O setor da agricultura, apesar de contribuir pouco para o PIB nacional (em torno dos 2%), é fundamental para a economia do país. E nos últimos anos este setor tem estado a adaptar-se aos desafios que enfrenta, nomeadamente o da produtividade. Nos últimos 30 anos a produtividade deste segmento da economia mais do que duplicou, tendo agora menos trabalhadores, e menos trabalho familiar. Estas são algumas das conclusões do estudo “Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal”, realizado pela Consulai, consultora especializada em agronegócios, que fez um retrato das dinâmicas estruturais do trabalho no setor agrícola e dos principais desafios para o futuro. O estudo assinala os 25 anos da fundação da consultora. “A agricultura portuguesa está hoje mais produtiva, mais profissionalizada e mais orientada para a criação de valor, apesar de operar com menos recursos humanos. Uma dinâmica sustentada pela modernização tecnológica e pela mecanização, que permitem elevar a produtividade sem a necessidade de aumentar proporcionalmente a mão-de-obra”, pode ler-se no documento.
Em 2023, o setor agrícola terá contribuído com um Valor Bruto Acrescentado (VAB) de 3.362 milhões de euros para a economia nacional, empregando 211,5 mil trabalhadores.
Esta análise da Consulai também revela que a agricultura é o setor que mais depende de mão de obra estrageira em Portugal – tal como acontece em muitos outros países europeus -, uma vez que os números de 2023 (data considerada para o estudo) mostram que mais de 40% da força de trabalho era estrangeira. Este peso quadruplicou desde 2014, não tendo paralelo nos outros setores da economia portuguesa. Esta mão-de-obra é fundamental para as culturas intensivas e sazonais, assegurando os picos de produção e a continuidade operacional.
No ano de análise, o setor terá contribuído com um Valor Bruto Acrescentado (VAB) de 3.362 milhões de euros para a economia nacional, empregando 211,5 mil trabalhadores. Isto compara com uma base nacional de um VAB de 147 mil milhões de euros e uma total de 4,7 milhões de pessoas empregadas. Também o volume de trabalhadores na agricultura se reduziu consideravelmente, caindo dos 430 mil, mas em contrapartida o valor gerado aumentou, o que foi conseguido pela mecanização, pela da modernização das explorações e pela reorganização empresarial que se tem vindo a registar no setor.
Qualificação de estrangeiros é superior
Além disso, é curioso notar que os trabalhadores estrangeiros são mais qualificados do que os nacionais. O estudo mostra que 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor agrícola só possuem o grau do ensino básico e que os estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos portugueses. São cerca de 7,5% os estrangeiros que trabalham na agricultura nacional que possuem cursos superiores, enquanto que apenas 2,7% dos trabalhadores portugueses têm o mesmo nível académico.
Em termos salariais, a remuneração média do setor cresceu cerca de 50% na última década, aproximando-se dos mil euros mensais, embora muito abaixo dos 1.742 euros de média nacional. Isto torna-se pouco atrativo para os jovens e sobretudo qualificados, tornando o setor muito envelhecido. Segundo os dados da Consulai, a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023, tornando esta questão uma das mais desafiantes do momento.
“O futuro da agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola”, diz Pedro Santos, diretor-geral da Consulai.
Segundo refere Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, em comunicado: “Nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica. Paradoxalmente, esta evolução não foi acompanhada por um reforço do prestígio social do setor. Pelo contrário, vieram ao de cima fragilidades já existentes que hoje assumem um carácter crítico e condicionam a sua sustentabilidade e competitividade, desde a escassez de mão de obra à dificuldade em atrair talento qualificado e jovem”. Alerta ainda que “o futuro da agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola. Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perdermos o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo.”





