As empresas asiáticas olham cada vez mais para Portugal, para a América Latina e para África quando procuram novos mercados para crescer. Os países ocidentais continuam a concentrar o maior volume de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), mas é o capital da China, do Japão, da Coreia do Sul e da Índia que está a impulsionar a próxima vaga de infraestruturas, de transição energética e de implantação tecnológica.
Portugal é um bom exemplo. O país funciona como porta de entrada estratégica, económica e logística, para a União Europeia e para os mercados de língua portuguesa, como o Brasil, Angola e Moçambique. Este posicionamento triangular continua a ser um dos seus principais fatores de diferenciação na Europa.
A primeira fase desta relação fez-se por aquisição. As vendas de ativos que se seguiram à crise financeira permitiram a grandes grupos chineses assumir posições de relevo em empresas estruturantes da economia portuguesa: a China Three Gorges detinha uma participação de 22,2% na EDP em 31 de dezembro de 2025, a State Grid 25% da REN e o Grupo Fosun, com sede em Xangai, detém 84,99% da Fidelidade, a maior seguradora do país.
Uma década depois, a lógica é outra. Os investidores chineses querem construir de raiz, com uma aposta crescente em projetos greenfield e em contratos EPC (Engenharia, Aquisição e Construção), sobretudo em infraestruturas tecnológicas e em produção industrial avançada. Construir de raiz significa assumir riscos que não existem quando se compra uma participação: riscos de obra, de prazo, de cadeia de abastecimento e de operação. Por isso, uma gestão de risco rigorosa e soluções de seguros mais sofisticadas, estruturadas por um corretor experiente, deixaram de ser um complemento e passaram a ser uma condição do próprio investimento.
A mesma dinâmica é visível em África. Os investidores chineses têm uma presença muito significativa no continente. Em Angola, dominam o panorama do IDE, representando cerca de 80% dos 21,8 mil milhões de dólares em propostas de investimento registadas num período recente de cinco anos. Em Moçambique, o investimento chinês ultrapassou os 10 mil milhões de dólares, com um forte enfoque nos recursos naturais, nas infraestruturas e na agricultura.
O mesmo movimento é visível do outro lado do Atlântico. Em 2025, o Brasil captou mais de 10% do IDE chinês, num montante superior a 6 mil milhões de dólares. Os fabricantes de automóveis BYD, Geely e Great Wall Motors, a tecnológica Huawei e a Hisense, na eletrónica de consumo, têm reforçado a presença no país. Não estão sozinhos: a Toyota, o Hyundai Motor Group, a Samsung e a LG também investem fortemente no mercado brasileiro, e grupos indianos como a Sun Pharma, a Glenmark e a Sterlite têm-se mostrado muito ativos nos setores farmacêutico e energético.
O Chile é outro polo de atração. As reservas de lítio e de cobre colocam o país no centro das cadeias de abastecimento de baterias, e os parques solares e eólicos, a par dos projetos na área dos transportes, despertam igual interesse.
A resposta à pergunta inicial é, por isso, afirmativa. A Ásia já não se limita a comprar posições em mercados maduros: está a construir fábricas, redes e centrais em geografias que durante décadas dependeram quase só de capital ocidental. Para Portugal, que liga a Europa ao espaço lusófono, esta mudança é uma oportunidade que importa saber acompanhar, com conhecimento dos mercados e com o risco devidamente protegido.
Patrick Chan,
Senior Adviser, International Development e Head do Asian Desk do Grupo MDS





