Viver nas Etihad Towers tem as suas vantagens, mas ser acordado com o som de explosões, flashes no ar e o edifício a vibrar por todo o lado não é algo que me lembre de ter visto no anúncio da casa quando me mudei para cá. No passado dia 28 de fevereiro, quando o meu telemóvel “gritou” o alerta do governo a dizer que estávamos sob ataque, o meu pensamento foi curto e honesto: “F******! Queres ver que é desta?”
Contudo, depois de quase me ter tornado religioso por uns segundos, o lado racional bateu à porta. Olhei pela janela e não vi o caos que as televisões portuguesas e internacionais insistiam em transmitir; vi uma cidade a lidar com o que pareciam “foguetes de artifício” mais barulhentos e menos coloridos. A gestão da crise aqui é de um profissionalismo que roça o surreal. Enquanto o mundo via o fim do mundo, eu via sistemas de defesa a funcionar e uma calma institucional que raramente se encontra no Ocidente.
O “Pó” no Estreito de Ormuz
O meu real receio não é a segurança física. Se há lugar onde me sinto protegido pela tecnologia, é aqui. O que me tira o sono são as consequências de ter 20% do petróleo mundial a apanhar “pó” no Estreito de Ormuz.
Estamos a meros 300 km da costa do Irão. No ponto mais estreito, são apenas 33 km que nos separam. Para quem observa os mercados, o flash que vi no céu de Abu Dhabi traduz-se mais no flash que as pessoas vão receber na conta da luz e gás em Portugal e na Europa dentro dos próximos tempos.
A suspensão da negociação no ADX e no DFM (as bolsas de Abu Dhabi e Dubai) após o início dos ataques não foi pânico; foi uma manobra de contenção. As correções de 3,5% e 4,7% mostraram que o mercado estava a tentar precificar o impensável. Mas o verdadeiro problema não está no que cai, mas no que sobe.
O próximo “imposto” do consumidor português
A comunicação social foca-se nas sirenes e no “fogo de artifício”, mas a nossa atenção deve focar-se nas rotas marítimas. A instabilidade aqui é o “gargalo” de Suez:
- Logística em sobrecarga: Com o aumento do risco, as rotas desviam-se para o Cabo da Boa Esperança. São no mínimo 14 dias extra de mar. Isto não é apenas tempo; é custo, é falta de contentores e é uma quebra de 9% na capacidade logística global.
- Inflação de importação: Com o Brent a namorar valores acima dos $80, a onda de choque vai chegar a Portugal com um ribatejano que chega para pegar um touro, sem pedir licença. O que acontece neste golfo influencia desde o preço do pão no Alentejo, à gasolina em Lisboa ao custo da eletricidade em Santarém.
Diplomacia à mesa
Não nego a tensão. Enquanto escrevo estas linhas, o som de fundo é uma mistura de ‘foguetes de artifício’ e a razia dos caças que cortam o céu. Mas a realidade é pragmática: se o perigo fosse o que a televisão pinta, jantares como o de há dois dias não existiam. Sentado à mesa com a minha namorada e os embaixadores da Costa Rica e de Timor-Leste, o tema não foram bunkers ou rotas de fuga; discutimos o futuro. Entre o ruído militar e o tilintar dos talheres nos restaurantes cheios de Abu Dhabi, a mensagem é clara: aqui, a resiliência não é um conceito, é o quotidiano.

Os EAU (Emirados Árabes Unidos) provaram ser um porto seguro, profissional e firme. Mas, enquanto dormimos protegidos por sistemas de defesa aérea de última geração, a economia mundial pode acordar com uma “ressaca” que nenhuma tecnologia consegue travar.
A televisão mostra o fogo, mas eu prefiro olhar para o rasto que ele deixa nos mercados. E esse rasto diz-nos que, num mundo globalizado, não há ataques “lá longe”. “Estamos todos” na Etihad Tower, à espera que a racionalidade prevaleça sobre o ruído.





