A desinformação ligada às eleições presidenciais portuguesas atingiu, na primeira volta, mais de 8,3 milhões de visualizações nas redes sociais, com o vídeo a destacar-se como o principal veículo de propagação. Os dados constam de um estudo do LabCom – Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), desenvolvido no âmbito do ODEPOL – Observatório de Desinformação Política e adiantado pela agência Lusa.
A monitorização incidiu sobre a presença digital de pré-candidatos e candidatos nas principais redes sociais em Portugal, nomeadamente Facebook, Instagram, X, TikTok, Threads e YouTube, e teve início a 17 de novembro de 2025, data do primeiro frente a frente televisivo entre André Ventura e António José Seguro.
De acordo com os investigadores, os conteúdos classificados como desinformativos totalizaram 8.392.713 visualizações, contabilizando todas as vezes que surgiram nos ecrãs dos utilizadores, incluindo repetições. Estes conteúdos geraram ainda 347.228 reações, 64.151 comentários e 27.178 partilhas.
Identificados 17 casos de desinformação
Durante a pré-campanha e a campanha da primeira volta foram identificados 17 casos de desinformação. André Ventura, líder do Chega e segundo candidato mais votado, concentrou 82,4% desses casos. Os restantes envolveram pré-candidatos que não foram aceites pelo Tribunal Constitucional e André Pestana, que representou 5,9% das ocorrências.
Dos 17 casos analisados, quatro envolveram o recurso a Inteligência Artificial (IA), sobretudo na divulgação de alegadas intenções de voto associadas a André Ventura, geradas por empresas de análise política que recorrem a algoritmos de previsão eleitoral. O único caso de utilização direta de IA identificado envolveu André Pestana, que recorreu a imagens hiper-realistas para simular André Ventura com expressões de raiva e a fazer uma saudação nazi.
O estudo destaca o vídeo como o formato preferencial da desinformação, utilizado em 70,6% dos casos analisados, enquanto as fotografias representaram 29,4%. Quanto à tipologia, a desinformação incidiu sobretudo na descredibilização dos media e dos jornalistas, responsável por 41,2% dos casos, seguida de conteúdo manipulado (23,5%) e da divulgação de sondagens de empresas não registadas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e sem metodologia tornada pública (17,6%).
O vídeo como o formato preferencial da desinformação, utilizado em 70,6% dos casos analisados.
Foram ainda identificados conteúdos classificados como enganadores, falsificação de informação e uso de contexto falso, cada um com 5,9% dos casos.
A maioria das ocorrências foi detetada nas plataformas da Meta, com a partilha de desinformação a ocorrer simultaneamente em 100% dos casos no Facebook e em 94,1% no Instagram. O X concentrou 82,4% das ocorrências, enquanto o Threads registou 29,4% e o TikTok, 17,6%.
Segundo o estudo, André Ventura é o autor de todos os conteúdos de desinformação com maior impacto. A publicação mais visualizada atingiu 2.083.040 visualizações e remonta a 26 de novembro de 2025. O conteúdo remetia para um caso documentado em 2018 pela organização PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), relacionado com maus-tratos a animais usados no transporte de turistas no Egito. No vídeo partilhado, o candidato responsabiliza a comunidade cigana pelos maus-tratos, acompanhando a publicação com uma legenda que questiona se os partidos à esquerda em Portugal ficariam “em silêncio por ser esta comunidade”.
Segunda volta a 8 de fevereiro
António José Seguro e André Ventura disputam a segunda volta das eleições presidenciais a 08 de fevereiro, depois de o candidato apoiado pelo PS ter obtido 31% dos votos na primeira volta e o líder do Chega ter alcançado 23%.
Na primeira volta, Cotrim Figueiredo, apoiado pela Iniciativa Liberal, ficou em terceiro lugar com 16%, seguido de Gouveia e Melo, com 12%, e de Marques Mendes, apoiado pelo PSD e pelo CDS, com 11%. À esquerda, Catarina Martins obteve 2%, António Filipe 1,6% e Jorge Pinto 0,6%, abaixo do cantor Manuel João Vieira, que registou 1%. André Pestana teve 0,2% e Humberto Correia 0,08%.
com Lusa





