Casa do Marquês: “Estamos à procura de oportunidades em Portugal e no estrangeiro para crescer”

A Casa do Marquês nasceu em 1989 pela mão do antigo futebolista do Sporting José Eduardo Sampaio e da mulher Florbela Bem. Desde então, a pequena empresa familiar tem vindo a ganhar músculo e a posicionar-se como referência no segmento da organização de eventos e do catering. Quer sejam eventos para 10 ou para 10…
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A orientação estratégica da Casa do Marquês é clara: crescer. Para cumprir esta meta, o CEO da empresa de eventos e catering, Miguel Seijo y Seijo, admite estar a olhar para oportunidades de negócio via aquisições ou parcerias. No exterior, Espanha está identificada como o mercado de expansão.
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A Casa do Marquês nasceu em 1989 pela mão do antigo futebolista do Sporting José Eduardo Sampaio e da mulher Florbela Bem. Desde então, a pequena empresa familiar tem vindo a ganhar músculo e a posicionar-se como referência no segmento da organização de eventos e do catering. Quer sejam eventos para 10 ou para 10 mil pessoas a empresa tem estado na linha da frente a conquistar clientes portugueses e estrangeiros. Ao longo destes anos de atividade já são mais de 15 mil eventos realizados. Com sede no Prior Velho, a Casa do Marquês assume que tem a maior cozinha industrial do setor em Portugal, com 1.400 metros quadrados e capacidade para produzir mais de três mil refeições diárias.

A área de catering é a que tem maior peso para o volume de negócios, com o mercado corporate a representar 60% da faturação. Em 2024 a Casa do Marquês atingiu uma faturação de 16 milhões de euros. A empresa ainda não fechou os dados financeiros de 2025.

A Casa do Marquês já serviu vários Chefes de Estado como a antiga Chanceler alemã Angela Merkel, Barack Obama, Nicolas Sarkozy ou o Rei Carlos III de Inglaterra, entre outros. Até agora, só o líder do Vaticano é que ainda não passou pelo catering da Casa do Marquês. Um dos eventos de grande visibilidade que tem contado com o catering da empresa é, por exemplo, o Millennium Estoril Open.

Hoje o timoneiro da Casa do Marquês é Miguel Seijo y Seijo, a segunda geração da família, que assume o papel de CEO e a responsabilidade de liderar a empresa. Miguel Seijo y Seijo recebeu a Forbes Portugal no Chiado naquele que é uma das últimas joias da coroa do grupo, o restaurante Epur, que aposta na gastronomia de luxo e conta com uma estrela Michelin graças ao savoir-faire do Chef Vincent Farges. Licenciado em psicologia e mestre em lidar com pessoas, o CEO da Casa do Marquês explicou que hoje “somos uma empresa familiar que funciona como uma multinacional”. Isto porque a gestão segue os moldes de profissionalização de uma multinacional, mas não descura a proximidade de ter como raiz uma família. Por isso, garante que não é de estranhar que, haja um ambiente de boa convivência com todas as pessoas da equipa.

Quanto ao futuro próximo do negócio, o gestor não esconde a ambição de continuar a crescer tanto em Portugal como além-fronteiras, com Espanha a ser considerada o mercado natural de expansão. E assume que os segmentos que venham complementar a área de negócios dos eventos estão no radar para prosseguir o crescimento.

A Casa do Marquês tem sido uma referência tanto no segmento da restauração como dos eventos. Qual é a orientação estratégica que está no terreno?

A nossa orientação estratégica é para crescer sempre. Tenho a génese que o meu pai também trouxe do desporto. O meu pai foi jogador do Sporting. E essa é uma génese sempre competitiva. Nesta altura da vida da empresa estamos à procura de oportunidades quer por via de participações, quer por via de aquisição de propriedades, quer por via de parcerias, joint-ventures em novos projetos. Temos tentado de ver algumas coisas, mas é uma questão de tempo até aparecerem novas oportunidades.

Quais os segmentos em que estão à procura dessas oportunidades?

