Costa Boal: Crescer em qualidade

Se olharmos para o mapa através das regiões vitivinícolas, Trás-os-Montes surge como uma região a uma altitude elevada, condicionada por um clima mais extremo – invernos muito frios e verões muito quentes – e com solos graníticos. O Douro, região reconhecida pela UNESCO como património da humanidade, tem um clima mais seco e surge como…
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Quando a economia apresenta desafios, a empresa investe. Quando o setor se vira para o foco nas vendas, a empresa escolhe a qualidade em vez da quantidade. Esta é a história da Costa Boal, a empresa que mistura regiões, produtos e escolhe crescer em contraciclo.
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Se olharmos para o mapa através das regiões vitivinícolas, Trás-os-Montes surge como uma região a uma altitude elevada, condicionada por um clima mais extremo – invernos muito frios e verões muito quentes – e com solos graníticos. O Douro, região reconhecida pela UNESCO como património da humanidade, tem um clima mais seco e surge como a região que desafia a gravidade com diversas vinhas instaladas ao longo das suas encostas. A região do Alentejo, por fim, é mais dada a planícies, a um solo diverso e um clima quente e seco.

Entre todas as suas diferenças, estas três regiões têm uma coisa em comum: a Costa Boal.

Falamos de um percurso em tudo diferente daquilo que poderia ser o esperado: António Boal, fundador e líder da Costa Boal Family Estates, nasceu numa altura em que a expetativa das famílias para os seus filhos era algo mais seguro e desenhado desde cedo, como tirar um curso e desempenhar um cargo num serviço público. “Eu fui precisamente o oposto”, conta António à Forbes Portugal. Estudou, sim, mas depois decidiu arregaçar as mangas e apostar no seu projeto. Os pais já tinham propriedades agrícolas, apesar de não serem fabricantes de qualquer produto, venderem apenas as uvas para terceiros.

“Isto acontece entre 2004 e 2005, quando deixei de vender uvas para terceiros e decidi fazer o nosso próprio vinho para o mercado regional. Entre 2009 e 2010, começa a haver reconhecimento, em 2011 passo isto para o mercado nacional e começo a ter alguma notoriedade, e a partir daí fiz o projeto crescer para outras regiões”, conta.

O projeto tem origem na região do Douro, mas não fica por aí: “Trás-os-Montes foi por mero acaso, o Alentejo foi em plena pandemia”, diz.

Ou seja, a expansão para múltiplas regiões surgiu de forma orgânica. António descreve Trás-os-Montes como um acaso, mas a verdade é que já tinha uma ligação com a região, onde estudou e casou, e por isso fez-lhe sentido continuar presente de alguma forma. Foi nessa altura que uma vinha inicialmente adquirida para ser convertida em olival revelou ter um grande potencial vínico.

“Comecei por comprar cinco hectares de vinha, em 2011, a ideia era arrancar a vinha para colocar olival, mas nesse ano não o consegui fazer e decidi fazer vinha a partir daquela parcela. Conclusão, foi um vinho reconhecido logo por críticos e enólogos, pela grande qualidade e também por ser de vinhas velhas. Na altura, ainda pouca gente conhecia o mito do que é produzir um vinho a partir de vinhas velhas, porque andavam a ser produzidos muitos vinhos, e à data de hoje ainda estão, em que chamam vinhas velhas com 15 ou 20 anos. Isso para mim não é um vinho a partir de vinhas velhas, para mim um vinho de vinhas velhas tem que ter baixa produção, uma qualidade alta e ter no mínimo entre 60 a 100 anos uma vinha. Na altura, o vinho ficou com excelente qualidade e fui aglomerando, aglomerando e hoje esta propriedade tem 22 hectares de vinha velha”, conta António.

O Alentejo, por sua vez, foi incorporado durante a pandemia causada pela covid-19, após a aquisição de uma propriedade em Estremoz. A decisão refletiu uma visão estratégica: aproveitar a estrutura comercial já existente para diversificar o portfólio. “Eram cerca de 10 hectares de vinha, com a adega, numa parte mais fresca do Alentejo. Fazia todo o sentido, porque nós temos a máquina montada comercialmente, e há mais um vinho para acrescentar ao nosso portfólio, tanto a nível nacional como internacional”, afirma.

