Estados Unidos não conseguiram equilibrar balança comercial com a imposição de tarifas

Passou um ano sobre o anúncio da ofensiva comercial que a administração norte-americana lançou a vários países do mundo. Num discurso que fez a partir da Casa Branca, no dia 2 de abril de 2025, Donald Trump chamou-lhe o "Dia da Libertação", referindo que este seria um dos mais importantes da história americana, uma vez…
ebenhack/AP
Segundo uma análise da Crédito y Cáucion, um ano após a imposição de tarifas alfandegárias, a política protecionista dos EUA falhou no equilíbrio da sua balança comercial e empresas enfrentam ambiente comercial instável.
Economia

Passou um ano sobre o anúncio da ofensiva comercial que a administração norte-americana lançou a vários países do mundo. Num discurso que fez a partir da Casa Branca, no dia 2 de abril de 2025, Donald Trump chamou-lhe o “Dia da Libertação”, referindo que este seria um dos mais importantes da história americana, uma vez que iria resolver o défice comercial norte-americano. E disse: vamos ser mais inteligentes e voltar a enriquecer, anunciando que a nova política iria impulsionar a produção interna, reduzir cargas de impostos e criar emprego. Logo nos primeiros dias de abril, assim que foram anunciadas as principais taxas alfandegárias, Wall Street registou o pior dia desde o início da pandemia de covid 19, com perdas entre 4% e 6%.

No entanto, vários foram as notícias, research e os estudos que mostravam que não seria assim tão fácil. Segundo um estudo do partido democrata as tarifas alfandegárias impostas pelo presidente norte-americano custarão às famílias do país, em média, 2.512 dólares (cerca de 2.200 euros) em 2026. O valor estimado pelos democratas no Congresso representa um aumento de 44% em relação aos 1.745 dólares gastos com tarifas no ano passado. Por outro lado, o BCE referiu mesmo que as políticas comerciais de Donald Trump estão a gerar mais incertezas na economia do que a crise da covid-19 Em entrevista ao Sunday Times, Luis de Guindos disse que a perspetiva da imposição de tarifas aduaneiras pelos Estados Unidos da América e a retaliação dos seus parceiros comerciais orna a situação atual muito volátil”.

Nos Estados Unidos, as recentes alterações sobre tarifas introduziram doses maiores de instabilidade no comércio internacional. Aliás, o Supremo Tribunal invalidou tarifas impostas após o “Dia da Libertação” ao abrigo de poderes de emergência, mas a administração Trump introduziu uma tarifa universal de 10%, uma medida temporária que estará em vigor apenas por 150 dias.

Agora, uma análise realizada pela seguradora de crédito do grupo Atradius, a Crédito y Cáucion, os Estados Unidos entraram numa fase estruturalmente protecionista que representa uma rutura com décadas de abertura comercial e que persegue objetivos geopolíticos em vez de eficiência económica. “A sua política remodelou os padrões comerciais, mas não conseguiu alcançar uma melhoria duradoura na balança comercial. O aumento das tarifas alterou as decisões de aprovisionamento, acelerou a desvinculação da China e reforçou o desvio comercial para outros parceiros comerciais, especialmente em maquinaria e equipamentos elétricos, a maior e mais resiliente categoria de importação”, pode ler-se no documento. Este explica ainda que, nos Estados Unidos, as recentes alterações sobre tarifas introduziram doses maiores de instabilidade no comércio internacional. Aliás, o Supremo Tribunal invalidou tarifas impostas após o “Dia da Libertação” ao abrigo de poderes de emergência, mas a administração Trump introduziu uma tarifa universal de 10%, uma medida temporária que estará em vigor apenas por 150 dias.

A Crédito y Caución antecipa que as empresas devem preparar-se para um ambiente de longo prazo caraterizado por atritos comerciais crescentes, imprevisibilidade política e custos crescentes.

Dana Bodnar, economista sénior da Atradius, explica, em comunicado que o reajuste do quadro tarifário não deve ser confundido com um regresso a barreiras mais baixas: “Com o novo sistema, a taxa tarifária legal situa-se em 13,9%, seis vezes superior ao início da escalada. A natureza temporária do atual quadro jurídico cria um nível de imprevisibilidade que representa um desafio para as empresas globais.” É que, embora a nova tarifa universal seja mais simples porque não é específica para cada região, terá um efeito limitado, e, além disso os importadores norte-americanos continuam a absorver a maior parte dos custos relacionados com as tarifas. Em vez de incentivarem a relocalização, estas políticas estão a acelerar a fragmentação das cadeias de abastecimento e a aumentar as pressões operacionais e financeiras sobre as empresas.

Assim, a análise da Crédito y Caución antecipa que as empresas devem preparar-se para um ambiente de longo prazo caraterizado por atritos comerciais crescentes, imprevisibilidade política e custos crescentes. A seguradora de crédito aconselha exportadores e líderes da cadeia de abastecimento a reforçarem os seus planos de resiliência, diversificarem o fornecimento sempre que possível e prepararem-se para uma volatilidade política acrescida em 2026.

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