Empreendedorismo: De pequenino se torce… o gestor

Tinha apenas 17 anos quando agarrou, com coragem, no quase falido restaurante de comida chinesa dos seus pais, em Vila Nova de Famalicão. Desde cedo se interessou por programas televisivos ligados à recuperação de restaurantes, como o do conhecido chefe Gordon Ramsey, e foi bebendo, avidamente, os seus ensinamentos. Foi através deles que começou a…
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Com apenas 13 anos, Yang Qi geria as lojas de produtos chineses dos pais, e aos 17 recuperou um restaurante condenado a fechar. Hoje, aos 32 anos, lidera o grupo familiar 5Y que já explora, com vários sócios, oito restaurantes e planeia abrir mais cinco até ao final de 2026. Estima faturar 12 milhões de euros já este ano.
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Tinha apenas 17 anos quando agarrou, com coragem, no quase falido restaurante de comida chinesa dos seus pais, em Vila Nova de Famalicão. Desde cedo se interessou por programas televisivos ligados à recuperação de restaurantes, como o do conhecido chefe Gordon Ramsey, e foi bebendo, avidamente, os seus ensinamentos. Foi através deles que começou a entender as questões da padronização, das experiências do cliente, daquilo que realmente conta no negócio. Mesmo nessa tenra idade sabia já que precisava criar um conceito, uma marca com qualidade, comunicá-la, e sobretudo, atrair clientes para toda uma experiência. Acabou por se licenciar em Gestão Hoteleira e colocar em marcha, com sucesso, tudo o que aprendeu, quer na televisão, quer na faculdade.

Yang Qi, é hoje, aos 32 anos, sócio em oito restaurantes, quase todos com o conceito oriental, e planeia chegar aos 12 até ao final do próximo ano. O Grupo 5Y, que pertencente, em parte, à sua família, e é ainda partilhado por vários sócios em cada uma das operações, explora estes espaços no Norte do país, e deverá terminar o ano com uma faturação de nove milhões de euros. Para final de 2026 estima que este valor tenha ultrapassado a fasquia dos 12 milhões de euros. Se pensarmos que, na altura da pandemia de covid 19, a família de Yang Qi apenas tinha dois espaços a funcionar, verificamos o quão rápido e notável foi o crescimento do pequeno grupo familiar. O jovem, que já nasceu na Península Ibérica, mas viveu com os avós na China até aos cinco anos, queria ser empresário desde sempre. Não na restauração, mas foi esta a oportunidade que lhe surgiu e agarrou-a com unhas e dentes. Quando se estimula o bichinho do empreendedorismo, qualquer área serve para a pôr em prática as suas capacidades.

Os primeiros anos da família em Portugal

A história começa como a de muitos emigrantes: dois jovens saem do norte da China à procura de melhores oportunidades de vida. Instalam-se em Espanha, país no qual se conhecem e acabam por casar. Em 1993 nasceu o primeiro de três filhos, Yang Qi, que, com apenas dois meses foi entregue aos avós paternos, ainda a viverem na China, para que os pais pudessem abrir um negócio próprio, agora em Portugal. Escolheram Vila Nova de Famalicão, onde a oferta de restaurantes chineses era inexistente, e inauguram, em 1994, o Jardim Oriental. Ambos tinham alguma experiência na restauração e este pareceu-lhes um bom projeto de vida. Com o negócio estabilizado, trazem o primogénito para o território nacional, e nasce, entretanto, um segundo filho, em 1997, e um terceiro em 1999, completando o núcleo familiar. O negócio vai crescendo, vão surgindo outros investimentos, como o das lojas de produtos chineses – a primeira loja abriu em Esposende -, e lojas de pronto a vestir. Com esta diversificação, o restaurante foi recolhendo menos atenção, e chegada a crise de 2008, aliada a uma certa má publicidade dos restaurantes chineses, o negócio estava em risco de fechar. Em 2011 dava prejuízo.

Yang Qi, jogador de rugby, adora viajar, sobretudo para conhecer restaurantes que o possam inspirar. Destaca, como modelo internacional, a cadeia de restaurantes asiáticos Zuma, mas também tem ídolos dentro de fronteiras. O grupo JNc Quoi e o grupo Olivier são dois dos que mais admira.

