Epidemia silenciosa: “A obesidade é uma das maiores ameaças à sustentabilidade do SNS”

O cirurgião Gil Faria estuda há vários anos as questões relacionadas com a obesidade. Sendo esta uma doença crónica, complexa e progressiva, é fundamental falar dela como um problema de saúde pública, e não uma questão individual, colocando o ónus apenas na pessoa obesa. O especialista é mestre em Medicina e Oncologia Molecular e doutorado…
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Mais de metade dos adultos portugueses têm excesso de peso ou obesidade, e uma em cada sete crianças já sofre desta doença. Assinala-se hoje o Dia Mundial da Obesidade, e o cirurgião Gil Faria, especialista em metabolismo e em cirurgia da obesidade alerta que esta doença já tem impacto de 1,5 mil milhões de euros na despesa em saúde.
Economia

O cirurgião Gil Faria estuda há vários anos as questões relacionadas com a obesidade. Sendo esta uma doença crónica, complexa e progressiva, é fundamental falar dela como um problema de saúde pública, e não uma questão individual, colocando o ónus apenas na pessoa obesa. O especialista é mestre em Medicina e Oncologia Molecular e doutorado em Metabolismo pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu ainda, nos Estados Unidos, um Master em “Public Health” na Universidade de Harvard. É docente na Universidade do Porto Coordena os Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde.

Foi o primeiro cirurgião a realizar cirurgias para o tratamento da obesidade em ambulatório, na Península Ibérica, quer sleeve gástrico, em 2021, como bypass gástrico, em 2023. Em 2025, Gil Faria ava nova técnica cirúrgica “Koala Sleeve”, que consiste numa adaptação do sleeve tradicional, que permite controlar o seu principal problema que é o refluxo gastroesofágico. Os resultados preliminares foram publicados, em janeiro de 2025, na revista internacional especializada “Surgical Endoscopy And Other Interventional Techniques”. Ao longo dos anos, o especialista conta com inúmeros prémios e reconhecimentos, quer em Portugal quer além-fronteiras. À Forbes Portugal revela alguns dados da sua investigação e intervenção clínica neste campo da saúde.

 

A obesidade é um grave problema de saúde pública, quer em Portugal, quer no resto do mundo. A OMS reconheceu-a como doença. Qual o balanço que faz desta “epidemia” no nosso país?

Portugal vive uma epidemia silenciosa. E o silêncio talvez seja o mais perigoso. Mais de metade dos adultos portugueses têm excesso de peso ou obesidade. Estamos a falar de milhões de pessoas. Não é uma minoria, não é um nicho, não é um desvio estatístico. É a nova normalidade. E quando algo se torna normal, deixa de chocar. Esse é o problema. Aproximadamente um em cada quatro adultos e uma em cada sete crianças tem obesidade. Estamos a formar uma geração que começa a vida já com elevado risco de diabetes, doença cardiovascular e sofrimento psicológico. Isto não é um detalhe clínico. É uma questão civilizacional. Durante anos insistimos numa história confortável de que a culpa é individual. Mas a ciência desmontou essa ideia. A obesidade é uma doença crónica, complexa e progressiva. E é influenciada por genética, hormonas, ambiente alimentar, stress, sono e desigualdade social. Não é preguiça. Não é falta de carácter.

E ainda não fazemos o suficiente. Temos conhecimento científico. Temos dados objetivos, e até temos estratégias escritas, mas ainda não sentimos a urgência proporcional à dimensão do problema. Estamos a viver uma epidemia que não grita; não faz manchetes me jornal. Mata muito, mas devagar. E, por isso, continua a ser subestimada.

 

De que forma o nosso país está a enfrentar este problema? Estamos a tratar esta doença com alguma prioridade?

Portugal já deu passos importantes. Foi pioneiro no reconhecimento da obesidade. Criou programas nacionais, publicou orientações técnicas e definiu percursos de cuidados. Até foram criados centros de tratamento cirúrgico e oferecidas cirurgias. Tudo isso é positivo. Mostra que o tema entrou na agenda, mas entre reconhecer e priorizar vai uma distância enorme. A realidade no terreno é mais difícil. Longos tempos de espera, equipas multidisciplinares insuficientes e com orientações técnicas demasiado rígidas. Falta de acesso a terapêuticas eficazes e cirurgias limitadas a uma pequena fração dos doentes elegíveis.

A obesidade continua a ser tratada, muitas vezes, apenas quando já provocou estragos irreversíveis. É como esperar que o edifício desabe para depois reforçar as fundações. Se fosse uma doença aguda com mortalidade rápida, já teríamos mobilizado recursos extraordinários. Como a progressão é lenta e o preconceito ainda é imenso, os nossos atos ainda são tímidos. Temos assistido a progressos importantes. Mas ainda estamos longe de tratar a obesidade como tratamos outras doenças crónicas graves, principalmente porque ainda nos custa acreditar verdadeiramente na ciência.

