GMV: “Portugal é um núcleo de especialização e liderança técnica”

A GMV celebra mais de quatro décadas de atividade. Como descreveria, de forma sintética, a evolução da empresa e que marcos considera decisivos? A GMV nasceu em 1984 como uma pequena empresa ligada à universidade e ao setor espacial, evoluindo desde então para um grupo tecnológico global, presente em 12 países, com cerca de 4.000…
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Alberto de Pedro, diretor-geral da GMV em Portugal, explica como a tecnológica está a posicionar-se para liderar a transformação digital europeia em setores críticos como espaço, defesa e cibersegurança e qual o papel de Portugal nesta jornada
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A GMV celebra mais de quatro décadas de atividade. Como descreveria, de forma sintética, a evolução da empresa e que marcos considera decisivos?

A GMV nasceu em 1984 como uma pequena empresa ligada à universidade e ao setor espacial, evoluindo desde então para um grupo tecnológico global, presente em 12 países, com cerca de 4.000 colaboradores e clientes em quase 80 mercados.

Entre os marcos mais relevantes destaca-se a diversificação para os setores dos transportes, telecomunicações e tecnologias de informação, tornando-se pioneira, nos anos 90, em áreas como a Internet e as aplicações de navegação por satélite para localização e gestão de frotas. Seguiu-se a consolidação no setor da defesa, com o desenvolvimento de sistemas de comando e controlo, aplicações militares de navegação por satélite e capacidades avançadas de simulação. A partir de 2004-2005, a expansão internacional ganhou novo impulso com a abertura da filial nos EUA e a aquisição da portuguesa Skysoft.

A adjudicação, em 2018, do contrato para o Ground Control Segment (GCS) do sistema Galileo representou um salto significativo na cadeia de valor, abrindo um período de forte expansão. Este ciclo inclui ainda o acordo com a Lockheed Martin para os serviços de navegação e posicionamento preciso SouthPAN, que abrangem a Austrália e a Nova Zelândia, bem como o reforço da aposta no NewSpace e nos sistemas cross-domain, impulsionado pelas aquisições da Alén Space e da Autek. Neste período, a GMV passou também a liderar contratos estratégicos nos principais programas europeus e em sistemas operacionais críticos nos setores da defesa e dos transportes.

Quais são hoje as áreas de atuação mais estratégicas para a GMV e onde é que estão a investir mais talento e recursos?

A GMV atua em domínios estratégicos como o espaço, a defesa, a cibersegurança e os sistemas inteligentes de transporte, desenvolvendo soluções que combinam tecnologia de ponta com operações críticas. Cada setor segue a sua própria estratégia, com foco na especialização tecnológica, na expansão geográfica e na colaboração interna e externa — elementos essenciais para alcançar objetivos comuns e potenciar sinergias.

O investimento concentra-se sobretudo em I&D, na atração e desenvolvimento de talento e no reforço de competências especializadas, pilares que sustentam a nossa posição de liderança nos mercados onde operamos.

Qual é o papel de Portugal na estratégia global do grupo e que projetos desenvolvidos no país considera mais emblemáticos?

Portugal desempenha um papel estratégico na GMV desde 2005. A operação nacional, sediada em Lisboa, reúne mais de 130 profissionais, maioritariamente engenheiros especializados em sistemas espaciais, aeronáuticos e de defesa, cibersegurança e mobilidade inteligente. O país tornou-se um polo de talento e especialização, contribuindo para projetos internacionais e gerando inovação de elevado valor acrescentado.

A partir de Portugal, somos fornecedores de referência para várias agências internacionais e lideramos elementos-chave dos principais programas europeus. Entre estes, destaca-se o Simulador de Radiofrequência para o sistema Galileo ou os serviços Copernicus de segurança, apoio a emergências e vigilância de fronteiras, além da liderança no serviço LULC (Land Use/Land Cover).

Fornecemos ainda tecnologia para a Agência Espacial Europeia (ESA), bem como sistemas de Vigilância e Gestão de Tráfego Espacial (SST/ STM). A partir de Lisboa, a GMV é líder global em sistemas aviónicos de elevada criticidade para aeronaves e satélites. Desenvolvemos também sistemas Vessel Traffic System (VTS) para autoridades portuárias em todo o mundo, ferramentas operacionais como o DEMETER para a EUROCONTROL, soluções de mobilidade e transporte público, além de serviços de cibersegurança para entidades públicas e financeiras.

