Cabelo, Imagem e Autoestima – Quando a medicina também trata o que se vê ao espelho

Num tempo em que a imagem tem um peso crescente na forma como cada pessoa se vê e se apresenta ao mundo, a saúde capilar não se limita à estética: integra também uma dimensão de bem-estar e autoestima. O diretor clínico da LHR, o médico Augusto Guerreiro, que atua na área da medicina estética, da…
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Nos bastidores dos transplantes capilares e da medicina estética existem decisões clínicas exigentes, formação especializada e limites que nem sempre são visíveis para quem está do outro lado
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Num tempo em que a imagem tem um peso crescente na forma como cada pessoa se vê e se apresenta ao mundo, a saúde capilar não se limita à estética: integra também uma dimensão de bem-estar e autoestima. O diretor clínico da LHR, o médico Augusto Guerreiro, que atua na área da medicina estética, da tricologia e do transplante capilar, fala do seu percurso, dos desafios técnicos da área, da pressão sobre os profissionais e da importância de colocar sempre as pessoas, e não o negócio, no centro das decisões clínicas.

O que o levou a escolher medicina?

Sempre pensei mais em ser cientista ou astronauta, não tive aquela fantasia desde miúdo de querer ser médico, mas quem tem boas notas acaba muitas vezes encaminhado para medicina. A escolha veio também por influência do meu irmão, que entrou no curso, e pensei que pudesse ser a escolha certa para mim. Tive a sorte de não me enganar, não me arrependo nada, e sou muito feliz.

Quando surgiu o interesse pela área do transplante capilar e da medicina estética?

Na faculdade comecei a perceber que gostava muito de dermatologia. A parte clínica sempre me atraiu bastante. O problema é o acesso à especialidade: em Portugal é muito difícil, é quase mais difícil do que, por vezes, entrar no curso de medicina. Esta especialidade é uma das mais concorridas e tem poucas vagas, e isso levou-me a explorar outras áreas, percebi que gostava muito da medicina estética, que pode ser vista como um braço da dermatologia. Depois surgiu o convite para trabalhar numa clínica de transplantes capilares, a clínica LHR, um projeto de dois sócios franceses que me convidaram para ser diretor clínico. A partir daí comecei a apaixonar-me pela área do transplante capilar e da tricologia, nunca deixando a medicina estética.

O empreendedorismo surgiu de forma natural?

De certa forma, sim. O convite para assumir a direção clínica, a confiança que foi depositada em mim e, mais tarde, a decisão dos sócios de saírem da sociedade e me entregarem o projeto refletem a minha personalidade, a minha dedicação e o meu espírito empreendedor. Assumi, então, um projeto que, na altura, era ainda um “bebé” e desenvolvi-o até se tornar no que é hoje.

Quais são os principais desafios desta área?

O transplante capilar exige muita dedicação e perseverança por dois motivos. Primeiro, porque é uma área com uma curva de aprendizagem enorme. É um trabalho muito manual, um microtrabalho, que exige precisão absoluta e firmeza nas mãos. Mesmo depois de dez anos a fazer isto quase diariamente, ainda há situações difíceis. A par da vertente clínica e médica, existe toda uma estrutura que exige a dedicação de muitas pessoas. Não é uma área da medicina exercida apenas em consultório, de forma individual: requer equipas numerosas e especializadas. Este é hoje um dos principais desafios, já que se trata de áreas que exigem formação contínua. Não é como noutras profissões, em que é possível substituir facilmente um profissional. Quando alguém sai, perde-se um recurso humano que levou, por vezes, anos a formar. Num contexto em que a vida laboral é cada vez mais dinâmica, reconstruir essas equipas torna-se difícil. Um dos maiores desafios nesta área dos transplantes capilares é, precisamente, manter a estabilidade dos recursos humanos. 

Existe uma responsabilidade acrescida por ser uma área estética?

Sim. Na medicina estética e capilar as pessoas não estão doentes. São saudáveis e gostavam de melhorar esteticamente, o que aumenta a exigência. A margem para falha é muito pequena. Quando as coisas não correm bem, a responsabilidade é sempre, em último grau, do médico. 

Quais são os princípios inegociáveis da clínica?

