À primeira vista, os números não soam a crise. Em média, os profissionais classificam a sua felicidade na organização e na função num ponto intermédio da escala de 1 a 5, longe do desastre absoluto. Para muitos conselhos de administração, isto alimenta a ideia de que “estamos mais ou menos bem”.
O problema é que, quando descemos do número global às respostas concretas, a narrativa deixa de ser confortável: por baixo de médias “aceitáveis”, acumulam-se sinais de desvalorização, cansaço e perda de confiança.
A fatura invisível da desvalorização
Nas respostas abertas, o padrão é claro: muitos profissionais sentem que dão mais do que recebem. Falam de salários que não acompanham a responsabilidade, subsídios de alimentação congelados, prémios vistos como arbitrários ou inatingíveis, anos sem aumentos apesar de bom desempenho.
A palavra “reconhecimento” aparece vezes demais para ser ignorada — e quase nunca associada a iniciativas de bem-estar cosméticas, mas sim a justiça, respeito e coerência.
Quando se pergunta o que ajudaria a “desfrutar mais a vida” através do trabalho, as pessoas raramente pedem iniciativas simbólicas: pedem remuneração justa, estabilidade, flexibilidade real, respeito básico e alinhamento entre esforço e recompensa.
A primeira tensão que os dados expõem é esta: uma retórica sofisticada sobre felicidade no trabalho a conviver com práticas de gestão que, para muitos colaboradores, continuam a ser percebidas como descartáveis.

Liderança: a linha ténue entre compromisso e cinismo
O segundo ponto sensível é a liderança. Sempre que confiança, apoio, clareza de objetivos e justiça sobem, aumenta a probabilidade de um colaborador se dizer feliz. Quando descem, multiplicam-se perceções de ausência, desrespeito ou foco exclusivo em números.
Há um padrão recorrente: pessoas que gostam do que fazem e da equipa, mas se sentem bloqueadas por lideranças que não escutam, não explicam e não defendem as suas pessoas. Noutras situações, o problema é a incoerência entre discurso público e decisões reais.
Esse desfasamento alimenta cinismo — um dos custos culturais mais caros para qualquer organização.

Quando a função salva a organização — e quando deixa de conseguir
Um indicador particularmente revelador é a diferença entre felicidade na função e na organização. Há quem goste do que faz, mas não de onde o faz. A função e a equipa sustentam uma relação frágil com a organização. Existem também situações inversas: pessoas alinhadas com o propósito institucional, mas desalinhadas com o papel que desempenham.
Em ambos os cenários, a empresa vive de equilíbrios instáveis: basta uma mudança de chefia, projeto ou política para que a permanência deixe de fazer sentido.
A erosão silenciosa antes da saída
Mais do que identificar quem está infeliz, a análise preditiva permite perceber quem está mais próximo de sair — e porquê.
Num dos casos estudados, a maioria dos colaboradores não manifesta vontade direta de abandonar a organização, mas acredita que acabará por sair. Trata-se de uma forma de attrition involuntária: a organização perde talento não por decisão estratégica, mas por erosão progressiva do vínculo psicológico.
A hierarquia estatística dos fatores de saída revela um padrão consistente. Os elementos com maior peso não são salariais, operacionais ou técnicos. São relacionais: qualidade da liderança, respeito interpessoal, clima emocional da equipa e perceção de utilidade do trabalho.
Principais fatores associados à probabilidade de saída
Caso organizacional analisado no Happiness Works 2025
| Fator com maior impacto | Peso relativo |
| Liderança não inspiradora | Alto |
| Falta de respeito pessoal | Alto |
| Liderança de topo pouco inspiradora | Médio-alto |
| Colegas desmotivados | Médio |
| Ausência de estabilidade emocional | Médio |
| Falta de envolvimento com valores | Médio |
Fonte: análise preditiva Happiness Works (dados anonimizados).
Este resultado desloca o debate organizacional. Mesmo quando processos, ferramentas ou benefícios são melhorados, o risco de saída mantém-se se estes fatores relacionais permanecerem intactos. Não se trata, portanto, de um problema estrutural, mas de comportamento, liderança e coerência cultural.
O risco mais invisível surge quando nada é feito. Saem primeiro os profissionais mais exigentes e críticos, permanecem os mais conformados, e a organização pode manter níveis médios de satisfação aparentemente estáveis enquanto a sua capacidade real de desempenho diminui. O declínio cultural instala-se sem alarme.
Mais do que prever quem sairá amanhã, estes modelos permitem responder a uma pergunta mais exigente: onde estamos a falhar hoje — e onde ainda podemos agir a tempo.

Mais do que felicidade, este indicador revela estabilidade cultural — e é nessa estabilidade, ou na sua ausência, que começa a formar-se o risco humano com impacto económico.
Produtividade, faltas e vontade de sair: o custo discreto da infelicidade
Os dados mostram um padrão consistente: níveis mais baixos de felicidade associam-se, em média, a mais faltas, menor produtividade percecionada, menor vontade de continuar e maior probabilidade de procurar outras oportunidades.

O número incontornável para a gestão
O indicador decisivo não é a média de felicidade. É o custo anual do risco humano.
Quando se comparam colaboradores nos níveis mais baixos de felicidade com os mais elevados, observam-se diferenças consistentes em ausências e probabilidade de saída. Traduzido em euros — com premissas conservadoras e um salário médio anual de 20.000 euros — o impacto pode representar vários milhares de euros por colaborador, todos os anos, antes de qualquer indicador financeiro o refletir.
Mesmo com premissas conservadoras — salário médio anual de 20.000€, rotatividade evitável mínima e absentismo diferencial reduzido — o risco humano pode representar cerca de 1.200€ por colaborador por ano, antes de considerar produtividade, perda de conhecimento ou impacto cultural. O valor real tende, portanto, a ser significativamente superior.

Não se trata do custo da felicidade. Trata-se do custo de ignorar sinais precoces de risco: rotatividade evitável, ausência recorrente e erosão silenciosa da energia produtiva.
O que estes dados não permitem dizer — e o que permitem ver
Este estudo é observacional, baseado em autorresposta e numa amostra específica. Não permite afirmar relações causais diretas entre medidas de gestão e resultados financeiros.
Permite, porém, identificar padrões robustos:
- felicidade associa-se a liderança percebida, reconhecimento, justiça e condições de trabalho;
- quando estes pilares falham de forma persistente, aumentam sinais de risco organizacional: saída potencial, descrédito cultural e quebra de recomendação.
Para um decisor, a implicação é clara: a felicidade no trabalho deixou de ser um tema “soft”. Tornou-se indicador antecipado de risco económico e reputacional. Ignorá-lo sai caro — mesmo que ainda não apareça no EBITDA.
A pergunta que muda a gestão
Perante este cenário, a questão deixa de ser “como estamos em média?”.
Passa a ser: onde está a concentrar-se o risco humano e quanto custa não agir?
Diagnósticos comparáveis, metodologicamente robustos e com leitura económica deixam, assim, de ser exercícios de clima. Tornam-se instrumentos de decisão preventiva, capazes de revelar hoje o que os resultados financeiros só mostrariam demasiado tarde.
Guilhermina Vaz Monteiro,
Cofundadora do estudo Happiness Works / Happy Place to Work
Especialista em felicidade organizacional, risco humano e análise preditiva de talento





