Opinião

Empreendedorismo feminino: da normalidade silenciosa ao pilar estratégico da economia

Maria Duarte Bello

O empreendedorismo feminino nunca foi uma exceção histórica, nem um fenómeno emergente. Foi, durante décadas, uma normalidade silenciosa: mulheres a criar, gerir e sustentar negócios em contextos onde o risco era real, o capital escasso e a margem de erro mínima. O que mudou não foi a capacidade, nem a ambição. Mudou o lugar que este empreendedorismo ocupa no discurso económico.

Hoje, as mulheres empreendedoras são valorizadas, reconhecidas e, cada vez mais, procuradas. Não por uma correção política tardia, mas porque os resultados são consistentes, mensuráveis e economicamente relevantes. Ou seja, sempre existiu, apenas não era nomeado.

Durante décadas, em Portugal, milhares de mulheres lideraram pequenos negócios que sustentaram economias locais: mercearias, confecções, cabeleireiros, ateliers, pastelarias, explorações agrícolas, serviços de proximidade e empresas familiares. Muitas destas mulheres eram simultaneamente gestoras, comerciais, financeiras e operacionais, funções que hoje associamos a equipas inteiras.

Estes negócios raramente apareciam nas estatísticas da inovação ou nos discursos sobre crescimento económico. No entanto, foram precisamente eles que garantiram emprego local, estabilidade de rendimento e continuidade económica em períodos de crise, incluindo recessões e momentos de forte instabilidade social. A invisibilidade não resultava de falta de impacto. Resultava de um modelo económico que confundiu escala com valor.

Com o amadurecimento do ecossistema empresarial, muitas destas mulheres e  as gerações seguintes transformaram negócios tradicionais em empresas competitivas, profissionalizadas e orientadas para mercados mais amplos.

Em Portugal, vemos hoje mulheres a liderar PME industriais, empresas exportadoras no setor têxtil, calçado, agroalimentar e design, muitas vezes a partir de estruturas familiares que foram modernizadas com inovação, tecnologia e estratégia internacional. Negócios que cresceram sem perder controlo financeiro e que atravessaram crises precisamente por não dependerem de modelos excessivamente alavancados. Este tipo de crescimento é raramente mediático, mas é estrutural para a economia.

Ao mesmo tempo, o empreendedorismo feminino afirmou-se em setores tradicionalmente associados à inovação de alto crescimento. Em Portugal, mulheres fundaram e lideram startups nas áreas da saúde digital, fintech, sustentabilidade, inteligência artificial, educação e impacto social.

O traço comum não é o setor, mas a abordagem: foco na resolução de problemas reais, construção de equipas sólidas e atenção à viabilidade económica desde cedo. Muitas destas empresas cresceram de forma progressiva, evitando dependência excessiva de capital externo, uma estratégia que se revelou particularmente eficaz em contextos de retração do investimento.

Hoje, estas fundadoras não são exceções. São parte integrante do tecido empreendedor nacional.

É importante sublinhar que a valorização atual do empreendedorismo feminino não assenta em narrativas simbólicas. Assenta em resultados. Investidores e parceiros reconhecem que as empresas lideradas por mulheres tendem a apresentar maior disciplina financeira, melhor governação e maior capacidade de adaptação a contextos adversos.

Em Portugal, isso é visível tanto em negócios de base tecnológica como nas empresas tradicionais que resistiram melhor à inflação, à escassez de mão de obra e às flutuações do consumo. A liderança feminina deixou de ser vista como alternativa, passou a ser referência de estabilidade.

Durante demasiado tempo, os pequenos negócios, onde as mulheres sempre tiveram forte presença, foram tratados como economicamente secundários. Hoje, esta perceção está a mudar. Num contexto de incerteza global, são precisamente estes negócios que asseguram proximidade ao mercado, fidelização de clientes e adaptação rápida.

Basta observar o papel de milhares de empresárias no comércio local, na restauração, nos serviços e na economia criativa para perceber que estes modelos, longe de serem frágeis, são profundamente resilientes.

Portugal reúne condições únicas para transformar esta realidade numa vantagem competitiva: um tecido empresarial assente em PME, uma cultura empreendedora crescente e uma geração de mulheres altamente qualificadas, com experiência prática e visão estratégica. O desafio não é criar exceções nem programas simbólicos. É integrar plenamente o empreendedorismo feminino nas decisões de investimento, internacionalização e crescimento económico.

As mulheres não precisam de ser convencidas a empreender, sempre o fizeram. Hoje, são reconhecidas, valorizadas e respeitadas enquanto líderes económicas. O próximo passo é garantir que este reconhecimento se traduz em escala, influência e poder de decisão.

Porque o empreendedorismo feminino já não é uma narrativa emergente. É um pilar silencioso que se tornou visível e que terá um papel determinante na economia portuguesa das próximas décadas.

Maria Duarte Bello,
CEO da MDB-Coaching e Gestão de Imagem, PhD Lecturer, expert na Marca Pessoal, Trainer em Public Speaking e Media Training

 

Artigos Relacionados