Opinião

Falta de talento qualificado na construção em Portugal: um problema antigo, que tende em agravar-se

David Carreira

Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um forte dinamismo no setor imobiliário, com investimento nacional e estrangeiro, crescimento da construção nova e reabilitação urbana. Muitas são as empresas que têm contribuído ativamente para este impulso, apostando em qualidade, sustentabilidade e inovação. No entanto, um desafio estrutural ameaça colocar este crescimento em causa: a escassez de talento na construção e a falta de mão de obra qualificada em todos os níveis da cadeia de valor, está a tornar-se uma das maiores entropias ao desenvolvimento do setor.

Um problema que não é novo, mas que tende em se agravar

Segundo informação mencionada pela AICCOPN (Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas), estima-se que o setor da construção enfrenta atualmente um défice superior a 80 mil profissionais. A idade média dos trabalhadores ultrapassa os 50 anos e a renovação geracional é insuficiente. As escolas profissionais ligadas à construção estão longe de conseguir formar o número necessário de novos técnicos. Simultaneamente, muitos dos quadros técnicos e operacionais mais qualificados continuam a emigrar para países onde encontram melhores condições de trabalho e valorização profissional.

Os impactos são reais e imediatos, a escassez de talento é clara e real e traduz-se, na prática, em atrasos nas obras, aumento dos custos de execução, menor capacidade de resposta a novos projetos e, inevitavelmente, dificuldades na entrega de produto ao mercado dentro dos prazos e orçamentos esperados. Para as empresas, que mantêm um compromisso com a qualidade e a fiabilidade, estes desafios representam riscos reais, que exigem uma resposta imediata e estratégica.

Mas como é que chegámos aqui?

A construção não é apelativa e cada vez mais perde atratividade junto das novas gerações de jovens portugueses. Persistem perceções associadas a um setor pesado, com poucas oportunidades de progressão e fracas condições de trabalho. Continua a faltar uma narrativa positiva que valorize a profissão e a consiga colocar num patamar de atualidade e atratividade alinhado com outras áreas de ensino e de formação. Por outro lado, a formação académica e técnica disponível, não responde, na sua maioria, às exigências atuais do mercado, que exige perfis mais especializados, polivalentes e tecnologicamente preparados.

A resposta a este desafio exige ação coordenada entre setor privado e poder público. Algumas medidas essenciais incluem: Reforçar a formação técnica, com currículos adaptados às novas exigências da construção; melhorar as condições laborais e garantir estabilidade e valorização da carreira; apostar na inovação, com a introdução de tecnologias que aumentem a produtividade e atratividade do setor; Abertura à imigração qualificada, com regras de entrada no país bem definidas e mecanismos eficazes de integração no mercado de trabalho.

Todo o setor deverá estar comprometido com uma construção sustentável, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também do social e humano. É do interesse e dever de todos os envolvidos na construção em Portugal, contribuir para uma nova geração de profissionais qualificados, com orgulho na sua profissão e papel na sociedade.

Em suma, sem pessoas, não há progresso. O setor da construção é um pilar do desenvolvimento económico e urbano de Portugal, mas não há edifícios sem trabalhadores, o crescimento sustentável do imobiliário depende, mais do que nunca, da capacidade de atrair, formar e reter talento. É tempo de colocar este tema no centro da agenda, o futuro do setor e das cidades que queremos construir em Portugal depende disso.

David Carreira,
Country Manager da Thomas & Piron Portugal

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