Neste início de ano, um período tradicionalmente dedicado ao balanço e à projeção do futuro, é inevitável refletir sobre a crescente volatilidade económica e os riscos geopolíticos que marcaram os últimos doze meses. Ao mesmo tempo, a Europa avança numa transformação regulatória e tecnológica sem precedentes, que definirá a próxima década. É neste cenário complexo, ao olharmos para os desafios e oportunidades que se avizinham, que uma pergunta ambiciosa se impõe com particular urgência: pode Portugal assumir um papel central na nova ordem financeira global? A minha convicção é que o nosso país tem as condições necessárias para evoluir de um mero “porto seguro” para uma sofisticada plataforma global, desde que consiga combinar a sua estabilidade, resiliência e cultura de abertura com uma execução disciplinada.
Para construir um centro financeiro de relevo, os alicerces são, inevitavelmente, a estabilidade e a confiança. Sem segurança jurídica, um euro consolidado, credibilidade regulatória e um sistema financeiro de qualidade, não é possível atrair capital de longo prazo nem criar profundidade de mercado. Portugal possui estes fundamentos e deve capitalizá-los como a sua principal vantagem. A esta base de confiança, junta-se um novo imperativo: a resiliência operacional. A cibersegurança passou a ser um tema central na agenda dos conselhos de administração, e o novo regulamento europeu DORA (Digital Operational Resilience Act) força uma gestão de risco tecnológico muito mais integrada. As instituições que tratarem esta resiliência não como um custo de conformidade, mas como uma vantagem competitiva, estarão mais bem posicionadas para escalar serviços transfronteiriços, e Portugal tem aqui uma oportunidade clara para se diferenciar. Adicionalmente, o sistema financeiro é a alavanca estratégica para a sustentabilidade. Financiar a transição energética e social é, simultaneamente, uma missão e uma oportunidade. O nosso país possui uma capacidade de criação em projetos ESG — das energias renováveis à economia azul — e pode, com enorme credibilidade, estruturar green bonds e fundos temáticos que canalizem a poupança para um crescimento responsável. Finalmente, nada disto se sustenta sem uma base de literacia financeira sólida, pois mercados mais informados são, por definição, mais estáveis, mais confiantes e mais preparados para a inovação.
Contudo, para se diferenciar verdadeiramente, Portugal não precisa de imitar outros modelos, pois possui uma proposta de valor única. A dimensão de um país não determina a sua relevância, como demonstram os exemplos de Inglaterra, Luxemburgo ou Singapura. O que conta é a estabilidade, a regulação eficaz, o talento e a inovação. Portugal distingue-se pelo seu talento qualificado e bilingue, pela força da língua portuguesa como ativo geoeconómico, pelas suas universidades competitivas e por um custo de vida equilibrado. A sua posição atlântica, a qualidade de vida e uma cultura histórica de acolhimento e gestão da diversidade são trunfos decisivos para atrair e reter talento e riqueza global.
Esta combinação de estabilidade e talento pode ser exponenciada pela inovação digital, que deve ser vista como uma extensão dos pilares clássicos, tornando-os mais competitivos. A recente transposição do regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets), por exemplo, traz eficiência e transparência com proteção acrescida para o investidor. Neste domínio, uma stablecoin europeia, ancorada em ativos seguros e sob supervisão prudencial, pode, em complemento ao Euro Digital, reforçar a competitividade do euro em transações internacionais. Portugal pode liderar este movimento, atraindo projetos de pagamentos tokenizados num ambiente controlado, como uma sandbox regulatória. Outros casos de uso, como a tokenização de green bonds com reporting ESG em tempo real ou a custódia institucional de ativos digitais com certificação DORA, mostram como os ativos digitais complementam o edifício financeiro, não o substituem.
A ambição, contudo, exige um plano de execução, assente em três frentes paralelas. Na regulação e infraestrutura, é preciso garantir uma implementação exemplar do DORA e lançar uma sandbox para a tokenização de produtos financeiros. No capital humano, é fundamental criar programas executivos bilingues para certificar competências em DORA, MiCA e ESG, enquanto se aceleram os programas de literacia financeira para todos. Por fim, na diplomacia económica, é crucial construir e sustentar uma narrativa consistente de “Portugal, o Hub Financeiro Digital e ESG da Europa”, atraindo centros de competência e conferências globais que reforcem essa marca. Qualquer plano acarreta riscos, que devem ser mitigados com um modelo de governo forte, auditoria contínua e comunicação clara.
Em suma, a Europa está a desenhar os caminhos do futuro financeiro. Portugal, com os seus diferenciais únicos, tem a oportunidade de “conduzir esta locomotiva”. Com estabilidade, resiliência digital, liderança em sustentabilidade e uma proposta de valor inigualável, o país tem os argumentos para se afirmar como uma plataforma global. A inovação digital é o complemento que torna este edifício mais robusto. O desafio, agora, é de disciplina e foco para garantir uma janela de execução imediata.
Estamos prontos para dar o passo?
António Henriques,
CEO do Bison Bank