Tudo aquilo que seja complementar à nossa área de negócio. A nossa área de negócio, essencialmente, são os eventos, e os eventos têm vários componentes. Por exemplo, temos a nossa área de negócio de espaços, a nossa área de negócio de catering, de decoração, de animação. E depois, a partir daqui, já consegue fazer um conjunto de integrações, quer por exemplo, outros espaços ou com a parte respeitando os hotéis, ou com outras empresas que possam também estar dentro do setor e que seja possível fazer uma consolidação. Portanto, estamos à procura de todo o tipo de oportunidades, seja cá, ou no estrangeiro.

No passado já tinha havido uma tentativa de internacionalização por parte da empresa. Nesta fase, que mercados é que fariam sentido para complementar a presença?

Numa primeira fase, o mercado espanhol. Vamos aqui ao lado. É uma questão de tentar perceber quais são as oportunidades disponíveis.

Mas são para concretizar neste novo ano?

Depende das oportunidades. Nestas coisas não vale a pena andar a fazer futurologia. Isto é um negócio que é um casamento. E às vezes não é fácil. Há sempre uma parte inicial em que as pessoas se estão a estudar, a se conhecer e a tentar perceber se existe ou não compatibilidade. E é aí que depois conseguimos perceber se há a capacidade para as concretizar ou não. Não consigo adiantar ainda grandes pormenores. Mas posso dizer que temos aqui oportunidades. Estamos disponíveis para oportunidades. E estamos com capacidade de investimento e temos know-how dentro da nossa empresa.

Como é que foram conquistando esse espaço de referência no mercado português?

A empresa tem 36 anos. É uma empresa familiar. Começou como todas as empresas: com sangue, suor e lágrimas e sobretudo com um conjunto de valores e com uma vontade em querer fazer, em querer mostrar. Portanto em que o sim, ou o não ou não sempre foi uma máxima que ainda hoje permanece. Desde há 25 anos a esta parte continuamos como líderes nesta área do catering. Isto não é fácil. Implica que estejamos constantemente a evoluir e a melhorar. É um desafio que se coloca a nós próprios. E estarmos dentro desta área é também uma forma de acompanharmos aquilo que é o trajeto do nosso país nos vários ciclos económicos que normalmente andam de 15 em 15 anos. Nós temos que ao fim e ao cabo adaptarmos um bocadinho às fases do país e do mundo. O mundo é muito diferente daquilo que era há 36 anos. E é um bocadinho o que nós temos de fazer. Esta adaptação. O facto de nunca estarmos no mesmo sítio. Depois, obviamente, se calhar é um dos segredos para permanecermos e para as coisas continuarem a correr bem, é estar sempre em crescimento.

Nesta área de negócio e passados 36 anos, como é que se consegue inovar?

Há muitas formas de inovar. Nós somos ainda daqueles poucos ramos pouco tecnológicos e um bocadinho ainda, se calhar, protegidos das inteligências artificiais desta vida e daquilo que a sociedade tendencialmente irá evoluir. Porque parece-me que é esse o caminho. Mas uma comida especial não pode ser feito por robôs, por computadores. Não é possível. É aqui que realmente nós nos diferenciamos. E esta inovação é feita pelas pessoas, é feita pelo know-how que acumulámos. É feita pelo talento que conservamos, das pessoas que temos dentro de casa. Depois, concretamente, inova, por exemplo, na comida. Os hábitos alimentares mudam. Inova nas soluções de ambientes que propõem, que também mudam. Não são as mesmas. Se bem que algumas coisas depois repetem-se. Mas lembro-me perfeitamente que as soluções de decoração que havia antes não são as mesmas que se usam hoje. E depois, também há o lado empresarial. Uma das coisas que também evoluiu, desde a fundação até agora, foi a profissionalização da empresa que, obviamente, como empresa familiar, nasceu pequena, muito pequena como tantas que há por aí, teve que forçosamente profissionalizar-se para que pudesse crescer de forma sustentável.

E nessa profissionalização da gestão, cedo optaram pela passagem de testemunho para a nova geração?

