho que já fazia, de alguma forma…

Nesta função cubro a mesma região que cobria antes e continuo também a trabalhar muito com o BERD neste conceito do projeto europeu, de reconstrução da Europa e, principalmente, da Ucrânia. Isto porque quando a guerra começou, estava à frente do departamento no BERD que gere todas as doações dos acionistas, que são os países, incluindo para a Ucrânia. Quando a guerra começou, o BERD não podia fazer, por questões de risco, investimentos sem ter o apoio específico dos acionistas, porque era a primeira vez que se estava a investir num país em guerra. Portanto, estive à frente desta campanha de angariação de fundos para a Ucrânia, que teve bastante sucesso e permitiu depois ao BERD ter o papel muito relevante de investimento na Ucrânia. Tenho a sorte agora de continuar a fazer esse trabalho. Para mim é muito importante, é mais do que um trabalho. É uma missão que nem sempre é fácil, de muita responsabilidade. Trabalho sobretudo em investimentos na Europa Central, na Ucrânia e na Moldávia. A Ucrânia ocupa uma grande parte do meu tempo – tenho uma equipa em Kiev -, não só pela relevância em relação à Europa, mas também porque tem um impacto muito grande em termos de estabilidade económica. Depois tenho também a meu cargo as relações com os acionistas da Europa Ocidental, incluindo com Bruxelas, sempre com foco no setor privado. Os países europeus são ainda os que contribuem mais para doações em termos de desenvolvimento económico, mas o nosso maior acionista é os Estados Unidos.

 

E há quem queira investir na Ucrânia? De que forma fazem então o vosso trabalho nestas zonas de maior necessidade?

É precisamente aí que nós entramos. O IFC atua no setor privado e nossa grande missão é atrair investimento do setor privado para mercados emergentes, incluindo para países em conflito. Em relação à Ucrânia, por exemplo, é necessário que se continue a criar postos de trabalho, que as luzes se acendam, que o aquecimento funcione, porque apesar de alguma deslocação de ucranianos com a guerra, a grande maioria deles ficaram. Ficaram para reconstruir a terra deles, têm ali a família, têm ali a vida e querem lutar. Com a ajuda dos nossos acionistas, e com os fundos de risco – porque a IFC faz investimentos em capital, faz empréstimos e faz garantias na Ucrânia e nestes países emergentes, incluindo da União Europeia – conseguimos atrair investimentos do setor privado, que investem em parceria connosco. A IFC através destas estruturas consegue absorver alguns dos riscos, incluindo até os riscos políticos.

 

Que tipo de setores e de empresas é que estão a alinhar nestes investimentos?

Só para lhe dar um exemplo, fizemos um investimento, que é o maior investimento no setor privado desde o início da guerra, juntamente com o BERD, de mais de 400 milhões de dólares no setor das telecomunicações. Este é um setor chave e que ainda tem procura. Como há blackouts diários e algumas operadoras de telefones deixam ter serviço, as pessoas necessitam ter mais de um cartão SIM. E a IFC procura encontrar quem tenha o network, a capacidade de operação localmente e depois trazer um know-how, uma tecnologia e um grande investimento externo. Esta é uma fórmula que funciona. Na Ucrânia temos já uma joint-venture entre um local e um internacional francês.

 

E isto no fundo acaba, também, por não deixar estas empresas locais desaparecerem completamente…

Isso é fundamental. Estamos a falar de comunicações, e comunicação num país em guerra é fundamental. É tudo. E este investimento está a ter bons resultados. Fizemos também investimentos em bancos, em comércio, em agricultura, porque a Ucrânia é um país muito agrícola. E, muito importante, estamos a fazer vários projetos no setor de energia. A energia é um ponto central na Ucrânia: quando a guerra começou, o país era muito dependente do gás russo. Portanto, teve mudar rapidamente mudar a sua estratégia para se tornar mais independente e é também uma oportunidade para criar energias mais sustentáveis. Por isso estamos a desenvolver energias renováveis na Ucrânia, com produção eólica, solar, e baterias, que complementam a produção. Isto com operadores locais, mas também estamos a tentar atrair operadores internacionais. O dia-a-dia das minhas equipas não é fácil. Só para lhe dar uma ideia, quem vive em Kiev, tem quatro horas de eletricidade por dia. E é-lhe dados slots, muitas vezes o slot é ao meio da tarde, quando as pessoas estão a trabalhar, ou de madrugada, quando ainda estão a dormir.

