André Leitão: “Sou um ator do setor artístico, não sou um ator de nenhum género”

Em 2001, depois de um barco que se dirigia a Espanha ter perdido o mastro devido ao vento, deram à costa em Rabo de Peixe, nos Açores, cerca de 500 kg de droga. Isto de acordo com os números avançados pela polícia, mas segundo a população a quantidade de cocaína era muito superior a esta.…
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Curioso, ambicioso e versátil. É assim que André Leitão se descreve como ator. Mas, e tendo em conta que a arte sempre fez parte da sua vida, o que realmente espera que o descreva é a vontade que tem “de nunca deixar de pertencer ao meio artístico”.
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Em 2001, depois de um barco que se dirigia a Espanha ter perdido o mastro devido ao vento, deram à costa em Rabo de Peixe, nos Açores, cerca de 500 kg de droga. Isto de acordo com os números avançados pela polícia, mas segundo a população a quantidade de cocaína era muito superior a esta.

22 anos depois, em maio de 2023 e pelas mãos do cineasta Augusto Fraga, esta história chegou a Portugal e ao mundo através da série da Netflix ‘Rabo de Peixe’. Com apenas uma temporada, foi uma das 500 séries mais vistas a nível mundial na plataforma de streaming, chegou ao top 10 mundial das séries em língua não-inglesa da Netflix e esteve entre as mais vistas em 15 países.

A bordo desta história foram os seus quatro protagonistas: André Leitão, Helena Caldeira, José Condessa e Rodrigo Tomás. O primeiro, a viver a oportunidade pela qual esperou por uma década.

“Foi o meu primeiro grande projeto de audiovisual, e logo com uma exposição mundial. Eu já andava há 10 anos a tentar ter uma boa oportunidade e fui um privilegiado por tê-la conseguido. Nunca tinha feito um trabalho com tanta profundidade,”, diz o ator à Forbes.

Se tivesse de colocar o momento em que decidiu ser ator no calendário, André Leitão não o conseguiria fazer. A arte esteve sempre lá. “Eu não me lembro do dia em que escolhi ser ator. As memórias que tenho são de ir crescendo e saber que gostava de me colocar noutras peles, de ver a perspetiva dos outros, de compreender como é que os outros funcionavam, como é que eram os comportamentos deles, o que é que eles gostavam, porque é que pensavam daquela forma. Eu diria que foi a arte que me escolheu”, conta.

A cronologia começa a ganhar forma no momento em que a mãe o questiona sobre a decisão de seguir a área de humanidades no ensino secundário: “Mas tu não queres fazer teatro?”. A verdade é que André nem sabia que tinha essa possibilidade, mas assim que o plano se desenhou não pensou duas vezes em avançar. No dia seguinte à conversa com a mãe, depois de perceberem que as inscrições estavam muito perto de encerrar, já estava na Escola Profissional de Teatro de Cascais para fazer os testes e audições necessários.

A partir daí, o teatro nunca mais foi apenas um hobby, mas foi com ‘Rabo de Peixe’ que conseguiu dar o salto na carreira que tanto ambicionava. Por causa da visibilidade e resultados do projeto, mas também pela experiência que lhe proporcionou. “Desde o ponto de vista da preparação, da personalidade da personagem, o ter ido para uma realidade completamente diferente da minha, com os atores e o realizador. Este trabalho de proximidade, o realizador ir connosco para Rabo de Peixe, mostrar-nos a ilha dele e com os olhos dele. Acho que isso foi muito importante e foi fundamental para que nós, atores, conseguíssemos que a essência destas personagens fosse o que ela”, diz André.

A importância desta proximidade deste trabalho de campo vê-se até nos pormenores que acabam por passar despercebidos ao público. Num dos momentos em que os atores foram pescar com os habitantes da vila, André juntou detalhes ao seu Carlinhos que de outra forma não saberia: “Foi aí que eu percebi que se num dia de pesca fiquei cheio de calos nas mãos, se calhar a minha personagem tinha muitos calos nas mãos, e se calhar o toque da minha personagem ao dar uma festa a alguém era diferente do meu, André, que não sou pescador. Se calhar eu tenho uma mão um bocadinho mais delicada, mais suave, que o Carlinhos não tem. Porque trabalha duramente no mar, leva com água salgada, com cordas, escamas e espinhas, diariamente. Que não é o mesmo que eu”. Ao mesmo tempo, trabalhava ao detalhe a figura que foi desenhada para o seu personagem, chegando mesmo a fazer uma transformação física que o obrigou a seguir um plano alimentar muito regrado.

Neste momento o público já conhece duas temporadas de todo este esforço e dedicação, mas a terceira já está confirmada e gravada.

Artista dos sete ofícios

Ao mesmo tempo que é um sucesso no universo do audiovisual, André dá cartas em muitos outros palcos. Aliás, a sua escola é o teatro e é ao teatro que regressa sempre. “Tive a sorte de ter já percorrido diversos tipos e formas de arte. Já fiz teatro de revista, teatro clássico, desde as antigas tragédias até teatro contemporâneo, performance na faculdade, teatro musical profissionalmente, em Portugal e lá de fora. Em audiovisual já fiz cinema, televisão, séries”, diz. Entre estes projetos estão nomes como “Chéleme!”, “S algueiro Maia – O Implicado”, “Peer Gynt” ou “Queridos Papás”.

O facto de ter começado no teatro tem alguma influência na forma como a sua carreira se desenvolveu? André não tem dúvidas.

