Bill Gates alerta: sem regulação, a IA será “concebida pelos e para os mais ricos”

Bill Gates lançou um alerta sobre o impacto da inteligência artificial nas desigualdades globais e pediu aos líderes mundiais que atuem para garantir que a tecnologia não fica sobretudo ao serviço de quem já tem mais recursos. Num comunicado que acompanha o novo relatório anual da Fundação Gates, o multimilionário escreveu que a inteligência artificial…
ebenhack/AP
O fundador da Microsoft, Bill Gates, defende que as decisões tomadas nos próximos 12 a 18 meses serão determinantes para saber se a inteligência artificial reduz ou agrava as desigualdades. A Fundação Gates vai investir pelo menos $1 mil milhões (853 milhões de euros) para alargar o acesso à tecnologia.
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Bill Gates lançou um alerta sobre o impacto da inteligência artificial nas desigualdades globais e pediu aos líderes mundiais que atuem para garantir que a tecnologia não fica sobretudo ao serviço de quem já tem mais recursos.

Num comunicado que acompanha o novo relatório anual da Fundação Gates, o multimilionário escreveu que a inteligência artificial pode ser “um grande equalizador — ou aumentar o fosso” entre ricos e pobres.

Gates, cofundador da Microsoft, afirmou ter acompanhado a revolução da computação pessoal, mas reconheceu que o atual momento provocado pela inteligência artificial é diferente de tudo o que viu anteriormente.

“Nada foi como isto”, escreveu, referindo-se a uma tecnologia que está “a avançar mais depressa, a chegar a mais pessoas do que qualquer coisa antes”.

O empresário deixou, contudo, um aviso sobre o que poderá acontecer se o desenvolvimento da IA for deixado exclusivamente às forças do mercado: “Se deixarmos as coisas ao mercado, a IA será concebida pelos e para os mais ricos do mundo”, afirmou.

Para Gates, as decisões tomadas nos “próximos 12 a 18 meses” serão determinantes para perceber se a inteligência artificial vai beneficiar “as pessoas que já têm mais” ou chegar “às que têm menos”.

A tecnologia pode ser utilizada para fins positivos, defende, mas isso “não vai acontecer por acaso”.

Fundação Gates promete $1 mil milhões para democratizar a IA

A Fundação Gates anunciou que pretende gastar pelo menos $1 mil milhões (853 milhões de euros) nos próximos dois anos para “alargar o acesso à inteligência artificial e a soluções baseadas em IA”.

Uma parte significativa do investimento será destinada à educação. Cerca de 40% dos fundos, ou pelo menos $400 milhões (341 milhões de euros), deverão apoiar projetos nesta área, incluindo ferramentas de tutoria baseadas em inteligência artificial.

Outros 40%, também $400 milhões (341 milhões de euros), serão destinados à utilização da IA na saúde, nomeadamente em diagnósticos, apoio à decisão clínica e desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas.

A agricultura receberá 10%, ou $100 milhões (85 milhões de euros), para ajudar pequenos agricultores a utilizar ferramentas de inteligência artificial.

Os restantes 10% serão aplicados na criação de uma “base digital da qual depende uma IA equitativa”.

Três prioridades para tornar a IA mais acessível

O relatório da Fundação Gates apresenta ainda três propostas para garantir que o impacto da inteligência artificial seja positivo e alcance mais pessoas. A primeira passa por tornar as ferramentas de IA acessíveis em “todas as línguas que as pessoas falam”. A fundação alerta que mais de 90% dos dados utilizados para treinar os primeiros modelos de inteligência artificial provinham de fontes em inglês.

A segunda proposta defende que os países e as comunidades devem poder decidir como os seus dados são geridos e protegidos.

A terceira passa por dar a profissionais como médicos, agricultores, professores e programadores oportunidades para avaliar as ferramentas de IA e adaptá-las às suas necessidades.

Gates já tinha alertado para os riscos da IA

O novo aviso surge poucas semanas depois de Gates ter publicado um ensaio de 6000 palavras sobre os riscos associados à inteligência artificial. Na declaração divulgada esta terça-feira, o fundador da Microsoft voltou a reconhecer que “esses riscos são reais e merecem atenção séria”.

No ensaio, Gates escreveu que a transição para a era da inteligência artificial será “um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade” e lamentou que, neste momento, “não estejamos a preparar-nos” para ela.

Entre os riscos identificados está a possibilidade de muitos empregos desaparecerem de forma permanente. Gates considera que as funções de nível inicial e intermédio estão entre as mais ameaçadas.

O multimilionário alertou também para a utilização da IA por indivíduos mal-intencionados, que poderão recorrer à tecnologia para cometer fraudes, espalhar desinformação, criar deepfakes, realizar ciberataques ou até desenvolver formas de bioterrorismo.

Gates recuperou ainda uma das preocupações que têm sido levantadas por vários responsáveis do setor tecnológico: a possibilidade de os próprios sistemas de IA começarem a agir contra os interesses humanos: “Os modelos de IA podem começar a agir contra os nossos interesses e podemos perder o controlo”, escreveu.

Outra preocupação diz respeito às crianças e ao desenvolvimento das relações humanas. Gates alertou que a utilização crescente de companheiros baseados em inteligência artificial poderá levar algumas crianças a recorrer a estas ferramentas para substituir relações com outras pessoas.

O debate sobre os riscos e os benefícios da IA ganha assim uma dimensão adicional: não está apenas em causa a segurança da tecnologia ou o futuro do trabalho, mas também quem terá acesso às suas vantagens. Para Gates, as decisões tomadas nos próximos meses serão decisivas para determinar esse equilíbrio.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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