O presidente do Conselho Europeu, António Costa, alertou que a União Europeia atravessa um momento de elevada instabilidade, marcado por riscos simultâneos para a segurança e para a economia, num contexto internacional agravado pela guerra no Médio Oriente e pela continuidade do conflito na Ucrânia.
Em entrevista à agência Lusa, António Costa considerou que a ofensiva militar lançada por EUA e Israel contra o Irão introduz um elevado grau de incerteza, desde logo porque o seu desfecho é imprevisível: “Penso que tudo [tempo que durará a guerra] depende de qual é o objetivo final desta missão e isso não é claro”.
O responsável do Conselho Europeu sublinha que a ausência de informação prévia aos aliados europeus agrava o cenário de instabilidade, apontando consequências diretas para a ordem internacional e para a economia global: “Expressamos a nossa profunda preocupação com as consequências desta guerra para a ordem internacional baseada em regras, com as consequências humanitárias e também com o impacto nos custos da energia na economia global”.
O impacto económico já se faz sentir na União Europeia, com subida dos preços da energia, pressão inflacionista, perturbações nas cadeias de abastecimento e escassez de bens. A situação é particularmente sensível devido ao encerramento do Estreito de Ormuz por parte do Irão, uma via estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.
A entrevista foi dada à Lusa e a outras agências noticiosas no âmbito do projeto Redação Europeia (European Newsroom) nas vésperas de uma cimeira europeia marcada para quinta e sexta-feira e na qual será abordada a situação no Médio Oriente.
Para António Costa, este contexto representa um risco direto para o bloco europeu em várias dimensões: “Enfrentamos um risco grave para a segurança europeia, para a nossa segurança económica, o risco de agravamento de uma crise humanitária e também, aprendendo com o passado, o risco de aumento do terrorismo”.
Resposta ao nível energético
Perante este cenário, o presidente do Conselho Europeu defende uma resposta imediata ao nível energético, antecipando decisões na próxima cimeira europeia. “Esta crise representa um momento dramático e desafiante para a ordem internacional baseada em regras e, evidentemente, tem um enorme impacto nos custos da energia”, afirmou, apelando à adoção de medidas temporárias para conter os preços.
Entre as opções em análise estão limitações ao preço do gás, redução de impostos na energia e apoios estatais a empresas mais expostas. Ainda assim, António Costa insiste que a resposta estrutural passa por reduzir a dependência externa: “Esta situação recorda-nos que estamos no caminho certo ao investir na transição energética porque não podemos depender da energia importada”.
O líder europeu destacou que regiões com maior produção interna, como a Península Ibérica e os países nórdicos, apresentam custos energéticos mais baixos, defendendo um reforço da autonomia estratégica europeia com base em energias renováveis e nucleares.
Diálogo com Moscovo
Em paralelo, a guerra na Ucrânia continua a ser um fator central de instabilidade. António Costa admite que, no futuro, será inevitável um diálogo com Moscovo, embora afaste essa possibilidade no curto prazo: “No futuro, teremos de dialogar com a Rússia. Não sobre energia, mas sobre a segurança europeia e a paz na Ucrânia”.
Até lá, a estratégia passa por manter a pressão económica sobre a Rússia e continuar o apoio à Ucrânia, incluindo um empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros que deverá ser discutido na próxima cimeira. António Costa mostrou-se “otimista” quanto à aprovação, apesar das reservas da Hungria, sublinhando que decisões já acordadas devem ser respeitadas pelos Estados-membros.
O presidente do Conselho Europeu também alertou para a necessidade de a União Europeia se preparar para diferentes cenários, incluindo um eventual fracasso dos esforços diplomáticos liderados pelos EUA: “É preciso estar preparado porque um dia o Presidente Trump poderá decidir não prosseguir com os seus esforços, ou um dia, infelizmente, poderá fracassar nos seus esforços”.
Neste enquadramento, António Costa defende que a União Europeia terá de assumir um papel mais ativo na construção de uma solução para o conflito ucraniano, ao mesmo tempo que enfrenta os impactos económicos e energéticos de uma nova crise internacional.
com Lusa