Cada região contribui com características próprias para os vinhos da marca. No Douro, a diversidade de sub-regiões permite criar equilíbrios naturais entre álcool e acidez. Apesar de ser mais dispendioso, a Costa Boal conta com três quintas principais em Alijó, Murça e no Douro Superior”. Em Trás-os-Montes, destacam-se as vinhas velhas e a baixa produtividade, que conferem elevada qualidade. Já no Alentejo, especialmente nas zonas mais altas e frescas, surgem vinhos mais elegantes e gastronómicos.

Espaço para inovar

Atualmente, cerca de 25% da produção da Costa Boal é destinada à exportação, com destaque para mercados como Brasil, Angola e, mais recentemente, Canadá. O Reino Unido surge como próximo objetivo, apoiado pela participação numa associação internacional de produtores de vinhas velhas.

Entre os mais vendidos estão vinhos como o Palácio dos Távoras, Costa Boal Homenagem – criado em homenagem ao pai de António – e Costa Boal Very Very Old.

Ainda que seja um vinho muito ligado à tradição, a inovação também faz parte da estratégia. Em parceria com a universidade, a empresa está a desenvolver projetos de reaproveitamento de subprodutos da vinha e da uva, com aplicações que vão desde a cosmética à alimentação, incluindo chocolates. “Para nós a qualidade começa, acima de tudo, na vinha. Ou seja, fazemos por não estragar o que melhor a natureza nos dá. É aí que estudamos, já há algum tempo. Estamos a desenvolver alguma inovação em conjunto com a Universidade: a partir das varas de subprodutos da vinha e também subaproveitamentos de restos de uva”, explica.

Além do vinho e da inovação, a Costa Boal investe também na produção de azeite, proveniente de oliveiras centenárias. Outro dos eixos de crescimento é o enoturismo. Está em construção uma unidade em Favaios, que incluirá dez quartos e uma sala de provas, permitindo aos visitantes experienciar diretamente o trabalho nas vinhas ao longo do ano.

No total, falamos de um negócio com uma faturação na ordem dos dois milhões de euros, que tem conseguido contornar os desafios económicos que o cenário atual no mundo tem imposto às empresas, desafios relacionados com a instabilidade económica, aumento de custos e mudanças dos hábitos de consumo.  “O que temos feito é não aumentar a quantidade, mas sim a qualidade. E acho que na altura certa conseguimo-nos impor como uma marca forte no mercado junto dos distribuidores, que nos garantisse, mesmo a nível de rentabilidade da empresa, não vender mais, mas ganhar mais. E eu acho que esse é o caminho, porque nós também não temos estrutura para competir com outros players que já estão cá há muito tempo e que têm a máquina montada, digamos, para fazer um vinho padrão”, diz António.

Desafios num setor em transformação

Para António a estratégia é simples: o caminho não pode ser o de vender mais, mas sim o de vender melhor. “Para fazer vinho e estar no mercado de uma forma coerente acho que tem que haver paixão e gosto por aquilo que se faz. E também honrar o nome de família, fazer crescer um património que nos foi deixado. Posso dizer que num processo de partilhas eu fiquei com sete hectares em 2004, hoje a Costa Boal tem cerca de 75 hectares espalhados pelo país”, afirma António.

E fê-lo mesmo quando significou que a empresa teria de adotar uma postura contra cíclica, investindo até em períodos de incerteza, como aconteceu durante a pandemia.

“Na pandemia nós investimos no Alentejo, agora está a haver estas guerras e nós estamos a investir no enoturismo e num centro logístico em Vila Real. Lá está, se as empresas não tiverem o mínimo de rentabilidade acho que isto não é possível. Se estivéssemos a discutir quantidade e não qualidade, se calhar não estaríamos aqui a falar hoje com a Costa Boal, mas sim com outras empresas. Há caminho para todos e há espaço para todos, mas nunca foi a filosofia da Costa Boal entrar para o caminho da quantidade”, defende.

Ao mesmo tempo, a marca procura ter cuidado a nível de preços, defendendo a importância de ter respeito pela própria história. Não é fácil baixar cada vez mais os preços, mantendo todas as características clássicas de cada tipo de vinho. Alguma coisa acaba por ceder.

Num mercado competitivo e em constante mudança, a Costa Boal demonstra que é possível crescer de forma sustentada, preservando identidade e valorizando o território.

(Artigo publicado na edição abril/maio 2026 da Forbes Portugal)

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