 

Este país é uma das grandes prioridades nas suas funções atuais, é isso? Que montantes de investimento são necessários para a reconstrução da Ucrânia?

Sim, uma grande prioridade é a reconstrução da Ucrânia. Esta reconstrução, no fundo, começou já logo no primeiro dia da invasão. A Ucrânia ocupa grande parte do tempo que dedico à função, pela complexidade dos seus problemas, pela necessidade de termos mais inovação em termos financeiros, em termos de relacionamento com os outros. As estimativas do Banco Mundial para as necessidades de reconstrução do país são de mais de 520 mil milhões de dólares para os próximos anos. Estima-se que um terço destes valores possa ser feito pelo setor privado, que vai ter um papel muito importante porque os orçamentos públicos têm limitações.

 

Mas há outros problemas urgentes na Europa….

Claro, há outros problemas, até porque este conflito tem impacto na zona periférica. Por isso trabalho também na Moldávia, que é um país de fronteira, que apesar de não estar em guerra, também tem desafios. Depois trabalhamos com países como a Polónia, a Roménia, a Bulgária, países mais desenvolvidos, mas que precisam trabalhar a transição energética, a competitividade, a produtividade. O Banco Mundial está muito focado na criação de postos de trabalho. Isto porque um emprego, em muitos dos países emergentes – e não só – representa a dignidade, representa a esperança sobre o futuro. Encontrar investimentos que apoiem a criação de emprego e de trabalho é um dos grandes objetivos. Nas minhas funções tenho ainda a responsabilidade das relações com os nossos acionistas, com os europeus em particular, que são ainda os que contribuem com mais doações. Mas o nosso maior acionista é os Estados Unidos.

Inês Rocha. Foto/Marisa Cardoso

O que é que está previsto em termos de orçamento anual da instituição?

O valor global do IFC no mundo rondou os 70 mil milhões de dólares. Só na Europa, o banco investiu na região, no ano fiscal de 2025 – que decorre de julho a julho – 7,7 mil milhões de dólares. Só fazemos investimentos na parte das economias emergentes, não na Europa Ocidental. Este montante inclui, não só o que colocámos, mas também o que mobilizamos de outros investidores.

 

E em relação a Portugal, o que pode avançar?

Em relação a Portugal, temos investimentos com empresas portuguesas no mundo, sendo a maior parte na África, na América Latina, países nos quais, historicamente, há mais ligações. Temos, de momento, um portfólio com investimentos de empresas portuguesas na ordem dos 500 milhões de dólares.

 

Estamos a falar somente de empresas privadas?

Sempre empresas privadas e sobretudo nos setores da construção, no setor dos bens alimentares, no setor da energia. Portugal tem muita tecnologia e expertise no setor de energia, especialmente em energias renováveis. Faz parte do nosso trabalho desenvolver relações com empresas portuguesas e levá-las para mercados emergentes. Ou, no caso de muitas, que já estão presentes em mercados emergentes em África, como Angola e Moçambique, estabelecer parcerias para projetos mais ambiciosos ou que têm alguns riscos maiores.

 

E como conseguem atrair empresas portuguesas que, como sabemos, são um pouco avessas ao risco?

Estabelecer parcerias com instituições internacionais, como o Banco Mundial e com o Banco Europeu, são úteis por várias razões. A primeira é que temos equipas locais, com mais de 40 pessoas, nos países africanos de língua oficial portuguesa, que podem facilitar. A segunda vantagem é que o Grupo Banco Mundial tem várias instituições, uma delas é o IFC, que se ocupa da parte privada, e outra é o IBRD – o International Bank for Reconstruction Development, que faz empréstimos, e que se ocupa do setor público. Portanto, aqui as transações são feitas com governos, mas tem um grande papel nas reformas legais e reformas de regulamentação, a implementar estratégias de apoio ao setor privado. E esta ligação faz parte do nosso trabalho com os governos para estabelecer regras e legislação para atrair investimentos.

Uma terceira são os serviços de consultoria, muitas vezes financiados também pelos nossos acionistas, e que vão da preparação dos projetos até ao investimento. E depois ainda oferecemos a vantagem de termos standards ambientais e sociais muito elevados, que usamos como filtro para os nossos projetos. Há assim a garantia de houve uma análise rigorosa dos projetos e isso dá segurança a quem vai investir. Claro que vai haver sempre riscos: quando investimos na Ucrânia, inevitavelmente não podemos eliminar os riscos.

 

Há alguma empresa portuguesa interessada em investir na Ucrânia?

