A Redcatpig nasceu oficialmente em 2019, nos Açores, pela mão de Marco Bettencourt, CEO, João Toste, Diretor Artístico, e Bryan Freitas, Diretor Técnico. Criada na ilha Terceira, a empresa posiciona-se hoje como estúdio de desenvolvimento de videojogos com três frentes distintas: criação de títulos próprios, co-desenvolvimento com grandes estúdios internacionais e prestação de serviços de gamificação e soluções tecnológicas para clientes institucionais.
Sediada nos Açores, com presença também na Madeira e um escritório em Lisboa em processo de mudança para novas instalações, a empresa conta atualmente com cerca de 50 colaboradores, distribuídos entre a ilha Terceira (onde estão 16 pessoas), o continente e vários países, incluindo Espanha, Reino Unido e Tunísia. A equipa integra sete ou oito nacionalidades diferentes. A ambição é reforçar o quadro de colaboradores “porque os projetos assim o estão a exigir”.
Developer oficial para consolas globais
Entre os elementos distintivos da Redcatpig está o estatuto de parceiro oficial de grandes fabricantes de consolas. Apesar da sua condição insular (que poderia ser um handicap), a empresa é PlayStation Partner e Nintendo Developer, estando também em fase avançada de integração no programa de development da Xbox.

Este posicionamento permite-lhe desenvolver e adaptar jogos para diferentes plataformas, tanto em projetos próprios como em contratos internacionais. Num setor marcado por forte reestruturação global, com dezenas de milhares de layoffs acumulados desde 2022, a empresa afirma ter mantido uma trajetória sustentável. “Redcatpig, como é uma empresa sustentável, nunca fez lay-off”, afirma o CEO, referindo que entre 2022 e 2026 a indústria deverá totalizar cerca de 51 mil despedimentos.
Marco Bettencourt enquadra o contexto: “Tem havido um shift muito grande dentro da indústria, em que, digamos que os estúdios maiores têm canalizado bastante do seu trabalho para empresas externas”, numa lógica de externalização para reduzir custos fixos.
De três fundadores a um estúdio internacional
O percurso da empresa está ligado à história pessoal do fundador. Natural de Angra do Heroísmo, Marco Bettencourt viveu a infância no Rio de Janeiro (o que ainda hoje lhe empresta um sotaque ao português que fala), regressando aos Açores na adolescência. Sem oferta universitária alinhada com as suas ambições na área digital e tecnológica, construiu o seu percurso com formação complementar e experiência profissional em tecnologia, incluindo um período na Siemens, ligado à implementação de infraestruturas GSM na região, na altura para a TMN.
“Num dia de Web Summit, bloqueamos mais de metade do investimento necessário para dois anos de trabalho”
Depois de uma primeira empresa nos Açores na área do marketing digital, decide avançar para o setor dos videojogos com João Toste e Bryan Freitas. A Redcatpig nasce quando conseguem assegurar financiamento para dois anos de atividade, através de business angels, o qual foi fechado na Web Summit: “Num dia de Web Summit nós bloqueamos mais de metade do investimento necessário para dois anos de trabalho; por causa disso, a Web Summit tem um lugar especial no meu coração”, acrescenta Marco Bettencourt.

Entre 2019 e 2022, a empresa dedicou-se exclusivamente ao desenvolvimento do seu primeiro título próprio, KEO. O lançamento em Early Access na Steam, a maior plataforma de videojogos do mundo, em 2021, registou, segundo o CEO, “dois milhões de downloads em menos de três dias”. “Foi este momento que nos colocou, digamos assim, na indústria”, afirma.
Ao segundo título próprio, Hovershock, junta-se uma mudança estrutural no modelo de negócio, o co-desenvolvimento.
O peso crescente do co-desenvolvimento
O sucesso levou estúdios internacionais a contactar a Redcatpig para colaboração técnica. O que começou como exceção tornou-se central. “Eu nunca pensei em abrir esse novo business model que é o Code Development. Nunca pensei nisto. Para mim, a Redcatpig é apenas produzir os seus jogos”, admite Marco Bettencourt. “Posso dizer que, nesse momento, o nosso core business model é o Code Development.”
A empresa opera com contratos de Independent Contractor Agreement com entidades como a Netflix, a Sumo Digital e outros estúdios internacionais. O trabalho pode envolver desenvolvimento integral de um jogo com base num Game Design Document fornecido pelo parceiro, ou o reforço de equipas existentes com especialistas em áreas como performance, programação ou animação.

