Como Toto Wolff transformou o império da Mercedes-AMG na F1

Toto Wolff tem uma confissão que deixaria a maioria dos executivos desconfortáveis. Estamos a 30 mil pés de altitude no seu jato particular, a voar do Grande Prémio de Montreal para Nova Iorque, em meados de junho, para a estreia do filme de Fórmula 1 protagonizado por Brad Pitt. Foi um fim de semana de…
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Toto Wolff, diretor da equipa e CEO da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, explica como uma liderança assente no coletivo, na disciplina do risco e no foco absoluto na Fórmula 1 está a preparar a equipa avaliada em 6 mil milhões de dólares para o próximo ciclo tecnológico e competitivo da modalidade.
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Toto Wolff tem uma confissão que deixaria a maioria dos executivos desconfortáveis. Estamos a 30 mil pés de altitude no seu jato particular, a voar do Grande Prémio de Montreal para Nova Iorque, em meados de junho, para a estreia do filme de Fórmula 1 protagonizado por Brad Pitt. Foi um fim de semana de corrida agitado, com os pilotos principais George Russell e o novato italiano Kimi Antonelli, de 18 anos, a terminarem em primeiro e terceiro lugares, respetivamente. Ainda assim, o homem que construiu a Mercedes-AMG Petronas como diretor da equipa e CEO, tornando-a uma das franquias mais dominantes da Fórmula 1, um recorde de oito títulos consecutivos no Campeonato Mundial de Construtores, bem como 131 vitórias em Grandes Prémios, um feito inigualável em qualquer grande desporto, revela que a palavra “liderança” o faz recuar.

Toto Wolff, diretor e CEO da Mercedes-AMG F1 Team: “Só corro riscos calculados, o que significa que mesmo o pior resultado é algo com que consigo lidar.” Foto: Finn Pomeroy/Mercedes-Benz AG

Com um património líquido de 2,5 mil milhões de dólares (2,13 mil milhões de euros), segundo a Forbes, o austríaco de 53 anos e 1,95 metros de altura teria todos os motivos para confiar no manual clássico do CEO. Em vez disso, rejeita-o por completo. Se há algo que sabe com certeza, é que as corridas são um desporto coletivo.

“Sinto-me envergonhado ao falar sobre liderança”, diz Wolff, olhando pela janela acima das nuvens ao pôr do sol. Passou o fim de semana da corrida atrás da mesa de engenharia dentro da garagem da equipa, com mais de 58 engenheiros e técnicos, no meio do ruído de vinte motores de Fórmula 1 e das pistolas pneumáticas nas trocas de pneus durante as idas à box, todos a trabalhar em prol de um único objetivo: chegar ao pódio e voltar a ser campeã do mundo. A Mercedes-AMG terminou a última temporada em segundo lugar no ranking de construtores, atrás da McLaren.

“Essa noção de um único líder é algo com que realmente tenho dificuldade. Não poderia ser o melhor diretor financeiro, o melhor diretor de marketing, o melhor diretor executivo, tudo ao mesmo tempo”, afirma. “Vejo-me como parte dessa equipa. Se houver uma decisão final a tomar, então tomá-la-ei. Mas confio no coletivo.”

Vindo de alguém que transformou uma equipa de Fórmula 1 em dificuldades, avaliada em cerca de 165 milhões de dólares (140,8 milhões de euros) em 2013, numa potência avaliada em 6 mil milhões de dólares (5,12 mil milhões de euros), é uma afirmação que merece atenção. Mas o desconforto de Wolff com hierarquias tradicionais não é uma postura filosófica. É uma estratégia operacional.

Quando se trata de contratar para a organização de 2.000 pessoas, que inclui a sede em Brackley, com 1.250 funcionários dedicados ao chassis, e a fábrica de motores em Brixworth, ambas em Inglaterra, trinta segundos após conhecer alguém, Wolff já faz a sua avaliação inicial. “Tudo começa com a personalidade e o carácter”, explica. O excesso de confiança é “inadmissível”. Arrogância ou falta de humildade são “um impedimento absoluto”. Só depois de ultrapassados esses filtros de carácter é que a competência técnica entra na equação.