Sim. Costumo dizer que somos uma empresa familiar que funciona como uma multinacional. Ou seja, gestão como se fôssemos uma multinacional, mas depois a proximidade de sermos uma família. Em termos de ambiente, de convivência com as pessoas, conversamos com toda a gente. Há uma proximidade, no fundo somos todos pessoas. Até esta proximidade faz parte desta profissionalização. Não é por ser muito profissional que depois deixamos de ter este lado humano e este lado de proximidade com as pessoas. Agora, isto também não é desculpa para não sermos altamente profissionais. Altamente profissionais. Isto resume-se também a uma coisa tão simples, que às vezes nós nos esquecemos: que é cumprir com o combinado. Se nós combinamos que o copo é para estar com água com gás é para estar com água com gás e não é para estar com Coca-Cola. Isto para nós é fundamental. E esta honestidade de efetivamente fazer cumprir com tudo aquilo que nos pedem.

E um negócio que depende tanto das pessoas como principal ativo, conseguem ter esse talento?

Conseguimos. Muitos deles crescem conosco. Nós conseguimos manter no quadro da empresa as pessoas. Temos pessoas com mais de 20 anos de casa e não são assim tão poucas. E outras que se juntaram mais tarde, que também são mais novas, e que também cá continuam. E depois obviamente damos a oportunidade de as pessoas crescerem dentro da empresa. Nós sentimos o talento, damos muita formação também. Hoje a mão de obra que tem é completamente diferente daquela que tinha há 10, há 20, há 25 anos, completamente diferente. É menos qualificada. Por exemplo, a categoria dos empregados mesmo, antes havia carteira profissional. Agora acabou. Não há ninguém que queira seguir a carreira profissional de empregado de mesa. Existem pessoas que querem, obviamente, seguir a hotelaria e ter posições de responsabilidade ligadas ao serviço de sala. Outras que há uma paixão, mas não é uma carreira que as pessoas olhem e que sejam reconhecidas como uma carteira profissional, como tem um eletricista, como tem outras profissões técnicas. Isso perdeu-se. Na cozinha não. Na cozinha houve aqui uma inversão, na minha opinião, quanto a mim, para melhor, que também foi muito conseguida por estes programas de televisão que às tantas começou a criar-se um glamour à volta dos cozinheiros que passaram a ser Chefs. E isso atraiu muita gente para a profissão. Agora, recentemente, com esta história da pandemia, o que é que aconteceu? Dado que estes trabalhos na hotelaria sempre foram, erradamente associados a muitas horas de trabalho e a remunerações baixas, houve menos capacidade para atrair mais gente para as escolas e para a hotelaria. Os mais novos deixaram de querer seguir a carreira hoteleira. As escolas hoteleiras agora estão com um bocadinho de dificuldade para atrair gente. Isso foi dos paradigmas que nós mudámos dentro. Um dos segredos para conseguirmos manter as pessoas é que esta história da hotelaria não tem de ser a loucura que era antigamente. As pessoas têm que, obviamente, para manter o seu equilíbrio, nomeadamente para estas gerações mais novas que não vivem para trabalhar, trabalham para viver. Isto é uma grande mudança de paradigma para a geração dos meus pais, dos meus avós. Mas isto faz um bocadinho de parte desta história da adaptação. Nós queremos ter gente mais qualificada, uma geração mais nova, mais atualizada temos também de nos adaptar, temos de mudar a forma como nos organizamos para depois, não só satisfazermos aquilo que é o objetivo principal, que é fazer excelentes eventos, servir bem os convidados para saírem hiper satisfeitas, como a seguir tem de dar espaço para as pessoas viverem a vida delas. Vestir a camisola é fundamental, esse é o mindset.

No portfolio ainda são os eventos que têm mais peso em termos de desempenho financeiro?

Sim. Nós temos um grupo familiar constituído por uma holding. Mas, essencialmente, os eventos continuam a ter mais peso. Depois tem várias áreas de negócio dentro dos eventos que faz parte da nossa forma de gerir o negócio.

Qual foi o evento mais extravagante ou mais fora da casca que organizaram nos últimos tempos?

São tantos. Às vezes nem precisam de ser de gente muito rica, normalmente, até pedem coisas um bocadinho mais formais do que outros eventos. Há um casamento que fizemos há uns anos que foi numa praia em que eles foram todos vestidos de cowboys e de índios. Houve outro em que escolheram Alice no País das Maravilhas. Outro foi uma festa de aniversário que teve o tema do surrealismo e foi uma megaprodução que fizemos com fardas especiais para os empregados de mesa, para a equipa de sala, com um túnel onde as pessoas entravam e tinham lá mãos a brindar com copos. Uma mesa única para cerca de 150 pessoas, toda em formas estranhas, com altos e baixos. Isto é assim um dos extravagantes. Nestes anos todos só houve uma figura de destaque mundial que nunca servimos, o Papa, foi o único. Até agora, presidentes americanos e de todos os países temos tido esse privilégio de já terem provado a comida da Casa do Marquês.