Yang Qi sonhava ser empresário, e sabia que ia ser. Com apenas 13 anos já ajudava os pais, que pouco ou nada falavam em português, a gerir as lojas, e acompanhava o negócio do restaurante. “Quando os meus pais abriram a primeira loja de produtos chineses fui eu que fiz as entrevistas de emprego, era eu que conferia as encomendas, que inseria os produtos no software”, recorda. Esta loja teve bastante sucesso, pois decidiu que deveria fazer folhetos, como faziam os supermercados, e assim deu gás ao negócio dos pais. No secundário estudou contabilidade, na certeza de que ira necessitar de saber mais sobre tributação e contabilidade.

O jovem ansiava fazer os 18 anos para ter a sua independência e poder assim criar os seus próprios negócios. O curso de Gestão Hoteleira, concluído no Porto, no ISAG, surgiu depois de assumir, aos 17 anos, o restaurante dos pais, tendo conciliado os dois desafios. Não era o que ambicionava, mas foi esta a oportunidade que lhe foi apresentada: salvar o restaurante moribundo. “Não tive opção de escolha, era a última oportunidade para salvar o negócio dos meus pais. Como filho mais velho, tinha de lhe dar continuidade”, diz. Assumiu a responsabilidade e vieram as primeiras mudanças. Quando agarrou no restaurante sabia que tinha de criar uma marca, tinha de a conseguir comunicar, de fazer publicidade, tinha de ter padrões de qualidade e funcionários motivados. “Porém, o início foi mais difícil do que pensava, e os primeiros tempos foram muito duros”, diz.

Vista do restaurante HOKO em Braga. Foto/Igor Martins

Aos pouco foi percebendo que o conceito do restaurante estava ultrapassado e procurou introduzir inovações. Inicialmente quis aproximar o mais possível à verdadeira gastronomia chinesa, para ser o mais autêntico possível. “Aí surgiu a ideia de que toda a gente que fosse ao restaurante comesse com pauzinhos e, se não soubesse, teria de aprender. Porque aí já estava a oferecer uma experiência”, relembra Yang Qi. Mas não conseguiu mudar o nome do restaurante nem fazer alterações de fundo. “Cresci em Portugal e fui desenvolvendo uma visão mais ocidental, que em muitos pontos não coincidiam com a dos meus pais”, refere. Quis introduzir o sushi, mas teve de conciliar com a oferta que já existia, criando um menu à parte. Confessa que, mesmo assim o conceito de asiático funcionou bem, porque se apoiou muito nas redes sociais – na altura sobretudo Facebook. Sustentado no seu sucesso, conseguiu então alterar o nome original do restaurante para Mikado, em 2013, inspirado no conceito de comer com “pauzinhos”, algo que era comum às duas gastronomias.

Para alavancar o negócio dos restaurantes japoneses através da oferta de experiências únicas, o empreendedor deu início a um conjunto de cerimónias Kaitai nos restaurantes HoKo e Koda.

O novo conceito começou a crescer, mas também a divergência de opinião com os pais. Yang Qi sentia que não conseguia implementar as suas ideias, e, no final de 2017 surgiu uma oportunidade de ir trabalhar, como gerente, para um restaurante japonês recém-inaugurado em Coimbra. A proposta implicava um salário de 1.500 euros mensais, e um prémio de dois mil euros, se atingisse o objetivo de faturar 50 mil euros – o restaurante, de 60 lugares, faturava então cerca de 26 mil euros. O objetivo foi logo ultrapassado em janeiro de 2018, o primeiro mês em que ali trabalhou. “Então comecei a pensar que se calhar não era só sorte. No fundo, foi aí quer comecei a tomar consciência das minhas capacidades”, recorda.

