O algoritmo do X pode influenciar as atitudes políticas dos utilizadores, empurrando-os para posições mais conservadoras, sugere um estudo publicado esta semana na revista científica Nature. A investigação analisou o impacto da transição entre o feed cronológico e o feed algorítmico “Para ti”, concluindo que a mudança para o modelo recomendado pela plataforma altera opiniões, enquanto o regresso ao feed cronológico tem um efeito reduzido.
O trabalho envolveu 4.965 utilizadores ativos do X nos Estados Unidos, acompanhados durante sete semanas em 2023, num período que decorreu mais de seis meses após a compra do Twitter por Elon Musk, poucos meses depois de a plataforma ter publicado parte do seu código-fonte e cerca de um ano antes do apoio público de Musk a Donald Trump, em julho de 2024.
Os participantes foram atribuídos aleatoriamente a um dos dois formatos de consumo de conteúdos: o feed algorítmico, que seleciona publicações com base em preferências e padrões de interação, ou o feed cronológico, que apresenta as publicações por ordem temporal. Cada utilizador foi colocado no modo oposto ao que utilizava antes da experiência, permitindo medir o efeito da alteração.
De acordo com os autores, a transição do feed cronológico para o feed algorítmico esteve associada a mudanças mais claras em áreas como prioridades políticas, perceções sobre processos judiciais envolvendo Donald Trump e posições sobre a guerra na Ucrânia. Um dos resultados mais expressivos foi a diminuição de 7,4 pontos percentuais na probabilidade de os participantes terem uma visão positiva do Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky após o período de sete semanas.
A análise do conteúdo exibido indicou também uma alteração relevante no tipo de publicações promovidas pelo algoritmo. No resumo do estudo, os investigadores escrevem: “Verificámos que o algoritmo promove conteúdo conservador e despromove publicações dos media tradicionais”. Segundo os dados apresentados, as publicações de organizações noticiosas surgiram 58% menos vezes no feed algorítmico, enquanto as publicações de ativistas políticos apareceram 27% mais frequentemente.
Além de mudanças de opinião, o estudo conclui que os utilizadores atribuídos ao feed algorítmico passaram a interagir mais com a plataforma e a seguir mais frequentemente ativistas políticos conservadores. Já os utilizadores que fizeram o percurso inverso, do feed algorítmico para o cronológico, mostraram poucas alterações nas suas atitudes políticas e no comportamento online.
A investigação foi coassinada por académicos da Paris School of Economics, da Universidade de St. Gallen, na Suíça, e da Universidade Bocconi, em Milão. Os autores sublinham, no entanto, que os resultados não podem ser generalizados para outros contextos, uma vez que o estudo se limitou a uma plataforma, a um país e a um período específico, e envolveu utilizadores que foram compensados financeiramente por seguirem as instruções durante sete semanas.
O estudo surge num contexto em que os algoritmos das redes sociais continuam a ser alvo de escrutínio pelo seu potencial papel na polarização política, sobretudo em modelos que privilegiam conteúdos com maior probabilidade de gerar reações e tempo de permanência. No caso do X, a relevância do tema aumentou desde a aquisição por Elon Musk, que introduziu alterações na moderação de conteúdos, reforçou o papel do feed “Para ti” e passou a assumir publicamente uma posição mais ativa no debate político.
com Martina Di Licosa/Forbes Internacional e Lusa