O chefe da Mercedes-AMG, Toto Wolff, na sua cidade natal, Mónaco, em maio de 2025.
Richard Pardon/Mercedes-AMG

Valtteri Bottas, que pilotou para Wolff durante cinco temporadas antes de Russell se juntar à equipa, descreve-o assim: “Um dos seus pontos fortes é ler as pessoas e aprender a lidar com pessoas diferentes, porque todas são diferentes. Algumas podem precisar de mais pressão. Outras podem precisar de menos. E ele tenta perceber o que funciona para cada indivíduo.”

Wolff vê o seu papel como o de criar um ambiente onde as pessoas se sintam simultaneamente protegidas e pressionadas, um paradoxo típico de culturas de alto desempenho. “Vejo isto um pouco como a minha tribo, devo protegê-los”, afirma. “Mas também preciso de dar clareza à missão.”

Essa missão não tolera nada menos do que a excelência. “Tem de ser excelente. Se passar de excelente para bom porque não está suficientemente motivado ou porque não acompanhou o desenvolvimento da tecnologia, então isto é um assento ejetável.”

O cálculo vai além de qualquer indivíduo. “Sou responsável pelas duas mil pessoas que trabalham nesta equipa, pelas suas famílias, pelos seus padrões de vida, pelas suas hipotecas, pelos seus sonhos, pelas suas esperanças.”

Russell vê essa filosofia refletida em toda a organização. “Toto sempre acreditou na juventude e na promoção da próxima geração”, explica. “É preciso uma organização equilibrada. Não se pode promover um júnior para uma função sénior se não existir alguém experiente para ser o seu co-parceiro.”

Toto Wolff (à direita) ao lado da equipa de pilotos composta por George Russell, Valterri Bottas e Kimi Antonelli em Melbourne, Austrália, março de 2025. Foto: Wolfgang Wilhelm/Mercedes

O piloto britânico aponta a decisão de Wolff de promover o jovem Antonelli como prova dessa abordagem calculada. “O Toto teve confiança para promover o Kimi porque tinha confiança em mim. Estou há sete anos na Fórmula 1, ganhei corridas. Por isso, ele tinha uma base sólida.” Mas Russell sublinha a tensão central: “Se tem uma fórmula vencedora, como é que tem a coragem de mudar essa fórmula para antecipar o próximo ciclo?”

A questão vai muito além da escolha dos pilotos. A filosofia de investimento de Wolff é igualmente rígida. “Só corro riscos calculados. E riscos calculados significam que mesmo o pior cenário é algo com que consigo lidar.”

“Eu só corro riscos calculados. E riscos calculados significam que mesmo o pior resultado é algo com que eu posso lidar.” – Toto Wolff, diretor da equipa e CEO da Mercedes-AMG Petronas Formula 1 Team

A razão remonta a um trauma de infância. O pai de Wolff desenvolveu um cancro no cérebro, perdeu o seu negócio e morreu com muitas dívidas. “Quando se é criança, perder o pai dessa forma é traumatizante”, recorda. A mãe, médica, passou anos a pagar essa dívida. “Essa é uma das razões pelas quais não corro riscos que possam afetar negativamente a minha vida ou a vida da minha família.”

Essa disciplina, com risco de perda limitado, moldou a sequência improvável de decisões que acabariam por levá-lo ao centro do poder da Fórmula 1.

Após uma carreira inicial no automobilismo, Wolff fundou, em 1998, uma empresa de investimentos focada em empresas de Internet e tecnologia durante o boom das dotcom. Outros investimentos incluíram a oferta pública inicial da HWA AG, empresa responsável pelo desenvolvimento e competição de veículos Mercedes-Benz no DTM, bem como pelo programa de motores de Fórmula 3 da Mercedes-Benz. Em 2002, Wolff fundou uma empresa de gestão de pilotos com o bicampeão mundial de Fórmula 1 Mika Häkkinen, ao mesmo tempo que regressava às pistas.

