Mais de duas décadas após o início de “Crónicas de Allaryia”, a primeira saga portuguesa de fantasia épica, Filipe Faria prepara-se para lançar em maio o décimo e último volume, encerrando o ciclo com “a sensação de missão cumprida”.
Foi em 2002 que Filipe Faria lançou “A Manopla de Karasthan”, volume inaugural da série de fantasia, que valeu ao autor o Prémio Branquinho da Fonseca.
Apesar disso, o escritor não se deixa iludir e reconhece que o sucesso se deveu principalmente a ter estado “no sítio certo, na altura certa”, por mais méritos que possa reconhecer à sua obra.
“‘O Senhor dos Anéis’ e o ‘Harry Potter’ tinham acabado de explodir nas salas de cinema, e havia um claro apetite da parte do público por este género”, além disso, o prémio literário que ganhou “atraiu a atenção de editoras de topo” e estendeu-lhe “uma passadeira vermelha”, garantindo-lhe “projeção mediática”, contou Filipe Faria em entrevista à agência Lusa.
Apesar da gratidão que diz sentir perante as palavras “dos que referiram as ‘Crónicas de Allaryia’ como influência”, o escritor confessa que sofreu de “um certo síndrome do impostor durante uns anos”, por saber que o seu primeiro livro “não era tão bom como poderia ter sido” se o “tivesse publicado mais tarde e com outra maturidade”.
Agora chega ao fim a saga a que dedicou praticamente um quarto de século, mais como “o decorrer natural de um ciclo do que uma decisão propriamente dita”.
“Tinha planos mais ambiciosos e com mais fôlego, mas a história foi seguindo o seu próprio rumo à medida que era imaginada e escrita. No fim, embora não tivesse aproveitado todas as ideias originais, não senti que tivesse apressado ou abreviado algo, e escrevi ‘FIM’ com uma sensação de missão cumprida”, acrescentou.
Em 2011, as “Crónicas de Allaryia” tiveram uma interrupção, que durou dez anos, após a publicação do sétimo volume, intitulado “Oblívio”, mas o autor garante que nunca foi sua intenção terminar aí a saga, apenas assinalar o “fim de um ciclo”.
“A minha ideia sempre fora fazer um interregno, durante o qual eu envelheceria juntamente com as personagens, regressando a Allaryia já perto da meia-idade. Razão pela qual os três últimos volumes das ‘Crónicas de Allaryia’ têm o selo de ‘Ciclo II’”, contou, assegurando que “‘A Última Crónica’ não é um título enganoso; é mesmo o último volume”.
Contudo, este não foi o final inicialmente planeado, que “era bem mais convoluto e metia bem mais ingredientes”, mas Filipe Garcia foi apurando-o ao longo dos anos e a história foi-se desenvolvendo de forma orgânica, “o que levou a um final muito melhor” do que aquele que inicialmente imaginara.
“Sinto que as ‘Crónicas de Allaryia’ começaram como ‘mais uma’ saga de fantasia, ainda que com as suas singularidades, e terminaram com uma identidade muito própria”, considerou.
O lançamento do último volume está agendado para o dia 31 de maio, durante a Feira do Livro de Lisboa, e servirá também como uma retrospetiva da saga, que está publicada pela Presença.
Filipe Faria admitiu que terminar esta saga está a ser mais difícil do que foi iniciá-la – porque começou a escrever “com toda a ‘pica’ de um adolescente despreocupado, com imaginação a fervilhar com um elã hormonal e todo o tempo do mundo”, e terminou como “um homem de meia-idade casado” -, mas “o prazer da escrita nunca mudou” e Allaryia tornou-se quase um “mundo paralelo habitado por amigos imaginários”, que o acompanharam ao longo de praticamente metade da sua vida.
“Apesar da sensação de missão cumprida, não deixo de sentir que estou a deixar para trás amigos de infância”, destacou o escritor, que distingue o ciclo literário do pessoal, mas considera-os indissociáveis.
“Tenho 44 anos e, de uma forma ou de outra, passei 24 em Allaryia, estivesse a escrevê-la ou a planeá-la. A focar-me no volume seguinte, a rever um anterior ou a preparar um subsequente. A pesquisa que fiz ‘condicionou’ os meus interesses, determinou para onde viajava e influenciou a minha maneira de escrever e de me expressar”, explicou, acrescentando que, no fundo, sempre viveu “com os pés bem assentes na Terra, mas com a cabeça nas nuvens”.
Quanto a futuros projetos, Filipe Faria revelou ter um bastante diferente desta saga, embora contenha elementos fantásticos: “Trata-se mais de um romance histórico fantasioso do que uma história de fantasia, pois passa-se no Médio Oriente do século V”.
Olhando para trás, para estes quase 25 anos decorridos, o autor diz que se pudesse mudar alguma coisa, teria “prestado muito mais atenção aos leitores”, porque na altura não deu “o devido valor à comunidade ‘online’ que se formou em torno de Allaryia num fórum de dimensão e alcance bem respeitáveis”.
“Por isso, diria ao jovem Filipe para não ser palerma e fazer um esforço, mas este provavelmente retorquiria que o Filipe do futuro iria sentir o mesmo acerca das redes sociais quando estas tomassem o lugar dos fóruns. E o sacana do puto teria razão…”.
(LUSA/Ana Leiria)