Desta forma, acabam também por levar o nome de Portugal além-fronteiras…

Sim, não tenha dúvidas. Nós trabalhamos com muitos grupos estrangeiros. Lisboa desde sempre, mas mais ainda recentemente, tem conseguido atrair não só moradores estrangeiros com poder de compra, como tem atraído também grupos. E vem cá muitas agências já diretamente fazer cá eventos. E é bom nós recebermos os elogios. Acabamos por ajudar nesta parte em termos nacionais e contribuir para a marca Portugal.

E como surgiu a aventura do restaurante Epur?

Descobrimos o espaço através de um e-mail que chegou ao geral da empresa que dizia que “temos aqui um restaurante com uma estrela Michelin no mercado. Se estiverem interessados, assinem o NDA”. Assinámos o NDA e depois chegámos a acordo com os sócios, em que um deles, o Chef Vincent continuou, como é óbvio porque ele é indissociável disto. É a questão do talento. Aquilo que se come no Epur vem de um talento que coordena ali uma equipa no restaurante que, em grande parte, é o Vincent. Com o nosso apoio, como é evidente. Apareceu-nos a esta oportunidade. E nós aceitámos. É um desafio interessante.

Com a responsabilidade de uma estrela Michelin…

Com a responsabilidade de um estrela Michelin que conseguimos manter. E é para continuar a manter. Temos ambições para mais porque somos ambiciosos. Temos este espírito competitivo saudável. Não é um competitivo sem escrúpulos, é tudo como deve ser. Mas somos competitivos. E queremos mais não só para a Casa do Marquês, mas também para o Epur.

São quantas pessoas na empresa?

Na empresa temos 14 primeiros chefes a colaborar conosco. Mas dentro dos quadros são cerca de 100 pessoas. E depois trabalhamos com imensos temporários. Fora dos quadros temos mais. Posso dizer que há dias que temos cerca de 700 pessoas a trabalhar para nós. E não são assim tão poucos.

Ao longo dos tempos o setor da restauração ou mais da área dos eventos tem passado por muitas mudanças?

Lembro-me tantas empresas que apareceram e desapareceram. Tem sempre imensas mudanças. Continua a ser um setor muito disperso, não há uma consolidação. É um setor que não tem multinacionais, isto no catering para eventos porque é difícil. Não é um setor caracterizado por muita dificuldade nas tarefas que tem de se realizar. Mas é um setor que é muito trabalhoso. Não são tarefas essencialmente complicadas, não precisa de técnicos altamente qualificados como engenheiros, arquitetos, físicos. Mas é de mão de obra e capital intensivo. Tem de se fazer um investimento inicial que é muito elevado. Por exemplo, a nossa sede tem seis mil metros quadrados, a cozinha tem 1400 metros quadrados, fazer uma estrutura daquelas e depois ainda ter as pessoas para saberem operara, a aquisição dos clientes tudo isso não é fácil.

Como é que estão a enfrentar as novas tecnologias como a IA?

Algumas coisas já fazem parte e terão de fazer mais, temos de absorver isto nalgumas tarefas. Isto é um setor que para escalarmos como fazemos entre 1200 e 1500 eventos por ano isto quer dizer em média três eventos por dia, mas isto não é a linear. Ou seja, temos picos. Por exemplo, só no passado dia 12 de dezembro tivemos 14 eventos. Isto requer um enorme planeamento, tem de haver material para esta gente toda, para todos os eventos que estão dispersos, capacidade logística, tem de fazer planeamento de carros, fazer planeamento de homens para as montagens e desmontagens, planeamento de material, saber quantas mesas, cadeiras, pratos, copos, das capitações de tudo o que são os menus vendidos e quantidades que levam e o que é necessário confeccionar. É necessário organizar toda esta produção. Aqui nalgumas tarefas a inteligência artificial pode, naturalmente, entrar.

Vista a partir do restaurante Epur.

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