 

Que peso é que este problema tem nas contas públicas, sobretudo na sustentabilidade do SNS?

A obesidade é uma das maiores ameaças à sustentabilidade do SNS. E não é por causa do custo do tratamento da obesidade, é por causa do custo de não a tratar.  Enfartes, AVC, diabetes, insuficiência renal, cancro, cirurgias ortopédicas, reformas antecipadas, absentismo laboral, isolamento social. Tudo isto tem uma raiz comum muito frequente: a obesidade. O impacto económico do excesso de peso, em Portugal, já representa uma fatia relevante do PIB e tenderá a crescer nas próximas décadas. Estima-se que, apenas de custos diretos, sejam mais de 1.500 milhões de euros todos os anos. Cerca de 10% de todos os gastos em saúde e até 1% do PIB.

“A obesidade não é falta de esforço ou força de vontade. Não é gula, nem preguiça. É uma doença crónica que exige coragem política, ciência e humanidade para ser tratada como merece.”

Mas mais do que números, importa perceber a lógica. Cada doente que não tratamos hoje é uma despesa exponencial amanhã. Fica muito mais caro não tratar a obesidade atempadamente. A cirurgia metabólica, por exemplo, é um dos gestos clínicos mais custo-eficazes de toda a medicina, só comparável à vacinação. Sustentabilidade não é poupar no tratamento precoce. Sustentabilidade é evitar o colapso futuro. Ignorar a obesidade não é uma estratégia de contenção, é uma bomba-relógio financeira.

 

Que poupanças pode o país arrecadar com o tratamento prévio e prevenção da obesidade, sobretudo na infância?

Investir na infância é a decisão mais inteligente que um país pode tomar. Uma criança com obesidade tem elevada probabilidade de se tornar um adulto com obesidade. E um adulto com obesidade tem maior risco de doença crónica, menor produtividade e maior consumo de recursos de saúde. Prevenir a obesidade infantil significa evitar décadas de medicação, internamentos e incapacidade. Significa evitar sofrimento emocional, estigmatização e perda de autoestima.

Portugal tem programas de promoção da alimentação saudável e medidas como a taxação de bebidas açucaradas. Existem orientações para a oferta alimentar nas escolas e proibição de venda de alguns alimentos em ambientes suscetíveis. Isso é importante, mas os dados mostram que ainda não é suficiente. Prevenção eficaz exige ambientes saudáveis, cidades que promovam movimento, acesso real a alimentos de qualidade, educação consistente e desenvolvimento socioeconómico. Não basta informar; é preciso transformar o contexto em que as famílias vivem.

 

Como vê o combate da obesidade através de medicação? E o uso em pessoas não doentes?

A medicação antiobesidade representa uma importante mudança de paradigma. Pela primeira vez temos fármacos que atuam diretamente nos mecanismos biológicos da fome e da saciedade, com impacto significativo na perda de peso e na redução de risco cardiovascular. E isto confirma algo essencial: a obesidade é tratável, porque é biológica. Finalmente não é uma falha moral.

No entanto, existe um risco sério quando estes medicamentos são utilizados por pessoas sem indicação clínica, movidas apenas por objetivos estéticos. Isso cria escassez, aumenta desigualdades e desvia recursos de quem realmente precisa. Quando banalizamos uma terapêutica médica eficaz, transformando-a em tendência de moda, comprometemos a sustentabilidade do sistema e prejudicamos os doentes com doença real. Por outro lado, os medicamentos têm de ser utilizados num contexto de acompanhamento multidisciplinar. De forma isolada, não são suficientes. Precisam de preparação, acompanhamento e monitorização. É preciso ajustar a dieta, estimular o exercício físico e garantir que não se desenvolvem complicações. A solução não é demonizar a medicação. É utilizá-la com critérios claros, acompanhamento especializado e justiça no acesso.

 

Como gostaria de ver tratado este tema no futuro? Qual a sua ambição?

A minha ambição é que a obesidade possa ser tratada de forma madura e com base na ciência. Sem culpa. Sem humilhação. Sem discursos simplistas. Quero um país onde uma mulher com obesidade não tenha vergonha de pedir ajuda. Onde um adolescente não seja alvo de gozo, mas de acompanhamento. Onde o acesso ao tratamento não dependa do rendimento. E onde todos possam ter a educação e a disponibilidade para adotar estilos de vida saudáveis.A obesidade é uma doença crónica. Exige acompanhamento ao longo da vida. Exige integração entre prevenção, nutrição, medicação, cirurgia e apoio psicológico. Exige respeito.

A minha ambição é simples e ambiciosa ao mesmo tempo. Que deixemos de discutir se a obesidade é uma doença, se é culpa do doente, e passemos a discutir qual a melhor forma de a tratar. A obesidade não é falta de esforço ou força de vontade. Não é gula, nem preguiça. É uma doença crónica que exige coragem política, ciência e humanidade para ser tratada como merece.

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