“Alterações climáticas representam um risco para a economia e para o sistema financeiro. O Banco de Portugal está a trabalhar muito nesta área”

Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, alerta: há que retirar importantes lições os últimos eventos extremos em Portugal, que deverão continuar a agravar e tornar a economia mais resiliente. “Sabemos que as alterações climáticas representam um risco para a economia e para o sistema financeiro. Várias entidades internacionais, vários economistas e vários cientistas…
ebenhack/AP
Álvaro Santos Pereira, governado do Banco de Portugal, disse ontem que temos de criar um país mais resiliente para aguentar os riscos associados às alterações climáticas. Preparar o país para eventos extremos, intempéries e até atividade sísmica, é essencial para tornar resiliente a economia nacional.
Economia

Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, alerta: há que retirar importantes lições os últimos eventos extremos em Portugal, que deverão continuar a agravar e tornar a economia mais resiliente. “Sabemos que as alterações climáticas representam um risco para a economia e para o sistema financeiro. Várias entidades internacionais, vários economistas e vários cientistas têm falado muito nisso, e mesmo havendo quem não acredita na existência das alterações climáticas, sabemos que os eventos macroeconómicos e climáticos extremos estão a aumentar”. O governador do Banco de Portugal afirmou ainda que o país precisa de se tornar numa sociedade preventiva para responder a futuras catástrofes e diversificar as suas fontes energéticas para não estar dependentes de conflitos geopolíticos.

Álvaro Santos Pereira participou na conferência “Economia, Risco e Resiliência Depois da Tempestade Kristin” que decorreu durante a tarde de ontem no Teatro Miguel Franco, em Leiria, tendo feito o discurso de encerramento da mesma. O evento promovido pela autarquia destinou-se à análise do impacto económico de fenómenos climáticos extremos e à discussão de respostas institucionais e económicas na região afetada pela tempestade Kristin. Presentes na sessão estiveram ainda vários economistas e especialistas como Victor Prior, do Instituto Português do Mar e Atmosfera, Filipe Duarte Santos do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), João Duque, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, José Reis, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Luís Febra, da NERLEI CCI – Associação Empresarial da Região de Leiria e da Câmara de Comércio e Indústria, Paulo Fernandes, da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro, Ricardo Duarte, do Instituto Politécnico de Leiria (IPL).

Quanto aos riscos das alterações climáticas, Álvaro Santos Pereira refere que “não nos podemos esquecer que estamos num país de alto risco sísmico”.

Na sua apresentação, Álvaro Santos Pereira, começou por mostrar os impactos das tempestades na economia, referindo que foram graves e terão impacto no PIB. Foram 68 os concelhos que primeiro apresentaram estado de calamidade – subindo depois para 90 – e que correspondiam a 17% da população e 13% do volume de negócios a nível nacional. No imediato, os levantamentos de dinheiro em ATM caíram 60% e as compras físicas em dinheiro ou cartão caíram a pique nestes municípios. De facto, o responsável pela entidade reguladora revelou à audiência que as intempéries de janeiro e fevereiro causaram graves perdas económicas e podem aumentar o risco de crédito no setor bancário. E apresentou alguns números: em dezembro de 2025, as empresas dos concelhos mais afetados tinham 28 mil milhões de empréstimo e os particulares 20,8 mil milhões de empréstimo à habitação, dos quais 15,8 mil milhões para habitação própria e permanente.

O responsável alertou, sobretudo para a “possibilidade de uma perda da capacidade produtiva, que tem um impacto depois no crescimento económico do próprio região ou do país. Portanto, ao longo prazo, a questão é se nós conseguimos recuperar ou não”, refere.

Quanto aos riscos das alterações climáticas, Álvaro Santos Pereira refere que “não nos podemos esquecer que estamos num país de alto risco sísmico”. E explica que não apenas de um sismo como o de 1755, mas sismos que poderão ter impacto elevado. “Por isso temos de manter as estruturas resilientes. E o Banco de Portugal está a trabalhar muito na parte das alterações climáticas e no impacto que isto tem nesta realidade financeira e no sistema financeiro. Mas também estamos a investir muito na parte da resiliência operacional, não só investir em cibersegurança, garantindo a integridade da informação e os chamados backups imutáveis, mas também em termos de infraestruturas mais robustas”, diz.

Mais Artigos