O caminho de Wolff para a Mercedes começou como arbitragem financeira. Em 2009, comprou uma participação de 16% na Williams F1 e, três anos depois, tornou-se diretor não executivo da equipa. A Williams venceu a sua última corrida em 2012.

Nesse mesmo ano, a Mercedes, então a lutar com o seu desempenho, pediu a Wolff que diagnosticassse os seus problemas e, dois meses depois, ofereceu-lhe o cargo máximo. Wolff recusou. Considerava-se um empreendedor, não um funcionário. A Mercedes reestruturou então o capital social, recomprando 40% da equipa ao fundo soberano de Abu Dhabi, permitindo que Wolff adquirisse uma participação acionista.

Essa aposta revelou-se extraordinária. Até recentemente, Wolff detinha 33% da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, a base da sua fortuna. Hoje, a Mercedes é uma das equipas desportivas mais lucrativas do mundo, com um lucro operacional de 202 milhões de dólares (172,4 milhões de euros) em 2024. Sob a liderança de Wolff, a equipa iniciou, em 2014, uma sequência sem precedentes de sete Campeonatos de Construtores e sete Campeonatos de Pilotos consecutivos. Nessas sete temporadas, venceu 74% de todas as corridas de Grandes Prémios.

A próxima grande aposta de Wolff é aquela que espera que conduza a Mercedes-AMG a um novo recorde: o oitavo título mundial de pilotos e o nono título mundial de construtores.

Para apoiar essa ambição, Wolff anunciou a venda de uma participação minoritária de 15% da sua entidade proprietária a George Kurtz, CEO e fundador da CrowdStrike, pouco antes do Grande Prémio de Las Vegas, em novembro, trazendo um líder tecnológico do índice S&P 500 para o grupo de acionistas.

“A experiência de George é incomum na sua amplitude: é piloto, embaixador desportivo leal da Mercedes-AMG e um empreendedor excecional”, explica Wolff no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, no início de dezembro, durante a preparação para o último fim de semana da temporada de 2025, com temperaturas amenas a rondar os 29 °C. “Ele compreende tanto as exigências das corridas como as realidades de construir e escalar empresas de tecnologia.”

Dentro da garagem da Mercedes-AMG no Grande Prémio de Las Vegas de 2025 com o diretor da equipa e CEO Toto Wolff e o novo acionista, o CEO da Crowdstrike, George Kurtz. Foto: Mercedes-Benz AG, Sebastian Kawka

Wolff acrescenta que encontrar alguém que entenda simultaneamente de corridas e do mundo tecnológico “é algo único” e que a equipa espera que Kurtz ajude a potenciar a rede da Mercedes nos Estados Unidos.

Kurtz, que transformou a CrowdStrike numa das líderes mundiais em cibersegurança baseada em inteligência artificial, é também um experiente piloto de resistência e parceiro da Mercedes-AMG desde que a CrowdStrike se tornou parceira global da equipa em 2018. Como consultor tecnológico, juntou-se ao comité estratégico ao lado de Ola Källenius, presidente da Mercedes-Benz, de Sir Jim Ratcliffe, fundador da INEOS, e de Wolff.

“Se olharmos para o desporto e para onde ele está hoje, vemos que está a crescer”, afirma Kurtz. “É uma oportunidade enorme, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, com um alcance que desperta interesse em fãs de todas as esferas da vida.”

Para Kurtz, adquirir uma participação na equipa foi o passo lógico após sete anos de parceria. “Conhecemos bem a equipa e é uma feliz coincidência quando existe uma excelente relação aliada a uma excelente oportunidade de negócio.”

Kurtz irá apoiar a estratégia de inovação e tecnologia da equipa, desde o automobilismo competitivo à análise de dados e desempenho, enquanto ajuda a expandir o ecossistema da Mercedes nos setores tecnológicos dos Estados Unidos e a nível global. “Vencer nas corridas e na cibersegurança exige velocidade, precisão e inovação. Os milésimos de segundo contam. A execução conta. Os dados vencem.”