Não podemos olhar para os tratamentos como um produto. A medicina não pode ser vista como um negócio. Como diretor clínico, sempre coloquei esta premissa em pratos limpos: não quero que o paciente seja visto como um produto, quero oferecer aquilo que é essencial para tratar e melhorar. Este cuidado diferencia-nos e contribui para a nossa carteira de clientes, porque as pessoas percebem que somos diferentes. Nunca ofereço um tratamento apenas por ser rentável para a clínica se não for benéfico para quem nos procura. Isso acontece muito nos transplantes capilares. Há clínicas, especialmente as de mass market, em que qualquer pessoa que entra faz um transplante capilar. Mas há critérios que devem ser respeitados, e em alguns casos é contraproducente avançar. A experiência ensina-nos que o médico não é milagroso: há limites, e é fundamental não elevar expectativas nem realizar trabalhos que sabemos que não vão satisfazer o paciente ou resolver o problema. Caso contrário, a situação vira-se contra nós. Por vezes, existe a tendência, em alguns médicos, de quererem faturar e trabalhar a todo o custo, mas é preciso reconhecer limites. Caso contrário, podem surgir problemas, e muitos profissionais nesta área acabam por sofrer com isso.

Como é que consegue lidar com toda a pressão e como pode preparar-se um jovem médico para saber que as pessoas têm expectativas elevadas e que existem limites?

Existe a pressão financeira e a do paciente que nem sempre compreende que há certos trabalhos que não podem ser realizados, dizer “não” é tão difícil quanto necessário. É fundamental equilibrar ética e gestão. Para jovens médicos que queiram ingressar nesta área, o que sugiro é simples: esta não é uma área fácil. Ou se adora ou se odeia. Já tive colegas a trabalhar comigo e perceberam que não era para eles. A medicina estética, de certa forma, é mais acessível, mas a parte dos transplantes capilares é muito desafiante. É uma curva de aprendizagem de vários anos. Em Portugal, provavelmente somos uma dúzia de médicos a dedicar-nos a transplantes capilares. Existem muitas clínicas a fazer procedimentos, com enfermeiros executantes, mas médicos dedicados a esta área são mesmo muito poucos. Qualquer colega que queira abraçar esta área tem de começar com outro profissional experiente e, acima de tudo, perceber se realmente gosta desta especialidade. Não se aprende isto em cursos rápidos, nem na prática hospitalar convencional. É uma aprendizagem contínua, cirurgias, congressos, partilha de experiências e muitos anos de dedicação.

Que impacto tem a saúde capilar na autoestima?

Durante muito tempo a saúde capilar foi negligenciada, sobretudo nos homens. Em Portugal ainda existe muita discrição: as pessoas querem fazer tratamentos, mas não querem que ninguém saiba. Durante a covid-19 foi quando se fizeram mais transplantes capilares, porque as pessoas estavam em casa. Mas esta perceção está a mudar, é necessário que as pessoas assimilem que envelhecer é inevitável; nenhum tratamento vai bloquear esse processo, mas podemos atrasá-lo e fazer com que seja mais elegante. Acho que é aí que se quebra o preconceito.

Que mitos existem sobre o transplante capilar?

O maior medo é o aspeto artificial. O transplante não é um fim, é um meio. O cabelo transplantado cai, e só volta a nascer passados três meses. O resultado não é imediato, e isto assusta alguns pacientes. Para se ter uma noção, o resultado final só se vê de 12 a 18 meses.

A idade influencia?

Sim, nos jovens é preciso ter cuidado, porque a alopecia (queda de cabelo) pode progredir. O transplante deve ser acompanhado por tratamento médico. Nos mais velhos, a idade não é contraindicação, mas as doenças associadas têm de ser consideradas.

Há risco de exagero nos tratamentos, em especial de medicina estética?

Sim. Há pacientes com distorção da imagem. Temos de saber dizer não. O médico também tem um papel quase de psicólogo. Alterar demasiado a imagem não é benéfico para ninguém.

Para finalizar, há planos de expansão da clínica?

O objetivo é abrir no Porto em 2027, mas com muito critério. Não somos uma clínica de mass market. Crescer é importante, mas sem perder qualidade

 

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