Empresas esperam recuperar no segundo semestre, mas burocracia continua a travar atividade

As empresas portuguesas entram na segunda metade de 2026 com expectativas de uma ligeira melhoria da atividade, depois de um primeiro semestre marcado por fenómenos climáticos extremos e por um contexto internacional particularmente instável. Mas, apesar de uma maior confiança na evolução dos negócios, persistem obstáculos que continuam a limitar a capacidade das empresas para…
ebenhack/AP
Mais de 84% das empresas inquiridas pela AEP apontam a burocracia como o principal obstáculo à atividade. Custos energéticos, tensões geopolíticas e matérias-primas completam o grupo dos maiores constrangimentos.
Economia

As empresas portuguesas entram na segunda metade de 2026 com expectativas de uma ligeira melhoria da atividade, depois de um primeiro semestre marcado por fenómenos climáticos extremos e por um contexto internacional particularmente instável. Mas, apesar de uma maior confiança na evolução dos negócios, persistem obstáculos que continuam a limitar a capacidade das empresas para crescer, investir e competir. E, entre todos, há um que se destaca claramente: a burocracia.

O Inquérito – Perspetivas de evolução da atividade empresarial, realizado pela AEP – Associação Empresarial de Portugal durante o mês de julho, junto de 400 empresários e gestores, revela que 84,2% dos inquiridos identificam a burocracia como um constrangimento à atividade. É o fator mais referido pelas empresas e surge à frente de questões como os custos da energia, a instabilidade geopolítica e o preço das matérias-primas.

84,2% dos inquiridos identificam a burocracia como um constrangimento à atividade.

Relativamente aos restantes obstáculos identificados, o inquérito da AEP refere que 82,1% das empresas apontam os custos dos bens energéticos, enquanto 79,5% referem as tensões geopolíticas, incluindo conflitos militares e medidas protecionistas. Seguem-se os custos das matérias-primas, excluindo bens energéticos, com 75%, e os preços dos transportes, mencionados por 73%.

A fiscalidade é também uma preocupação relevante: 65,8% das empresas consideram que está a afetar o desenvolvimento da atividade. A concorrência internacional é apontada por 57,9% dos inquiridos, a mesma percentagem que identifica a falta de mão-de-obra como um constrangimento. O financiamento surge, por comparação, como o problema menos referido, com 28,6%.

Burocracia no topo das preocupações

Entre os riscos adicionais apontados estão a falta de agilidade dos organismos públicos, os custos de contexto e o excesso de legislação. Os empresários referem ainda a instabilidade fiscal, a manutenção dos preços dos combustíveis, a inflação, a falta de confiança dos consumidores e a diminuição do consumo.

No plano internacional, preocupam particularmente a instabilidade e a incerteza, a crescente fragmentação geopolítica e a criação de novas barreiras aduaneiras. A escassez de matérias-primas associada a condições climatéricas e os prazos de entrega são outros dos fatores que continuam a condicionar decisões.

No plano internacional, preocupam particularmente a instabilidade e a incerteza, a crescente fragmentação geopolítica e a criação de novas barreiras aduaneiras.

Não surpreende, por isso, que, quando questionadas sobre as medidas que poderiam contribuir para ultrapassar estes constrangimentos, as empresas coloquem a eliminação de burocracias no topo das prioridades. A melhoria do sistema de Justiça e a simplificação das leis surgem logo de seguida.

A simplificação da fiscalidade e a redução da carga fiscal sobre as empresas são igualmente apontadas como prioridades. Os empresários defendem ainda um maior investimento em digitalização e automação aduaneira, de forma a tornar os processos mais rápidos e eficientes.

Empresas esperam uma segunda metade do ano melhor

Apesar das dificuldades, as expectativas para a segunda metade do ano são mais positivas do que os resultados registados nos primeiros seis meses. No mercado nacional, 53,9% das empresas antecipam um aumento do volume de negócios no segundo semestre. Na maioria dos casos, trata-se de uma subida ligeira: 51,3% apontam nesse sentido, enquanto 2,6% esperam um aumento significativo.

No primeiro semestre, tinham sido 48,7% as empresas a registar crescimento. Ao mesmo tempo, diminui de 25,7% para 20,5% a percentagem de empresas que antecipam uma redução da atividade.

Também no mercado internacional existe uma melhoria das expectativas, embora mais moderada. 30,8% das empresas esperam aumentar o volume de negócios no segundo semestre, contra 25,7% que registaram crescimento nos primeiros seis meses. A percentagem das empresas que prevê uma diminuição da atividade mantém-se, contudo, nos 28,2%.

No mercado nacional, 53,9% das empresas antecipam um aumento do volume de negócios no segundo semestre.

Para Luís Miguel Ribeiro, presidente do conselho de administração da AEP, os resultados mostram uma capacidade de resistência do tecido empresarial, mas devem ser interpretados com prudência: “Depois de um primeiro semestre muito difícil, é positivo verificar que as empresas encaram a segunda metade do ano com uma perspetiva de alguma melhoria da atividade. Mas estes resultados devem ser lidos com prudência: estamos a falar de uma recuperação ligeira”, afirma.

O responsável destaca o impacto de fenómenos climáticos extremos, da instabilidade internacional e dos efeitos provocados pelo encerramento do Estreito de Ormuz, considerando que as empresas demonstraram capacidade para “acomodar, em parte, impactos extremamente adversos, de origem interna e externa”.

Essa resiliência, acrescenta, não significa que o ambiente de negócios tenha ficado menos exigente: “A instabilidade geopolítica, os custos energéticos e das matérias-primas e a crescente fragmentação do comércio internacional continuam a condicionar decisões e a exigir capacidade de adaptação.”

Menos dependência e mais capacidade de resposta

Perante um contexto internacional mais fragmentado, as empresas defendem também mudanças na forma como abordam os mercados externos. Entre as medidas propostas estão o reforço de acordos comerciais bilaterais e regionais e a diversificação de mercados, reduzindo a dependência de determinadas rotas ou blocos económicos. A maior flexibilidade logística, através de soluções multimodais e de rotas alternativas, é igualmente apontada como necessária.

O reforço do diálogo entre empresas, entidades reguladoras e instituições é outra das medidas defendidas, assim como a criação de parcerias estratégicas estáveis e fiáveis que permitam responder melhor a futuras disrupções.

Perfil das empresas inquiridas

As empresas inquiridas têm uma forte exposição aos mercados externos: 46% exportam e importam, 28% apenas exportam e 10% apenas importam. Apenas 16% não desenvolvem atividade de exportação ou importação. A amostra inclui ainda diferentes dimensões empresariais: 39% são médias empresas, 33% pequenas empresas, 23% microempresas e 5% grandes empresas.

Mais Artigos