Como é que Amazon e Mastercard se tornaram algumas das grandes empresas mais inovadoras dos EUA

Imagine que decide passar umas férias nas Caraíbas durante o inverno. Explica ao seu assistente de inteligência artificial baseado em agentes tudo o que pretende: atividades, restaurantes, alojamento e voos. O sistema pesquisa as opções e, sem que tenha de clicar sequer em “Comprar”, trata de todas as reservas. Um cenário de sonho para o…
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Num ranking que mede a inovação através de patentes, investigação, confiança dos investidores e outros indicadores, Eli Lilly, Amazon e Mastercard estão entre as grandes empresas que mais se destacam. Mas o que estão, afinal, a fazer de diferente para chegar a este resultado?
Negócios

Imagine que decide passar umas férias nas Caraíbas durante o inverno. Explica ao seu assistente de inteligência artificial baseado em agentes tudo o que pretende: atividades, restaurantes, alojamento e voos. O sistema pesquisa as opções e, sem que tenha de clicar sequer em “Comprar”, trata de todas as reservas.

Um cenário de sonho para o viajante, mas um pesadelo para a equipa responsável pela deteção de fraude da empresa de pagamentos, que terá de determinar se as compras foram realmente autorizadas ou se resultaram da ação de um ladrão de identidade.

“Historicamente, e atualmente para a maior parte do comércio, o sinal da intenção de um consumidor é tocar no cartão, clicar em Comprar num site — [mas] com o comércio baseado em agentes existe uma delegação de autoridade”, explica Craig Vosburg, vice-presidente da Mastercard.

A empresa está a posicionar-se, segundo o responsável, como “o sistema operativo das economias”, através de várias novas soluções financeiras. Entre elas estão uma nova stablecoin destinada a permitir transações internacionais instantâneas entre diferentes regiões e moedas; os chamados “insight tokens”, através dos quais um consumidor autoriza um agente de IA ou um comerciante a conhecer os seus hábitos e preferências; e pagamentos B2B baseados em agentes para máquinas, permitindo grandes volumes de transações empresariais contínuas.

Estas são apenas algumas das inovações que levaram a Mastercard ao 10.º lugar na nova lista da Forbes das Empresas de Grande Dimensão Mais Inovadoras da América.

A própria noção de “inovação” é, naturalmente, subjetiva. Mas, neste novo ranking, a Forbes recorre exclusivamente a dados concretos que captam dezenas de indicadores de inovação líder no setor, independentemente da indústria ou da idade das empresas.

A classificação é determinada pelo novo Innovation Index da Forbes, que mede a inovação com base no volume de patentes e propriedade intelectual, foco em investigação, confiança dos investidores, retorno sobre o capital próprio, sentimento nos meios de comunicação social e redes sociais e avaliação das notícias e declarações das empresas por audiências sintéticas, entre outros fatores.

O índice analisa todas as empresas que integram o Standard & Poor’s 500, sendo que as 100 melhores integram a lista da Forbes.

Liderado pela gigante farmacêutica Eli Lilly, em primeiro lugar, e pela tecnológica Apple, em segundo, o top 10 inclui setores tão distintos como a indústria transformadora, representada pela Boeing, em oitavo, e os serviços financeiros, com a Mastercard.

Apesar das diferenças, todas estas empresas superam os seus pares na capacidade de impulsionar os motores da economia norte-americana, seja através do investimento em investigação e desenvolvimento, da confiança dos investidores e consumidores ou da criação de nova propriedade intelectual.

Eli Lilly lidera graças à inovação farmacêutica

A Eli Lilly ocupa o primeiro lugar em parte pela dimensão e velocidade com que consegue desenvolver novos medicamentos. O novo comprimido para perda de peso baseado na tecnologia GLP-1, que tem surgido frequentemente em campanhas publicitárias, é produzido pela empresa, que também comercializa os populares medicamentos injetáveis Mounjaro e Zepbound.

Entre os avanços da farmacêutica estão ainda tratamentos promissores para as fases iniciais da doença de Alzheimer, cancro da mama e enxaquecas.

O próximo medicamento para perda de peso da empresa, o Retatrutide, atua simultaneamente sobre três recetores — GIP, GLP-1 e glucagon — e, nos ensaios clínicos de fase 3, alcançou uma perda média de peso corporal de 28%, valores que, até agora, estavam sobretudo associados a intervenções cirúrgicas.

Os resultados ajudaram a alimentar o entusiasmo dos investidores, levando as ações da empresa a subir 79% no último ano e impulsionando a sua capitalização bolsista para 1,17 biliões de dólares (1,00 biliões de euros).

Daniel Skovronsky, diretor científico e de produto da Lilly e presidente dos Lilly Research Laboratories, afirma que a empresa tem concentrado esforços em doenças difíceis de tratar, na aceleração dos estudos clínicos e no alargamento do acesso aos seus medicamentos em todo o mundo.

“A inovação não é apenas um slogan”, afirma. “O nosso trabalho diário consiste em transformar ciência em medicamentos.”

Amazon leva Inteligência Artificial para os armazéns

Na Amazon, que ocupa o sexto lugar da lista, os responsáveis atribuem à inovação uma parte importante do domínio da empresa no comércio e nos serviços de dados.

Tye Brady, diretor tecnológico da Amazon Robotics, aponta como exemplo os robôs Proteus, equipados com inteligência artificial, lançados em 2022 e atualizados em junho. Atualmente, são utilizados em cerca de 25 das 300 instalações da Amazon equipadas com sistemas de robótica.