O regresso às origens e abertura de um novo conceito

Yang Qi esteve seis meses em Coimbra, até que o apelo familiar falou mais alto. Os pais pediram-lhe que regressasse a Vila Nova de Famalicão, e como, entretanto, em 2016, o Mikado tinha mudado de instalações, para um espaço maior, o antigo local estava fechado e o gestor, apoiado pelos pais, investe aí num projeto próprio. Tratou-se do Los Pepes, um conceito de Tex-Mex, ou seja, uma fusão entre comida mexicana e comida do Texas, que abriu no final de 2018 com 50 lugares. “Queria fazer algo diferente, fora do asiático. Fiz a minha interpretação do conceito e escolhi os pratos”, refere. Atualmente este restaurante encontra-se num espaço maior e triplicou as suas receitas com um novo produto, um festival mexicano que inclui um menu de preço fixo. No início de 2020, quando surgiu a pandemia este restaurante não trabalhou muito bem, porém o Mikado teve uma reação muito positiva. Logo na primeiro semana, o restaurante asiático tinha dezenas de chamadas não atendidas e através de uma aplicação desenvolvida para gerir as encomendas conseguiram manter o negócio muito ativo. “As vendas baixaram de cerca de 120 mil euros por mês para os 80 mil por mês, mas também tínhamos menos custos”, refere o empresário.

Um dos pratos servidos no HOKO. Foto/Igor Martins

A entrada do primeiro sócio no Grupo 5Y deu-se em 2021, quando lhe propuseram uma sociedade num espaço que já existia, em Caldas de Vizela, o restaurante japonês Miyuki, que atravessava algumas dificuldades. Esta localização não estava planeada pois a sua estratégia passava pela aposta em cidades maiores, mas ao ver a beleza do espaço, junto ao rio, Yang Qi rendeu-se. Então, nesse ano, ainda no rescaldo da pandemia, o grupo investiu em três novos espaços: o Miyuki de Caldas de Vizela, o Mikadinho, Poke & Sushi, no mercado municipal de Vila Nova de Famalicão, e o Mikado, em Braga, os três com conceito de gastronomia japonesa. O grupo não abriu mais nenhum restaurante até 2023, altura em que surgiu, em Braga, um novo espaço, o Hoko, também um japonês. “Era uma antiga pastelaria que já tinha debaixo de olho, até que conseguimos adquirir o imóvel. Hoje é o nosso melhor restaurante, fatura mais de 2,2 milhões de euros ao ano”, explica o gestor. Este ano já foram incluídas mais duas localizações ao cardápio do grupo: o Koda, em Paredes e o Shoyu em Braga.

Para alavancar o negócio dos restaurantes japoneses através da oferta de experiências únicas, o empreendedor deu início a um conjunto de cerimónias Kaitai nos restaurantes HoKo e Koda. Trata-se de uma cerimónia de desmanche de um atum rabilho (com mais de 100 quilos), ao vivo, sendo oferecidos depois aos clientes várias partes do atum, preparadas de diversas formas. “A primeira vez que fizemos a cerimónia, no primeiro aniversário do Hoko, despertou logo muito interesse. Hoje chegam pessoas de todos o país, para participar”, refere Yang Qi.

O crescimento acelerado da faturação do grupo

Neste momento, o Grupo 5Y tem sob a sua gestão oito unidades, algumas partilhadas com sócios específicos para cada operação. “Os sócios têm capital nas marcas, ou seja, eu tenho sócios que estão comigo em três restaurantes, outros estão só em dois ou apenas em um. Eu sou o único que sou acionista em todos”, explica o Yang Qi. O gestor revela que no final do ano, a previsão é que o grupo fature cerca de nove milhões de euros, para os quais contribuem mais duas inaugurações: o Los Pepes em Braga, e o Ikeda (uma reabertura), no Campo Alegre, no Porto.  Para o próximo ano, a estimativa aponta para receitas de 12 milhões de euros, já com estes dois restaurantes consolidados. No entanto, o grupo prevê ainda adicionar mais três espaços durante o ano de 2026, mas para já, o segredo é a alma do negócio. A equipa, essa já ultrapassa os 150 colaboradores e deverá ultrapassar a barreira dos 200 no ano que vem.  Assegura que o negócio é lucrativo e tem, como regra, “só abrir segundas e terceira unidades de conceitos que nos dão provas de que são vencedores.” Yang Qi, jogador de rugby, adora viajar, sobretudo para conhecer restaurantes que o possam inspirar. Destaca, como modelo internacional, a cadeia de restaurantes asiáticos Zuma, mas também tem ídolos dentro de fronteiras. O grupo JNc Quoi e o grupo Olivier são dois dos que mais admira.

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro/novembro de 2025 da Forbes Portugal)

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