Conheça 7 maravilhas históricas em Istambul, na Turquia, para a sua próxima viagem

Embora cerca de 97% da Turquia se situe no continente asiático, Istambul estende-se por dois continentes: uma parte da cidade fica na Europa e a outra na Ásia, separadas apenas pelo Estreito de Bósforo, que se atravessa facilmente de ferry ou de carro. Com mais de três milénios de história, Istambul já se chamou Bizâncio,…
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De um hipódromo romano com três milénios de história ao palácio que governou um império durante quatro séculos, Istambul é uma cidade repleta de história e histórias. A Forbes Portugal esteve em Istambul e estas são apenas sete de várias maravilhas que não deve perder.
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Embora cerca de 97% da Turquia se situe no continente asiático, Istambul estende-se por dois continentes: uma parte da cidade fica na Europa e a outra na Ásia, separadas apenas pelo Estreito de Bósforo, que se atravessa facilmente de ferry ou de carro.

Com mais de três milénios de história, Istambul já se chamou Bizâncio, quando era uma colónia grega (por volta de 657 a.C.,) e, mais tarde, Constantinopla, quando ficou a capital do Império Romano do Oriente (depois Império Bizantino), fundada em 330 d.C.. Em 1453, foi conquistada pelos turcos do Império Otomano e foi apenas em 1930 que foi oficialmente renomeada para Istambul.

A Forbes Portugal esteve na antiga capital de impérios que moldaram o destino da Europa, do Médio Oriente e do Mediterrâneo. Aqui estão sete maravilhas da cidade, várias das quais constam na lista do Património Mundial da UNESCO desde 1985, um reconhecimento justo para o conjunto de monumentos que testemunharam a ascensão e queda de civilizações.

 

  1. O Hipódromo de Constantinopla (Século III d. C.)

No coração da antiga cidade, onde hoje fica a Praça Sultanahmet, encontrava-se uma das mais imponentes estruturas do mundo romano: o Hipódromo de Constantinopla. A construção do que foi em tempos o maior estádio do mundo, começou há mais de 1700 anos, com o imperador Septímio Severo, e foi grandiosamente ampliado por Constantino I a partir de 324 d.C., quando o próprio escolheu a cidade como a nova capital do Império Romano.

As bancadas do Hipódromo chegaram a acomodar cerca de cem mil espectadores, tornando-o no maior espaço público da cidade.

O Obelisco Muralhado, reconstruído no século X, e a Coluna Serpentina, com mais de 2 500 anos de existência, é um dos objectos materiais mais antigos do mundo ainda in situ. Imagem: Get your Guide.

O Hipódromo não era apenas um recinto desportivo: era o centro da vida política e social de Constantinopla. As corridas de bigas (as famosas carruagens puxadas por dois cavalos) eram presididas pelo imperador que assistia aos jogos desde a tribuna imperial, o Kathisma, diretamente ligada ao Grande Palácio por uma passagem privada. Espelho do poder imperial, o Hipódromo foi palco de uma das maiores revoltas da história da cidade, a célebre Revolta de Nika, em 532 d.C., na qual morreram dezenas de milhares de pessoas e parte da cidade foi incendiada.

Obelisco Murado, reconstruído no século X. Imagem: Get your Guide.

Para adornar o espaço, Constantino e os seus sucessores trouxeram obras de arte de todo o império. Três monumentos sobrevivem ainda hoje no local: o Obelisco de Teodósio, esculpido em granito rosa por ordem do faraó egípcio Tutmés III por volta de 1490 a.C. (ou seja, há mais de 3500 anos) e transportado para Constantinopla em 390 d.C.; a Coluna Serpentina, fundida em bronze a partir dos espólios das Guerras Persas, depois da vitória grega na Batalha de Plateias, em 479 a.C., e trazida para a cidade por Constantino I cerca de 324 d.C.; e o Obelisco Murado, reconstruído no século X. A Coluna Serpentina, com mais de 2 500 anos de existência, é um dos objectos materiais mais antigos do mundo ainda in situ.

 

  1. Cisterna da Basílica (532 d.C.)

Por baixo das ruas movimentadas da Praça de Sultanahmet esconde-se um dos mais extraordinários feitos de engenharia do mundo antigo: a Cisterna da Basílica, conhecida em turco como o Palácio Submerso. Construída por ordem do imperador Justiniano I em 532 d.C., imediatamente após a devastadora Revolta de Nika, a cisterna destinava-se a garantir o abastecimento de água ao Grande Palácio de Constantinopla e aos edifícios da colina adjacente, mesmo em períodos de seca ou cerco militar.