Um dos projetos que pode ser publicamente referido (muitas vezes, nestes casos, existem cláusulas de confidencialidade pois os estúdios maiores não querem que haja qualquer tipo de referência pública àquilo que eles não fazem diretamente) é o porting de Planet of Lana para Android e iOS. A adaptação do jogo, originalmente disponível apenas em consola Nintendo Switch, foi conduzida pela equipa da Redcatpig. “Nós fomos os responsáveis por esse porting, ou seja, pela adaptação do jogo, que é de consola, para essas plataformas mobile”, com a sua adaptação aos ecrãs táteis, explica o CEO, acrescentando que o título entrou no top 5 de vários rankings nas lojas digitais após a adaptação e com feedback positivo em relação às novas mecânicas do jogo “que foram desenhadas pela nossa equipa, em conjunto com o estúdio proprietário”.
Além do setor do entretenimento, a empresa desenvolve também soluções de gamificação para seguradoras, bancos e empresas de tecnologias de informação, explorando competências internas em arte, programação e gestão de projeto.
Açores como base estratégica
Num setor altamente concentrado em grandes centros urbanos, a localização nos Açores é assumida pela empresa, curiosamente, como vantagem competitiva. A Redcatpig começou na incubadora Startup Angra, passou pelo parque tecnológico Terinov e instalou-se recentemente numa sede própria na ilha Terceira.
Questionado sobre as dificuldades de operar a partir de uma região insular, Marco Bettencourt responde: “Vocês têm que me perguntar isso de outra forma. Quais são os benefícios de eu trabalhar nos Açores? Que dificuldades? Não encontro muitas.” E acrescenta: “O único pequeno senão de nós estarmos nos Açores é termos que adicionar, em algumas viagens, mais duas horas de avião.”

Marco Bettencourt mostra ainda o lado positivo de estar numa ilha dos Açores: “Eu gasto muito menos tempo no trânsito, por exemplo, sobrando muito mais tempo para mim”.
Para o CEO, a infraestrutura tecnológica criada na ilha, o apoio regional e a qualidade de vida funcionam como fatores de atração. A empresa indica ainda que tem registado interesse de colaboradores do continente e do estrangeiro em relocalizar-se para os Açores.
“Não é por estarmos em Portugal, muito menos por estarmos nos Açores, que ficamos aquém de qualquer tipo de produção dentro da indústria de videojogos. E a prova está aí, ou seja, sempre com muita resiliência, mas também com muito cuidado em relação às pessoas. Eu, hoje em dia, tenho um orgulho tremendo em dizer que nós temos grande parte da nata da produção nacional, que trabalharam ombro a ombro connosco”, refere Marco Bettencourt.
Reverter o brain drain
A retenção e atração de talento é um dos eixos centrais da estratégia da Redcatpig: “Eu acredito piamente que nós estamos aqui a ter um papel interessante no que toca a reverter um certo brain drain português”, afirma Marco Bettencourt. “Os portugueses queriam trabalhar em Portugal e queriam trabalhar para Portugal. Não havia as condições criadas.”
A empresa destaca ainda o reconhecimento como Great Place to Work e a aposta na progressão interna, com casos de colaboradores que entraram como juniores e evoluíram para posições intermédias e de liderança.
Em 2022, a Portugal Ventures entrou no capital da empresa, numa fase em que a Redcatpig começou a faturar. O primeiro ano com lucro foi 2023 e, em 2025, a empresa fatura três vezes mais do que em 2023, mantendo-se rentável, segundo o CEO.

Setor em forte crescimento
Numa era digital, o apelo pelos videojogos é grande, mesmo em Portugal, onde o consumo deste tipo de jogos foi estimado em cerca de 258 milhões de dólares em 2024, com uma taxa de crescimento anual composta superior a 11% até 2027. Entre 2018 e 2022, o volume de negócios do setor cresceu cerca de 65% ao ano, o número de empresas passou de 36 para 114 e o total de trabalhadores ultrapassou os 500. O Valor Acrescentado Bruto duplicou, de 12 para 23 milhões de euros.
A Redcatpig realça que se trata de uma indústria digital escalável, com forte vocação exportadora e efeitos indiretos em áreas como inteligência artificial, realidade aumentada e virtual, som e imagem digital e cloud.
“Não é por estarmos em Portugal, muito menos por estarmos nos Açores, que ficamos aquém de qualquer tipo de produção dentro da indústria de videojogos”.
Instrumentos como as Agendas Mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência têm promovido a articulação entre empresas e investigação, com impacto na criação de emprego qualificado e na desconcentração territorial, incluindo nas Regiões Autónomas. Neste quadro, a RedCatPig mantém parcerias de investigação aplicada e formação avançada com instituições como a Carnegie Mellon University, a IT University of Copenhagen e a Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, além de presença regular em eventos internacionais como a Gamescom e o Tokyo Game Show, onde promove os seus títulos e estabelece contactos com publishers.
Próxima fase
Para 2026, estão previstas atualizações relevantes para os jogos KEO e Hovershock, incluindo a intenção de avançar para o full release de KEO e disponibilizar Hovershock em Early Access: “É importante dizer que a Redcatpig não é apenas um prestador de serviços. De maneira nenhuma. A Redcatpig continua a trabalhar nos seus jogos”, afirma Marco Bettencourt.

Todavia, entre as novidades para 2026 também se contam novos projetos de porting associados a grandes marcas e relacionados com eventos que terão lugar este ano: “No que toca a projetos com os nossos parceiros, temos alguns anúncios grandes a fazer provavelmente durante o primeiro trimestre de 2026, que envolvem grandes projetos com um dos nossos parceiros. Mas sobre isso ainda não podemos adiantar nada, neste momento”, diz.
A partir de Angra do Heroísmo, a empresa quer consolidar uma posição num setor global em transformação, afirmando-se como estúdio português com capacidade para desenvolver, adaptar e exportar videojogos para algumas das maiores plataformas do mundo.