O momento do acordo reflete a profunda transformação comercial da Fórmula 1. Embora alguns investidores questionem a sustentabilidade do crescimento acelerado, as avaliações das equipas subiram para uma média de 3,6 mil milhões de dólares (3,07 mil milhões de euros), um aumento de 89% desde 2023. A Fórmula 1 explodiu globalmente, em particular nos Estados Unidos, impulsionada pela série Drive to Survive, da Netflix, que atraiu milhões de novos fãs. A aquisição da Fórmula 1 pela Liberty Media por 8 mil milhões de dólares (6,83 mil milhões de euros) em 2017 revelou-se visionária. A modalidade atinge agora 1,5 mil milhões de telespectadores, com corridas que geram níveis de envolvimento comparáveis aos do Super Bowl.

Os riscos financeiros continuam a crescer. A entrada da Cadillac como 11.ª equipa em 2026, apoiada pela General Motors, sinaliza o apetite das grandes empresas americanas pela propriedade de equipas. As dez equipas atuais, que operam sob um limite de custos de 135 milhões de dólares por temporada (115,2 milhões de euros), tornaram-se ativos cada vez mais valiosos. Esse limite deverá aumentar para 215 milhões de dólares (183,5 milhões de euros). A avaliação de 6 mil milhões de dólares (5,12 mil milhões de euros) da Mercedes coloca-a entre as franquias mais valiosas da modalidade, ao lado da Ferrari.

Apesar dos números, a atenção de Wolff começa a mudar de direção. Os seus investimentos paralelos incluem uma participação de 1% na Aston Martin e apostas em tecnologia desportiva e mobilidade. No entanto, após mais de uma década no comando, Wolff está a encerrar as experiências de diversificação da Mercedes. As expansões para a America’s Cup de vela e para a consultoria tecnológica estão a ser abandonadas.

“Não queremos mais fazer isso”, afirma. “Somos uma equipa de Fórmula 1. Não queremos velejar. Não queremos praticar outros desportos. O foco total deve ser apenas a Fórmula 1.”

A decisão é deliberada. Após anos de domínio, a Mercedes enfrentou dificuldades desde as alterações regulamentares de 2021, que introduziram novos conceitos aerodinâmicos. Nesse ano, a equipa conquistou o oitavo título consecutivo de construtores, mas perdeu o campeonato de pilotos. “Foi a primeira vez que não acertámos”, admite Wolff. Olhando para 2026, quando a Fórmula 1 introduzirá combustível 100% sustentável e motores híbridos verdadeiros, Wolff vê uma reinicialização. “É isso que a Fórmula 1 representa: inovação, alta tecnologia e ser o laboratório mais rápido do mundo.”

Os regulamentos de 2026 representam mais do que um desafio técnico. São um ponto de inflexão comercial. Com a entrada da Cadillac e a chegada da Audi através de franquias existentes, a grelha torna-se um campo de batalha entre fabricantes que veem a Fórmula 1 como a sua principal vitrine tecnológica. A Mercedes encara a era híbrida como uma justificação estratégica e é por isso que Wolff está a tornar a organização mais coesa, afinando cada detalhe para o ciclo que se aproxima.

A jogada é clara: consolidar competências essenciais, integrar a experiência de Silicon Valley através de parceiros como Kurtz e posicionar a Mercedes para a próxima década de expansão da Fórmula 1. A presença do desporto nos Estados Unidos continua a crescer, com três corridas no calendário, um Grande Prémio de Las Vegas que gerou mais de mil milhões de dólares (853,5 milhões de euros) em impacto económico e, agora, um fabricante americano a entrar na grelha.

Para um homem que transformou uma participação de 33% na equipa numa fortuna de 2,5 mil milhões de dólares (2,13 mil milhões de euros), o próximo ciclo é mais importante do que o anterior. Russell resume: “Sabíamos que, realisticamente, não iríamos lutar pelo campeonato este ano, porque não tínhamos as bases necessárias. Estamos a subir, mas não se pode dar três passos de uma vez.” E conclui, com naturalidade: “O sucesso não acontece da noite para o dia.”

Maneet Ahuja/Forbes Internacional

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