Imagem: Cisterna Basilica Istanbul

A estrutura, com cerca de 138 metros de comprimento e 65 metros de largura (mais ou menos de dois campos de futebol), tem capacidade para aproximadamente 80 000 metros cúbicos de água. É sustentada por 336 colunas de mármore, cada uma com nove metros de altura, dispostas em doze filas de vinte e oito colunas. Muitas destas colunas foram reutilizadas a partir de templos e edifícios romanos anteriores, o que era prática comum na Antiguidade denominada spolia. Várias fontes históricas apontam para que cerca de 7 000 escravos tenham participado na sua construção. A água chegava à cisterna através do Aqueduto de Valêncio, a partir de florestas situadas a norte da cidade.

Imagem: Cisterna Basilica Istanbul

Após a conquista otomana de 1453, a cisterna continuou a abastecer o Palácio de Topkapı. Contudo, caiu progressivamente no esquecimento, até ser redescoberta pelo académico francês Petrus Gyllius, em 1545, que escreveu sobre ter navegado de barco entre as colunas praticamente submersas, enquanto os habitantes locais o ajudavam, com baldes, a retirar o excesso de água no local.

A Cisterna da Basílica apareceu no filme de James Bond “007: From Russia With Love” (1963) e no romance “Inferno” (2013) de Dan Brown.

Existem duas colunas particularmente conhecidas, situadas no fundo da cisterna, cujas bases são cabeças da Górgona Medusa, da mitologia grega. Curiosamente, e motivo para grande debate entre historiadores, as mesmas estão de cabeça para baixo ou viradas de lado. Há quem diga que o poder do olhar de Medusa é anulado nestas posições. As esculturas só foram redescobertas em 1987, depois de terem sido removidas 50.000 toneladas de lama da cisterna.

A cabeça de Medusa. Imagem: Cisterna Basilica Istanbul

 

  1. Hagia Sophia (537 d.C.)

Poucos edifícios na história da humanidade condensam em si tantos séculos de poder, fé e arquitectura como a Hagia Sophia. A estrutura,  também na Praça de Sultanahmet, foi erguida pelo imperador Justiniano I entre 532 e 537 d.C., sobre as ruínas de duas igrejas anteriores que haviam ardido. Os arquitectos escolhidos foram Antémio de Tralles e Isidoro de Mileto, dois matemáticos e geómetras gregos cujo domínio das forças estruturais resultou numa das maiores proezas técnicas da Antiguidade tardia.

Hagia Sophia. Imagem: Forbes US.

O que torna a Hagia Sophia tão extraordinária não é apenas o seu tamanho, mas a sua cúpula central com 55,6 metros de altura e 31,8 metros de diâmetro, que parece flutuar no ar. O segredo está nas 40 janelas em torno da sua base, que deixam entrar luz de tal forma que a cúpula parece desconectada das paredes.

Imagem: Hagia Sophia Istanbul

Durante mais de cinco séculos, a Hagia Sophia foi a maior catedral da cristandade. Como sede do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, foi o centro espiritual e político do mundo cristão ortodoxo durante quase um milénio. A sua influência sobre a arquitectura religiosa posterior, tanto cristã como islâmica, é incalculável: tornou-se o modelo de referência para igrejas ortodoxas e, mais tarde, para mesquitas otomanas.

Em 1204, durante a Quarta Cruzada, a catedral foi convertida em sé católica romana pelos cruzados que saquearam Constantinopla. Em 1261, regressou ao rito ortodoxo. Com a conquista otomana da cidade, em 1453, o sultão Mehmed II (que entrou pessoalmente no edifício após a vitória) converteu-a em mesquita, mandando acrescentar minaretes e cobrindo progressivamente os mosaicos cristãos. Em 1935, Atatürk transformou-a em museu.

Numa das galerias do segundo piso existe gravada numa pedra de mármore a inscrição “Halfdan esteve aqui”, deixada por um viking que visitou (ou trabalhou) no edifício algures no século IX.

Em 2020, o governo turco reconverteu-a em mesquita ativa, decisão que gerou forte polémica internacional. A Hagia Sophia é, hoje, o símbolo mais reconhecível de Istambul e um dos maiores monumentos da história da arquitetura mundial.

