Ana Varela: “O planeta está a dar sinais evidentes de desequilíbrio e fechar os olhos não vai mudar isso”

Como surgiu a ideia de escrever este livro? Depois de vários anos a mudar o meu estilo de vida, senti que estava na altura de partilhar esta minha jornada pela sustentabilidade. Fui percebendo, ao longo do tempo, que ao falar das pequenas alterações de hábitos que ia fazendo, conseguia suscitar curiosidade nas pessoas à minha…
ebenhack/AP
Ana Varela é atriz e ativista ambiental. O seu mais recente projeto, o livro "Pequenos Passos para Uma Vida mais Sustentável", vem consciencializar os leitores para a segunda vertente. A Forbes conversou com Ana sobre este livro, o estado do planeta e o que todos podemos fazer para melhorar a situação. 
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Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Depois de vários anos a mudar o meu estilo de vida, senti que estava na altura de partilhar esta minha jornada pela sustentabilidade. Fui percebendo, ao longo do tempo, que ao falar das pequenas alterações de hábitos que ia fazendo, conseguia suscitar curiosidade nas pessoas à minha volta e até desencadear mudanças. E o mundo precisa de mudança. O livro nasce de uma vontade de ir mais longe, de criar um espaço onde estão reunidas as aprendizagens, reflexões e ferramentas práticas que reuni ao longo do tempo, para apoiar e incentivar quem também quer começar o seu próprio caminho mais sustentável.

Como é que o descreve?
É um livro simples, honesto e próximo, pelo menos assim tentei que fosse. Um diário de bordo prático, com bastantes exercícios e dicas, que acompanha o leitor numa viagem de descoberta. Não apenas sobre sustentabilidade, mas também sobre equilíbrio, propósito e consciência.

Sempre foi consciente em relação ao tema da sustentabilidade?
Sempre tive uma ligação forte à natureza, talvez por ter crescido no Ribatejo, mas a verdadeira consciência surgiu aos poucos. Foi um processo gradual e muito transformador, impulsionado, claro, pela maternidade e pela perceção de que o futuro das minhas filhas depende das escolhas que faço hoje.

“Sei que não posso mudar um planeta inteiro quando sou apenas uma, mas posso mudar o que está ao meu alcance”, diz no livro. O que é que está ao alcance de cada um de nós?
Está ao nosso alcance repensar hábitos, fazer escolhas mais conscientes e agir. Desde reduzir o desperdício, apoiar produtores locais, repensar o consumo ou optar por meios de transporte mais sustentáveis. Nenhum gesto é pequeno demais, é a soma de muitos pequenos gestos que gera uma grande transformação.

Há alguns hábitos que ache de extrema importância e que tenham sido mais difíceis de tornar rotina?
Nem sempre consigo evitar o uso do carro, por exemplo, principalmente agora que vivo mais longe da escola das minhas filhas e do centro urbano. Mas optei pela mobilidade elétrica e aprendi que o importante é a consistência, não a perfeição. E isto aplica-se a qualquer área da nossa vida, o essencial é manter a consciência e fazer o melhor possível dentro das circunstâncias de cada um de nós.

Que hábitos são mais urgentes todos mudarmos?
Reduzir o desperdício alimentar, energético e material. São mudanças que dependem apenas de nós e têm impacto imediato. Planear melhor as compras, reutilizar mais e optar por produtos duradouros são gestos simples, mas com efeito real no planeta. E não sou só eu que o digo, o Projecto Drawdown aponta a redução do desperdício alimentar como a medida com maior impacto ambiental.

“Viagem que contempla as várias esferas da vida, como o consumo, a alimentação, a moda, a higiene, a vivência da casa, a mobilidade e a intervenção na comunidade”, lê-se também. Indústrias como a dos transportes ou da moda estão entre as mais poluidoras do mundo. O que é que se pode exigir às empresas para que possam fazer melhor?
Neste livro falo muito sobre o que está ao alcance de cada um de nós, enquanto cidadãos. Mas a verdade é que as empresas, assim como os governos, têm também um papel central e uma responsabilidade enorme. Podemos e devemos exigir transparência, práticas éticas e uma verdadeira preocupação ambiental, desde a origem das matérias-primas até à forma como tratam os resíduos. E isso aplica-se à indústria da moda, dos transportes e a qualquer outra. É urgente migrar para um modelo de economia circular.

Foto: Maria Vasconcelos

Que mensagem gostava de passar a quem continua a negar o impacto negativo que o planeta está a enfrentar atualmente?
Gostava de dizer que não se trata de culpa, mas de responsabilidade. O planeta está a dar sinais evidentes de desequilíbrio, está relatado em diversos estudos e relatórios ambientais e já o sentimos na pele, e fechar os olhos não vai mudar isso. O caminho é de união e ação. E quanto mais cedo o percorrermos, melhor será o futuro de todos.

Já não há tempo para teorias negacionistas?
Não. Já passámos da fase de debater se o problema existe, ele está à vista de todos. Agora é tempo de agir, de cooperar e de transformar. Teorias negacionistas apenas nos farão fazer perder tempo nesta luta climática.

Sente que, como atriz e figura pública, tem uma responsabilidade maior para passar este tipo de mensagens?
A visibilidade dá-nos uma plataforma e acredito que é importante usá-la de forma consciente. Não para impor nada, mas para inspirar mudanças necessárias. Se as minhas ações e escolhas puderem motivar alguém a repensar as suas, então já valeu a pena.

No seu dia-a-dia, a nível profissional, considera que se pode fazer mais em nome de uma realidade mais sustentável?
Sem dúvida. O setor artístico também pode dar o exemplo com gestos simples, como reduzir o uso de plásticos nas produções, reutilizar melhor figurinos e cenários, optar por transportes partilhados nas deslocações ou dar prioridade a fornecedores locais e materiais recicláveis. Ser mais sustentável passa também por repensar o desperdício energético em gravações e ensaios, e até pela forma como comunicamos e sensibilizamos os espetadores. 

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