O desafio consistia em automatizar o transporte de estruturas carregadas de encomendas, conhecidas como Go Carts, desde as zonas de triagem até às docas corretas, onde seriam encaminhadas para os camiões certos e no momento adequado. Tudo isto enquanto os robôs circulam de forma autónoma e segura entre trabalhadores humanos.

A Amazon fabrica mais robôs móveis do que qualquer outra empresa, segundo Brady, precisamente para resolver problemas deste tipo. O Proteus, que se assemelha a um Roomba de grandes dimensões, utiliza uma série de sensores ligados a um computador equipado com inteligência artificial.

“Pense numa festa. Toda a gente está sentada a conversar e é difícil atravessar a sala. As pessoas são muito boas a pensar: ‘Tenho de chegar ao outro lado da sala porque há um cocktail delicioso naquele canto’. Imagine ser um robô a tentar fazer isso”, explica Brady.

No caso do Proteus, o principal obstáculo inicial não foi técnico. Durante os testes, trabalhadores curiosos dos armazéns juntavam-se em torno dos robôs, que transportavam gaiolas de 900 libras (408 kg) cheias de encomendas, e acabavam involuntariamente por impedir o seu percurso.

A Amazon tinha equipado os robôs com luzes para indicar aos trabalhadores para onde pretendiam dirigir-se e com olhos para os tornar mais amigáveis. Depois dos testes, fez alguns ajustes.

“Agora olha para si para dizer: ‘Estamos à espera’. E, se ficar realmente impaciente, pode emitir sons semelhantes aos do R2-D2, um chirp chirp chirp chirp — ‘Desculpe, estou a tentar fazer o meu trabalho’”, conta Brady.

Os trabalhadores acabaram por se habituar à presença de dezenas de Proteus a circular simultaneamente nas fábricas onde são utilizados.

“Agora é quase como se fizesse parte da mobília”, diz.

Forbes recorreu também à inteligência artificial para medir inovação

Uma lista sobre empresas inovadoras não estaria completa sem alguma inovação por parte da própria Forbes. Pela primeira vez, a publicação recorreu a uma fonte de dados baseada em inteligência artificial como um dos elementos utilizados na elaboração de um ranking.

A lista das Empresas de Grande Dimensão Mais Inovadoras da Forbes mede a reação de audiências sintéticas constituídas por investidores, analistas, jornalistas e consumidores. Estes perfis são criados com base em pessoas reais e no conteúdo que produziram anteriormente em diferentes contextos.

As audiências avaliaram milhares de anúncios reais de empresas — incluindo o comunicado da Amazon sobre o Proteus —, além de publicações nas redes sociais e em blogues, declarações de dirigentes e apresentações de resultados dos últimos anos.

Os dados foram fornecidos pela Kumkuat AI, uma empresa de audiências sintéticas fundada este ano que realiza esta análise através de arquétipos específicos para cada indústria.

Shann Biglione, cofundador da Kumkuat, diz ter ficado surpreendido com alguns dos resultados. Um dos casos foi o da Boeing, que, apesar dos recentes problemas relacionados com segurança, obteve uma classificação elevada na forma como as audiências sintéticas reagiram às suas inovações.

“Existe uma narrativa muito forte sobre a forma como a empresa fala da sua inovação, sobre o compromisso que existe por detrás dela e sobre a forma como o CEO [Kelly Ortberg] apoia essa inovação”, afirma Biglione. “A Boeing é uma empresa interessante que tem uma oportunidade de recuperação nos próximos anos, caso a sua inovação produza resultados.”

A Boeing obteve também bons resultados na análise da IPQwery, parceira de dados da Forbes especializada em propriedade intelectual e que acompanha a atividade das empresas em matéria de patentes e marcas registadas.

Frédérik Lacharité, presidente e diretor tecnológico da IPQwery, destaca a abrangência das patentes da Boeing.

“Estendem-se a muitos domínios, desde engenharia a sistemas, gestão e software. São todos ramos que resultam da sua tecnologia”, afirma.

Empresas menos conhecidas também entram no radar

Segundo Biglione, outro resultado surpreendente foi a presença de empresas que têm pouca exposição nos meios de comunicação social, mas que obtiveram resultados particularmente fortes junto das audiências sintéticas.

É o caso da Lumentum, empresa de tecnologia de comunicações que ocupa o 76.º lugar da lista. As audiências reagiram de forma particularmente positiva à sua tecnologia baseada em lasers, utilizada, entre outras aplicações, no reconhecimento facial dos iPhones.

Mesmo empresas mais conhecidas, como a Mastercard, surpreenderam os especialistas pela diversidade da sua atividade de inovação.

“Estou surpreendido por terem tantas patentes para uma empresa financeira, porque esperaria que tivessem mais marcas registadas do que patentes”, afirma Lacharité, que destaca a variedade de patentes registadas recentemente pela Mastercard.

“Tokenização. Transações. Prevenção de ameaças à segurança das redes. Cartões de pagamento. Microchips. Biometria…”, enumera.

Para Vosburg, da Mastercard, a inovação não é um direito adquirido.

“A inovação não é um direito de nascimento. É algo que trabalhamos arduamente para cultivar. Temos de abraçar plenamente o desafio e a oportunidade que a inovação representa.”

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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