“Foi fundamental. Eu tenho uma admiração, um carinho, um respeito absurdo pelo teatro. Já tive um mestre que nos ensina isso, que o teatro é uma religião. Não é que eu olhe 100% assim para o teatro e para a arte de representar em palco, mas acho mesmo que o palco é um lugar de grande respeito. Se pensarmos também porque é que surgiu o teatro e para que é que servia, isto faz-nos acreditar e faz-nos pensar que o teatro começou a mover pensamento, a mover e articular ideias, a tornar uma sociedade próspera. O teatro é, para mim, uma das bases da sociedade e incutiu logo em mim um respeito, um cuidado e um olhar muito atento para a profissão. Eu não olho para o meu trabalho como um fator de exposição, é outra coisa. Acho que sou um privilegiado por ter começado com o teatro e espero nunca deixar de fazer teatro”, afirma.

Além de todas as ferramentas que foi aprendendo e que considera não estarem tão presentes fora do teatro. “O facto de ser ali naquele momento, de todos os dias ter um espetáculo novo em que estamos todos com energias diferentes, de ser um jogo constante e sempre de atualização com o colega. E isso requer certas ferramentas nos atores que se calhar passam um bocadinho para o segundo plano ou não são tão usadas noutros meios artísticos. Consegue-se puxar um bocadinho mais longe do que em outros meios artísticos”, diz.

O que não muda que todos os palcos que vai pisando, sejam eles físicos ou a partir de um ecrã, sejam igualmente um desafio. André considera que todas estas formas de arte são desafiantes à sua maneira, mesmo que sejam realidades bastante diferentes.

“No cinema é uma coisa muito mais de pormenor, em que engloba todo o lado estético também, a questão da realização, com a fotografia, a luz, o som, tudo está interligado. Na verdade, o teatro também tem isso, só que a questão é que no audiovisual nós podemos sempre ir corrigindo, e é um material que se vai sempre construindo até ao final. No teatro  é diferente, há uma baliza muito mais definida, e não se muda muita coisa no processo. Pode acontecer, mas idealmente o espetáculo quando se apresenta, embora não esteja totalmente fechado, está parcialmente delineado. No cinema vai-se brincando. Há uma frase que o Augusto Fraga me disse quando estávamos a filmar Rabo de Peixe: há um filme que se escreve, há outro filme que se filma, e há outro filme que se monta na pós-produção. É uma área sempre em transformação, mas eu acho que é isso que também me fascina no setor artístico, é a constante transformação de processos, seja ele em teatro, cinema, audiovisual. É estar sempre à procura de algo”, diz.

O reconhecimento do artista

Para que a carreira de André, ou de qualquer outro artista, possa seguir o seu rumo, quer dizer que alguém se sentou na plateia de um teatro, mudou de canal ou carregou no botão play e consumiu o trabalho de um vasto grupo de profissionais. O que o público muitas vezes não vê é o facto de alguns projetos estarem recheados de uma dose enorme de generosidade de quem os fez acontecer sem qualquer apoio.

“Se calhar não temos tempo”, brincou André quando questionado sobre o momento atual da cultura em Portugal. É que há muito por onde se pegar, mas o ator opta por destacar dois pontos que considera muito importantes. “Em primeiro lugar, sinto que estes pequenos reforços que vamos tendo do ponto de vista do orçamento para a cultura são muito pouco significativos. Porque continuamos a ter muitas estruturas com dificuldade para terem os apoios, para chegarem às programações, para conseguirem ter financiamento, para conseguirem ter apoio. E depois, acho que há uma questão fundamental, que vem antes sequer da questão do Ministério da Cultura, que entretanto deixámos de ter há uns meses: acho que é fundamental Portugal descentralizar-se das duas cidades, Lisboa e Porto”, defende.

Fotos: Mariana Maia

E quando falamos da descentralização podemos aplicar a mesma ótica a qualquer área, como destaca o ator, mas falando da arte e da cultura em particular, o resultado seria este: “Vai permitir que as estruturas mais pequenas e emergentes do interior possam ter igualmente a oportunidade para poderem apresentar os projetos, para poderem dinamizar também esses pontos que não estão dinamizados. Fico muito feliz de ver que tanto a geração mais sábia como uma geração mais nova têm sempre ainda muito presente, e acho que é fundamental, uma vontade de resistência. De resistir, persistir, não resistir. Porque se a cultura chegar a mais sítios, também chega a mais pessoas e a cultura educa, ensina, dá perspetivas. Um país com cultura é um país muito mais desperto, com muito mais identidade, mais linha de pensamento e com muito mais perspetiva”, defende.

Este pensamento, que pode ser traduzido no conceito de responsabilidade social, acaba por ser algo que se espera de quem tem uma determinada influência junto do público e consegue chegar a um lugar em que é ouvido, mas não é abraçado por todos. Existem diversas figuras públicas que escolhem não falar sobre temas como política, ativismo ou conflitos. André, desde o dia em que percebeu que queria ser ator para conseguir dar voz a quem não a tem, opta por não ignorar aquilo que o rodeia.

“[Esta responsabilidade] cresce mais à medida que nos vamos tornando mais atentos ao que se passa à nossa volta. Acaba por ser inevitável o ser humano não ganhar empatia a cada dia que passa, ganharmos cada vez mais cuidado, atenção por aquilo que nos rodeia. Acho que é fundamental os atores, enquanto agentes artísticos, terem essa iniciativa de alertar, de chamar a atenção, educar, ensinar, ajudar, fazer ver, mostrar os dois lados. Porque é depois a consciencialização que vai formando as sociedades, as suas políticas, o cuidado ou o não-cuidado que temos para aqueles que nos rodeiam, o quão vulneráveis nós somos para reconhecer que há pessoas que nasceram em realidades muito mais difíceis do que a nossa. Para termos a compaixão e a amabilidade de poder acolher qualquer ser humano neste planeta que quanto a mim não devia ter fronteiras”, conclui.

(Artigo publicado na edição de outubro/novembro 2025 da Forbes Portugal)

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