Os semicondutores, conhecidos também por chips, tornaram-se o principal motor da nova fase de crescimento económico global, à medida que a inteligência artificial (IA) se impõe como tecnologia transversal à indústria, às finanças, à defesa e ao consumo. No centro desta transformação está a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), o maior fabricante mundial de semicondutores, cujos resultados financeiros ilustram a nova hierarquia de valor criada pela corrida à IA.
Em 2025, as receitas da TSMC cresceram 31,6%, atingindo um novo recorde anual de 3,81 biliões de dólares taiwaneses, o equivalente a cerca de 103.226 milhões de euros. Só no quarto trimestre, as vendas somaram 1,04 biliões de dólares taiwaneses, um máximo trimestral histórico, impulsionado pela procura de chips avançados utilizados nos produtos mais recentes da Apple, Nvidia e AMD. No final do primeiro semestre de 2025, a empresa concentrava 70,2% do mercado global de fundição de semicondutores, muito à frente da Samsung, com 7,3%, e da chinesa SMIC, com 6%, segundo dados da consultora TrendForce.
Há uma forte dependência das grandes tecnológicas norte-americanas em relação às cadeias de produção taiwanesas.
Este domínio industrial tem reflexos diretos no comércio internacional. Em 2025, o excedente comercial de Taiwan com os Estados Unidos mais do que duplicou, subindo 132% para 150,1 mil milhões de dólares, impulsionado pelas exportações de chips e dispositivos associados à IA. Analistas explicam o desequilíbrio pela forte dependência das grandes tecnológicas norte-americanas das cadeias de produção taiwanesas, numa altura em que os semicondutores se tornaram um fator crítico para a competitividade económica e tecnológica dos EUA.
O impacto geopolítico desta dependência já é visível. Washington impôs, em agosto último, uma taxa de 20% sobre importações de Taiwan, com exceção dos semicondutores, sublinhando o estatuto especial destes componentes na relação bilateral. As negociações comerciais continuam, com autoridades taiwanesas a admitirem a possibilidade de um alívio das tarifas.
China não quer ficar para trás na corrida
Enquanto Taiwan consolida a sua posição como epicentro industrial, a China acelera numa frente paralela. O Governo chinês definiu 2027 como meta para garantir um fornecimento estável e fiável de tecnologias-chave para IA, com especial foco no desenvolvimento de chips, software e hardware, numa estratégia explícita de autossuficiência tecnológica face às restrições impostas pelos Estados Unidos. O plano prevê a criação de empresas líderes com influência global, modelos gerais de IA aplicados à indústria e centenas de cenários de aplicação, envolvendo vários ministérios e o principal órgão de planeamento económico do país.
Esta aposta estratégica está a refletir-se nos mercados financeiros. Nos últimos meses, várias empresas chinesas ligadas à IA e aos semicondutores estrearam-se em bolsa com valorizações expressivas. A MiniMax, especializada em modelos generativos e rival da OpenAI, subiu mais de 40% no primeiro dia de negociação em Hong Kong, arrecadando cerca de 616 milhões de dólares para investimento em investigação e desenvolvimento. A Zhipu AI, primeira empresa chinesa focada exclusivamente em grandes modelos de linguagem a cotar-se na mesma bolsa, angariou cerca de 559 milhões de dólares, num contexto de forte procura dos investidores.
Também empresas diretamente ligadas ao design e fabrico de chips de IA registaram subidas acentuadas, como a Biren Technology, a Moore Threads ou a MetaX, confirmando que o interesse do mercado não se limita ao software, mas incide cada vez mais sobre a infraestrutura física que sustenta a inteligência artificial.
Apesar das valorizações, muitas destas empresas continuam a operar com prejuízos elevados, refletindo a intensidade de capital e a fase ainda inicial de rentabilização do setor. Ainda assim, o padrão é claro: num mundo moldado pela IA, os semicondutores passaram a ativos estratégicos, com impacto direto nas balanças comerciais, nas decisões políticas e na distribuição do poder económico global.