Imagem: Umit Turhan Coskun/NurPhoto.

 

  1. Muralhas de Teodósio (413-447 d.C.)

Durante mais de mil anos, a sobrevivência de Constantinopla dependeu de uma estrutura monumental que circundava a cidade por terra: as Muralhas de Teodósio. Erguidas em 413 d.C. sob o imperador Teodósio II e reforçadas após um terramoto em 447 d.C., estas muralhas terrestres estendiam-se por cerca de 6 650 metros, desde o Mar de Mármara até à extremidade sul do Corno de Ouro. Constituíam um sistema defensivo triplo: um fosso exterior, uma muralha exterior mais baixa e uma muralha interior principal, com torres que chegavam a quinze metros de altura.

Imagem: Visit Istanbul

A sua eficácia foi extraordinária. Resistiram a numerosos cercos: dos hunos de Átila, os dois grandes cercos árabes em 674–678 d.C. e em 717–718 d.C., dos búlgaros, dos russos, tornando-se uma referência para a arquitetura militar medieval em toda a Europa e no Mediterrâneo. A UNESCO reconheceu-as como um dos mais importantes exemplos de arquitetura militar da história. Apenas a Quarta Cruzada, em 1204, conseguiu entrar na cidade, mas pelo porto marítimo, não pelas muralhas terrestres.

O único assalto bem-sucedido às muralhas de Teodósio ocorreu em 29 de maio de 1453, quando Mehmed II, o Conquistador, dirigiu o ataque final que pôs fim a mais de mil anos de Império Bizantino. Grandes troços das muralhas ainda são visíveis hoje e continuam a ser objecto de estudos arqueológicos e de obras de conservação.

Constantinopla era a capital do Império Romano do Oriente (depois Império Bizantino), fundada em 330 d.C., quando foi conquistada pelos turcos do Império Otomano em 1453. 

Imagem: Visit Istanbul

 

  1. O Palácio de Topkapı (1478 d.C.)

Erguido sobre a antiga Acrópole Bizantina, com vistas privilegiadas sobre o Estreito de Bósforo e o Corno de Ouro, o Palácio de Topkapı foi durante quase quatro séculos o coração do Império Otomano. A sua construção foi ordenada por Mehmed II, o Conquistador, em 1459, seis anos depois da conquista de Constantinopla, ficando concluído em 1478. O nome “Topkapı”, que significa “Portão do Canhão”, em turco, só foi adoptado no século XIX, em referência a uma porta junto ao mar entretanto demolida.

Imagem: Topkapi Palace.

O complexo palaciano, que chegou a albergar mais de quatro mil pessoas, incluindo sultões, concubinas, eunucos, funcionários e artesãos, organiza-se em quatro pátios sucessivos, cada um com acesso mais restrito. O Divan Imperial, situado no segundo pátio, era o local onde se reunia o Conselho de Estado otomano; o sultão podia espreitar as deliberações através de uma grelha dourada na parede, sem ser visto. O terceiro pátio abrigava a Câmara do Tesouro Imperial, onde ainda hoje se pode ver a Adaga de Topkapı e o Diamante do Colhereiro, com 86 quilates. O quarto Pátio era a área mais privada, reservada ao sultão e à sua família.

O Diamante do Colhereiro é uma das jóias mais famosas do mundo e está exposto no Tesouro Imperial do Palácio de Topkapı.

Imagem: Topkapi Palace.

O Harém, cuja palavra tem origem árabe e significa simplesmente “espaço proibido” ou “sagrado”, era a ala privada do sultão, da sua mãe (a Valide Sultan, a mulher mais poderosa do império) e das suas concubinas. Com mais de 400 divisões, tornou-se politicamente determinante a partir de 1541, quando Hürrem Sultan, esposa de Solimão, o Magnífico, se mudou para o palácio.

A sala das Relíquias Sagradas guarda ainda hoje objetos atribuídos ao Profeta Maomé.

O Harém do Palácio. Imagem: Topkapi Palace.

Transformado em museu em 1924, logo após a proclamação da República Turca, o Palácio de Topkapi é hoje um dos museus mais visitados do mundo e integra o Património Mundial da UNESCO desde 1985.

Imagem: Topkapi Palace.

 

  1. A Mesquita de Süleymaniye (1557 d.C.)

No Terceiro Outeiro de Istambul, sobranceiro ao Corno de Ouro, ergue-se aquele que é considerado o maior e mais grandioso conjunto arquitetónico otomano da cidade: a Mesquita de Süleymaniye, encomendada pelo sultão Solimão I, o Magnífico, ao arquiteto imperial Mimar Sinan, e concluída em 1557.