Temos estado em conversações com uma empresa que trabalha na área de energias e que está interessada em investir, sim. Portugal tem expertise e poderia contribuir para o desenvolvimento do setor energético na Ucrânia.

 

Mas as empresas portuguesas procuram investir mais em África, sobretudo em Angola e Moçambique, certo?

Sim, os investimentos que temos feito com as empresas portuguesas têm sido mais na África lusófona, como Angola e Moçambique, e também na América Latina e Brasil. Mas também temos algumas empresas que fazem investimentos, por exemplo, na Polónia. Mas historicamente, o nosso apoio tem sido mais em África e na América Latina.

 

Sente, de alguma forma, barreiras pelo facto de ser uma mulher a liderar esta importante área do IFC? Ou até na mesa de negociações com os países onde está a investir?

No caso do Banco Mundial não, já que aqui é dado muito espaço à liderança feminina. Agora em algumas reuniões fora, em países emergente, às vezes sinto pequenas nuances, umas “microagressões”. Posso estar numa reunião, por exemplo, e apesar de ser a pessoa de representação mais sénior, os interlocutores vão falar diretamente para outra pessoa, desde que seja o homem.

 

Mas, em termos de carreira, sente que teve que se esforçar mais ou teve que provar mais pelo facto de ser mulher?

No início, sim, quando trabalhava em banca de investimento, que era um mundo mais masculino. Há 25 anos, quando comecei, tinha de demonstrar mais do que outros para poder afirmar a minha voz, para ser ouvida. Mas durante a minha carreira sempre tive sponsors masculinos, que me ajudaram bastante a evoluir. Agora não penso tanto nisso. Aliás, acho que até é uma vitória, no sentido de que não tenho de pensar.

Inês Rocha, no Hotel Heritage em Lisboa. Foto/Marisa Cardoso

Quer dizer que é um tema que já não está tão presente, é isso?

Na minha carreira trabalhei em muitos projetos para promoção de liderança feminina, porque muitos países têm mesmo restrições e leis que dão mais privilégios aos homens. Sempre fiz estas campanhas, e o objetivo é chegar ao ponto em que as campanhas não são precisas. Sinto que em Portugal também se fez uma grande progressão neste sentido. Acho que é importante chegar a uma situação que a promoção é por mérito, não interessa se é mulher, ou homem.

 

Como definiria o seu estilo de liderança? Em que é que se inspira para essa liderança?

As minhas equipas dizem que eu tenho uma liderança empática, talvez por natureza. Tento pôr-me na posição dos outros, tentar perceber o que é que os motiva a ter determinadas posições. Gosto de pensar que tenho uma liderança otimista, de achar que se consegue fazer as coisas, dentro do que temos. Especialmente agora que temos tantos desafios e complexidades, temos de ter algum otimismo. Tal como dizia Fernando Pessoa, somos medidos pelos nossos sonhos.

 

Em termos de ambição futura, o que espera ainda alcançar na vida, em termos profissionais e em termos pessoais?

Tenho muita sorte de ter este trabalho com poder de atuar, um trabalho que assumo com a máxima responsabilidade, e assim poder fazer algo com impacto social, de reconstrução económica. Gostaria de continuar a trabalhar na promoção do desenvolvimento económico, na melhoria das condições de vida, de poder dar alguma esperança. Às vezes penso que não é bem uma ambição, é mais uma missão.

 

E qual é qual é o seu maior sonho para ter uma Europa unida, coesa, homogénea, para os próximos anos? Como é que vê esta Europa? Está em risco?

O meu sonho é ter uma Europa em paz. Sou de uma geração que não conhecia a guerra. Conheci uma Europa sem fronteiras, de liberdade, de respeito pelos direitos humanos, e de repente vivemos numa situação para a qual não estávamos preparados. Na Europa, sentíamos que as guerras eram distantes. O meu sonho é uma Europa que volte a ter paz, agora uma Europa homogénea é mais difícil, porque eu acho que a Europa será sempre heterogénea. Nos últimos tempos tenho pensado muito em como liderar em complexidade, que é um grande maior desafio: muitas vezes é conseguir abraçar essa complexidade para ter uma visão mais clara. É isto que eu estou a tentar trabalhar. Mas vejo uma Europa em uníssono, uma Europa em paz, e que na sua heterogeneidade conseguisse chegar a um equilíbrio.

(Entrevista originalmente publicada na edição em papel da Forbes Portugal número 84, relativa a fevereiro/março) 

 

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