Ex-secretário do Tesouro Larry Summers demite-se de Harvard devido a ligações a Jeffrey Epstein

Larry Summers vai demitir-se do seu cargo de professor em Harvard no final do ano letivo e ficará em licença até lá, confirmou um porta-voz da universidade ao Harvard Crimson e ao New York Times. Economista de formação, Summers foi secretário do Tesouro durante a administração Clinton, liderou o Conselho Nacional de Economia sob o…
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O ex-secretário do Tesouro dos EUA e antigo presidente da Universidade de Harvard, Larry Summers, vai deixar de lecionar na instituição no final do ano letivo, na sequência da divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein, que revelam uma relação próxima com o financeiro.
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Larry Summers vai demitir-se do seu cargo de professor em Harvard no final do ano letivo e ficará em licença até lá, confirmou um porta-voz da universidade ao Harvard Crimson e ao New York Times.

Economista de formação, Summers foi secretário do Tesouro durante a administração Clinton, liderou o Conselho Nacional de Economia sob o mandato de Barack Obama e foi presidente de Harvard entre 2001 e 2006 (durante o seu mandato, Epstein doou milhões à universidade).

Documentos mostram que Summers manteve uma comunicação frequente com Epstein até 5 de julho de 2019 — mais de uma década após a primeira condenação de Epstein por abusos sexuais, e no dia antes da sua nova detenção — trocando centenas de e-mails e reunindo-se regularmente com o homem de negócios.

Os e-mails indicam ainda que Summers discutiu questões pessoais com Epstein, incluindo pedidos de conselho sobre um relacionamento romântico com uma mulher que Summers descrevia como “mentee” e críticas à inteligência feminina, como num e-mail de 2017 em que escreveu a Epstein: “Observei que metade do QI do mundo é possuída por mulheres sem mencionar que são mais de 51% da população.”

Summers não foi acusado de qualquer abuso sexual em ligação a Epstein e pediu desculpa pela sua associação com o homem de negócios, afirmando, numa declaração de novembro, estar “profundamente envergonhado pelas minhas ações e reconheço a dor que causaram” e que “assumo total responsabilidade pela minha decisão errada de continuar a comunicar com o Sr. Epstein”.

A demissão de Summers é a última consequência da sua ligação a Epstein, depois de o economista ter interrompido o ensino e outros compromissos profissionais no final do ano passado, quando e-mails divulgados do espólio de Epstein revelaram laços estreitos entre ambos.

O que Larry Summers disse nas mensagens com Epstein?

Os e-mails e mensagens divulgados em novembro mostraram que Summers estava em comunicação frequente com Epstein, discutindo reuniões futuras, política e mulheres, entre outros assuntos.

Num e-mail de 2017, Summers parece criticar a inteligência feminina e minimizar alegações de má conduta sexual, escrevendo a Epstein: “Estou a tentar perceber porque é que a elite americana pensa que, se matar o seu bebé por agressão ou abandono, deve ser irrelevante para a sua entrada em Harvard, mas assediou algumas mulheres há 10 anos e não pode trabalhar num think tank ou rede.” O economista reconheceu que estas declarações eram controversas, acrescentando em maiúsculas: “NÃO REPITA ESTE INSIGHT.”

Entre novembro de 2018 e julho de 2019, Summers trocou mensagens com Epstein sobre a sua aproximação a uma mulher não identificada, detalhando interações com esta “mentee” enquanto pedia conselhos a Epstein, que se descrevia como o seu “wing man”. Summers referiu também a relação profissional que tinha com a mulher, a quem chamou “peril”, e escreveu a Epstein que achava que ela “deve estar muito confusa ou talvez queira cortar relações, mas quer manter a ligação profissional e por isso se mantém.”

Epstein deu conselhos e apoio, instruindo Summers a manter a mulher numa “fase de espera” e afirmando: “Ela nunca, nunca vai encontrar outro Larry Summers. Probabilidade ZERO.”

Além destas mensagens, os e-mails sugerem que Summers ajudou Epstein a organizar reuniões em Harvard com outros indivíduos ricos do círculo do homem de negócios e que Epstein doou dinheiro à Verse Video Foundation, uma organização sem fins lucrativos ligada à esposa de Summers, Elisa F. New. Documentos mostram ainda que Epstein nomeou Summers como executor num rascunho do seu testamento de 2014, embora um porta-voz tenha afirmado ao Crimson que Summers “não tinha absolutamente nenhum conhecimento disso”.

Os e-mails incluem ainda comunicações amigáveis entre Epstein e Kelly Friendly, porta-voz de Summers, que contactou Epstein para obter ajuda quando a sua família ficou retida perto da ilha privada de Epstein. Friendly não comentou a sua ligação a Epstein.

Facto surpreendente

Os e-mails controversos e altamente machistas de Summers sobre mulheres surgem depois do economista já ter estado sob crítica por um discurso de 2005, no qual alegava que diferenças biológicas entre homens e mulheres ajudavam a explicar a sub-representação feminina nas áreas científicas: “No caso especial da ciência e engenharia, existem questões de aptidão intrínseca que levam à menor participação das mulheres”, disse Summers, acrescentando fatores “menores” como discriminação de género. Posteriormente, pediu desculpa e afirmou não acreditar que “as raparigas são intelectualmente menos capazes do que os rapazes, nem que as mulheres não têm capacidade para atingir os níveis mais altos da ciência.”

O discurso gerou polémica nacional e contribuiu para a sua renúncia como presidente de Harvard em 2006, após uma votação de desconfiança do corpo docente baseada nesse discurso e em outros aspetos da sua gestão. Agora sai mesmo como professor.

O que está a acontecer

Summers é apenas um dos muitos nomes de destaque a sofrer consequências pela associação a Epstein, que morreu na prisão em 2019 após ser acusado de tráfico sexual.

Enquanto Summers esteve sob escrutínio no ano passado, devido à divulgação de e-mails do espólio de Epstein pelo Congresso, a libertação de milhões de documentos pelo Departamento de Justiça a 30 de janeiro intensificou as repercussões.

Entre outros casos, Andrew Mountbatten-Windsor, ex-Príncipe Andrew, e o ex-embaixador britânico nos EUA Peter Mandelson foram detidos no Reino Unido por suspeitas de má conduta reveladas através dos arquivos de Epstein.

Os documentos também provocaram renúncias em cascata de outras figuras públicas, como o antigo colaborador da CBS News Peter Attia, o ex-CEO da DP World Sultan Ahmen bin Sulayem, o ex-presidente do escritório Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison LLP, Brad Karp, e o agente artístico Casey Wasserman, que está a vender a sua agência após vários artistas cortarem laços com ele devido aos e-mails com Ghislaine Maxwell, associada de Epstein.

Excepto Mountbatten-Windsor — que nega as acusações — nenhum dos referidos homens foi acusado de má conduta sexual em ligação a Epstein, e todos negam qualquer ilegalidade.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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