Opinião

Escolher a melhor parte

João Porto

Muito se fala sobre as oportunidades e os benefícios que a Inteligência Artificial pode trazer às empresas. No entanto, essa oportunidade é frequentemente apresentada de forma quase extrema: ou as organizações nada fazem e arriscam um “destino sombrio”, marcado pela perda de competitividade e relevância, ou apostam de forma decisiva na IA e transformam radicalmente o negócio rumo a uma nova era de prosperidade. Em suma, ou acompanhamos esta onda tecnológica, ou arriscamos ficar para trás e ver o nosso negócio morrer.

Esta visão mais “radical” surge frequentemente associada a um discurso de substituição massiva de funções e tarefas por Inteligência Artificial. Multiplicam-se listas de profissões que, segundo algumas correntes, estarão condenadas a desaparecer num futuro próximo, à medida que algoritmos e sistemas automatizados assumem responsabilidades até aqui exclusivamente humanas.

A tudo isto soma-se, ainda, a crescente preocupação com a utilização abusiva da Inteligência Artificial e as consequências que daí podem advir para a nossa forma de viver. Desde o papel que estas ferramentas podem desempenhar na disseminação de fake news e desinformação, até à sua utilização sem enquadramento ético em contextos de guerra ou em áreas sensíveis como a genética, o debate ganha contornos cada vez mais complexos. Um cenário que, inevitavelmente, assusta e, em muitos casos, contribui para o afastamento face à tecnologia.

A adoção da Inteligência Artificial está muitas vezes envolta num dramatismo que me parece contraproducente, sobretudo para quem está mais afastado da tecnologia. No entanto, nenhum de nós tem, na verdade, capacidade de adivinhar o futuro. E, ainda que surjam com frequência vozes que o fazem com aparente convicção, a experiência mostra-nos que, na maioria das vezes, essas previsões falham.

Por isso, o que proponho, é que olhemos para a Inteligência Artificial sem este manto de dramatismo. De forma simples, as empresas podem recorrer à IA para dois grandes propósitos: ganhar eficiência ou, em alternativa, para reinventar e implementar novos modelos de negócio.

Sugiro que nos foquemos nos ganhos de eficiência. Podemos organizá-los, de forma simples, em dois grupos. Um primeiro grupo reúne os pequenos ganhos incrementais. Aqueles que resultam da utilização de ferramentas já disponíveis no mercado e de fácil adoção. Falamos, por exemplo, do apoio à análise de dados, da sumarização de documentos, ou ainda da elaboração de cartas, e-mails e pequenas apresentações. São ganhos discretos, muitas vezes quase invisíveis no dia a dia, mas que, somados, libertam tempo e aumentam a produtividade das equipas.

Um segundo grupo, mais estruturante, diz respeito a ganhos de eficiência decorrentes do desenho de projetos mais complexos, capazes de melhorar ou até transformar processos de negócio. Aqui, a Inteligência Artificial entra na redefinição de áreas como as vendas, a logística ou o serviço pós-venda.

Se só nos focarmos no primeiro grupo de ganhos incrementais, a Inteligência Artificial já representa, de facto, uma oportunidade concreta para melhorar de forma significativa a eficiência das empresas. Em particular, para aquelas que ainda não deram qualquer passo nesta matéria, o potencial de ganho é imediato e significativo.

É uma ferramenta relativamente acessível e exequível, que permite a qualquer empresa explorar o seu potencial e compreender de que forma pode ser integrada nos seus processos de negócio. A custos muito reduzidos, as organizações conseguem identificar as soluções mais adequadas à sua realidade e implementá-las num curto espaço de tempo.

Por outro lado, a utilização destas ferramentas tende a envolver transversalmente toda a organização, uma vez que existem potenciais aplicações em praticamente todas as áreas. Esse envolvimento alargado favorece o aparecimento de casos de uso concretos e bem-sucedidos, que rapidamente funcionam como exemplo interno e aceleram a disseminação de boas práticas dentro da empresa.

Finalmente, esta adoção inicial, ainda que incremental, tende muitas vezes a funcionar como catalisador para uma reflexão mais profunda. Os resultados imediatos ajudam a ganhar confiança e a evidenciar o potencial da tecnologia, levando, em muitos casos, ao desenho posterior de uma estratégia mais estruturada e ambiciosa para a utilização da Inteligência Artificial.

As empresas podem explorar estas soluções, selecionar aquelas que melhor se adequam à sua realidade e implementar melhorias de forma progressiva. Parece-me, aliás, uma forma sensata de começar: escolher o que faz mais sentido, testar, aprender e evoluir a partir daí. Afinal, como escreveu Pablo Neruda, somos livres nas escolhas que fazemos, mas prisioneiros das suas consequências. E é por este motivo que as decisões em torno da adoção de Inteligência Artificial devem ser feitas com pragmatismo, consciência e sentido estratégico.

João Porto,
senior partner da ERA Group

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