Portugal é, assim, mais do que um centro de execução: é um núcleo de especialização e liderança técnica que reforça a oferta global da GMV.

O grupo é considerado uma referência europeia no setor espacial. Que projetos melhor ilustram esse posicionamento?

A GMV é o sexto maior grupo industrial espacial europeu e líder mundial em centros de controlo de satélites. O GCS do Galileo é provavelmente o projeto mais emblemático, reforçando a soberania tecnológica europeia e demonstrando a liderança da GMV em navegação por satélite. Junta-se a este a liderança na missão LEO-PNT, demonstradora de tecnologias-chave para o futuro da navegação.

A GMV lidera ou participa de forma relevante em missões da ESA como ARIEL, HERA, RAMSES, no sistema de navegação lunar LUPIN, na missão CyberCUBE — dedicada à deteção de ameaças cibernéticas a ativos espaciais — e no programa de observação da Terra Copernicus.

Paralelamente, contribui para outros programas bandeira europeus: é líder europeu no programa de Vigilância e Gestão de Tráfego Espacial (SST/STM) e coordena o hub do GOVSATCOM, um contrato-chave para o programa governamental de comunicações seguras via satélite da União Europeia.

Num contexto geopolítico exigente, como está a GMV a responder aos desafios de segurança, autonomia europeia e resiliência tecnológica?

A GMV posiciona-se como um parceiro estratégico para a autonomia tecnológica europeia, apoiada por quatro décadas de inovação e liderança em setores críticos. A combinação das competências em espaço, defesa e cibersegurança permite-nos responder aos desafios emergentes com soluções robustas, confiáveis e resilientes. O nosso portefólio evidencia um compromisso firme com a segurança, a independência tecnológica e a construção de uma Europa mais soberana e competitiva.

Que tendências tecnológicas e desafios acredita que vão moldar a próxima década e como é que a GMV se posiciona nesse futuro?

Tecnologicamente, a próxima década será marcada por avanços significativos em inteligência artificial, computação e segurança quântica, robótica autónoma e sistemas digitais altamente integrados. A GMV já está ativamente envolvida nestes domínios, aplicando a experiência acumulada a novos campos de inovação que reforçam a nossa estratégia e capacidade de atuação.

Num contexto de transformações profundas, emergem desafios estruturais que irão moldar o futuro: a integração de serviços, segurança, autonomia e conetividade — visível, por exemplo, nos veículos autónomos ou nos serviços orbitais; a evolução dos modelos de negócio, com uma tendência crescente para a prestação de serviços e para a integração vertical das cadeias de fornecimento; e a enorme aceleração do time to market, particularmente evidente nos mercados de defesa e segurança, como os conflitos atuais têm demonstrado. Estes desafios representam, para a GMV, uma oportunidade única para liderar esta transformação e consolidar o nosso papel como parceiro tecnológico de referência, transformando a inovação em impacto real.

Que conquistas recentes da GMV considera mais representativas do impacto que a empresa está a gerar nos diferentes setores onde atua?

No setor espacial, destacam-se a liderança em sistemas operacionais complexos e críticos (como o GCS, o hub do GOVSATCOM e o SouthPAN), a coordenação de missões como LEO-PNT e CyberCUBE, e a iminência de liderar uma missão da ESA a partir de Portugal. Na defesa, GMV é líder no contexto NATO em soluções ISR/CSR, referência em sistemas de inteligência e de comando e controlo e líderes em aplicações avançadas de navegação para sistemas de defesa. A especialização em sistemas cross-domain reforça a integração entre espaço, defesa e cibersegurança, pilares para a proteção de infraestruturas críticas e operações de defesa. Em cibersegurança, a integração e desenvolvimento de tecnologias quânticas serão determinantes para manter a liderança no setor. Nos sistemas inteligentes de transporte, a nova linha de produtos permite consolidar a nossa posição de liderança, contribuindo para uma mobilidade mais eficiente, segura e sustentável.

Este conteúdo foi produzido em parceria com a GMV.

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