Imagem: Wikipedia.

Mimar Sinan é uma das figuras maiores da arquitetura mundial. Ao longo de uma carreira que se estendeu por mais de cinco décadas como arquiteto-chefe do império, concebeu mais de trezentas estruturas (mesquitas, pontes, aquedutos, caravanserais) em todo o território otomano.

A Süleymaniye representa o que os académicos designam como o seu período de “companheiro mestre” (kalfa), sendo a Mesquita Selimiye de Edirne, concluída em 1575, o cume absoluto da sua carreira. Sinan estudou intensamente a Hagia Sophia e inspirou-se na sua solução estrutural, mas procurou superá-la em graça e harmonia espacial.

Imagem: UNESCO.

Solimão I, o Magnífico, é considerado o sultão mais poderoso da história otomana. Governou um império que se estendia de Marrocos ao Irão, do Iémen à Hungria.

A cúpula central atinge 53 metros de altura e tem 26,5 metros de diâmetro. Os quatro minaretes têm alturas diferentes: os dois interiores, mais altos, com três varandas cada um, simbolizam que Solimão era o décimo sultão desde o início do império e o quarto após a conquista de Constantinopla.

O complexo (külliye) vai muito além da mesquita: inclui quatro medersas (escolas islâmicas), um hospital, uma cozinha pública para os pobres, uma caravanserai, uma biblioteca, um hamam e um mercado. Os mausoléus do sultão Solimão e da sua mulher Hürrem Sultan, e ainda o modesto túmulo do próprio Mimar Sinan, encontram-se dentro do recinto.

Imagem: UNESCO.

A Süleymaniye integra o Património Mundial da UNESCO e permanece uma das mais visitadas e admiradas obras da arquitetura islâmica.

 

  1. A Mesquita Azul Sultan Ahmed Camii (1616 d.C.)

Defronte à Hagia Sophia, numa das mais célebres justaposições arquitetónicas do mundo, ergue-se a Mesquita Sultan Ahmed, universalmente conhecida como Mesquita Azul devido aos seus 20 mil azulejos em tons de azul cobalto que revestem o interior. Construída entre 1609 e 1616 por ordem do sultão Ahmed I, que tinha apenas treze anos quando subiu ao trono, a mesquita representa o canto do cisne da grande arquitetura otomana clássica.

Mesquita Sultan Ahmed. Imagem: The Marmara Hotels.

A sua singularidade mais controversa é o número de minaretes: seis, o mesmo que a Grande Mesquita de Meca, o que gerou acesas críticas contemporâneas, dado que o sultão mandou construir a mesquita num momento de dificuldades financeiras do império. A explicação histórica mais aceite é que Ahmed I terá pedido um minaret dourado (altın, em turco) e o arquiteto Sedefkâr Mehmed Ağa ter-lhe-á percebido altı, que significa seis, em turco. O incidente levou o sultão a financiar a construção de um sétimo minarete na Grande Mesquita de Meca, para que esta continuasse a ser única. O arquiteto foi discípulo de Mimar Sinan e procurou sintetizar os princípios do mestre com a tradição da Hagia Sophia.

Imagem: Edwin Remsberg/Getty Images

A Mesquita Azul é a única mesquita otomana de Istambul com seis minaretes e continua ativa como local de culto. Ao contrário de muitos monumentos históricos da cidade, a entrada é gratuita para visitantes, embora seja necessário respeitar os horários de oração e as normas de vestuário.

Juntamente com a Hagia Sophia e as restantes estruturas de Sultanahmet, integra o Património Mundial da UNESCO desde 1985.

Imagem: Ayhan Altun/Getty Images

Visitar Istambul é percorrer, em poucos dias, quase três mil anos de civilização. O Hipódromo e a Coluna Serpentina recordam a Grécia clássica; a Cisterna da Basílica e a Hagia Sophia evocam o esplendor de Justiniano; as Muralhas de Teodósio narram séculos de resistência; Topkapi, a Süleymaniye e a Mesquita Azul transportam-nos para o apogeu otomano.

Em cada monumento, camadas de história sobrepõem-se e dialogam entre si – uma herança viva de uma cidade que nunca parou de se reinventar. As sete maravilhas desta lista são apenas o ponto de partida.

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