Opinião

Compra de casa: a espera (também) pode sair cara

João Pereira

Nos últimos dois anos, muitas decisões financeiras ficaram em suspenso. A maioria das famílias optou por esperar que a inflação recuasse, que o Banco Central Europeu travasse as subidas das taxas de juro e que, finalmente, essas taxas começassem a descer.

Chegados a 2026, com a Euribor estabilizada em torno dos 2%, essa postura mantém-se.

Há quem acredite que, para comprar casa, “o melhor ainda está para vir”. Mas os dados mostram outra realidade: continuar à espera pode ser financeiramente mais penalizador do que avançar agora.

A memória coletiva está a iludir-nos, porque durante anos vivemos num contexto excecional de juros negativos. Esse período, contudo, foi uma anomalia histórica, não a norma. Uma Euribor em torno dos 2% representa um regresso à normalidade económica e não um cenário adverso.

Efetivamente, a expectativa de que as taxas regressem a zero ignora um fator decisivo: o preço das casas. Se o mercado imobiliário continuar a valorizar 5% ou 6% ao ano (um cenário plausível num contexto de oferta limitada), uma eventual descida adicional de meio ponto percentual na taxa de juro dificilmente compensará o aumento do preço do imóvel.

Por outras palavras, o que se pode poupar na prestação pode perder-se no preço de compra.

Além disso, com as taxas estabilizadas, os bancos adequam as ofertas em vigor: os spreads, por exemplo, reduziram-se e as soluções de taxa mista ganharam espaço, permitindo combinar previsibilidade inicial com flexibilidade futura.
É certo que o cenário atual não é de urgência, mas também não deve ser de paralisia. Comprar casa não é um exercício de previsão sobre o próximo anúncio do BCE. Deve antes ser uma decisão baseada em três critérios: estabilidade profissional, taxa de esforço sustentável e capacidade de enfrentar variações moderadas nas taxas.

Se, com a Euribor nos níveis atuais, a prestação é comportável e deixa margem no orçamento familiar, adiar indefinidamente pode significar continuar a pagar uma renda enquanto o valor dos imóveis sobe.

Esperar por condições “perfeitas” raramente é uma estratégia eficaz. O essencial é fazer uma análise racional da capacidade financeira disponível. Acima de tudo, é garantir que a decisão de comprar uma casa é sustentável no presente e resiliente no futuro.

João Pereira,
CEO da Gestlifes

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