O escritor Gonçalo M. Tavares considerou “surpreendente e muito importante” receber o Prémio Formentor, que coloca a “fasquia altíssima”, igualando-o a autores que muito admira, mas assegura que isso não lhe traz pressão ou paralisia em relação ao futuro.
Gonçalo M. Tavares foi hoje distinguido por unanimidade com o prémio espanhol Formentor das Letras 2026, atribuído pela fundação espanhola Formentor e dotado de 50 mil euros, tornando-se o primeiro português a receber este galardão.
O júri justificou a escolha de Gonçalo M. Tavares “pela ousadia com que construiu uma narrativa alheia às tentações do óbvio e por contar a epopeia paradoxal do desvio contemporâneo”.
“Por um lado [é] surpreendente e muito importante, os primeiros vencedores foram o Jorge Luís Borges e o Samuel Beckett, e logo aí é uma fasquia enorme, é uma fasquia altíssima”, afirmou o escritor em declarações à Lusa, acrescentando: “Os nomes das pessoas que receberam este prémio são nomes que eu admiro absolutamente. É muito impressionante”.
O autor destacou vários escritores distinguidos ao longo da história do galardão, de Roberto Calasso a Pascal Quignard, passando por Javier Marias, Mircea Cartarescu, Annie Ernaux, Laszlo Krasznahorkai e César Aira, referindo sublinhando tratar-se de “nomes de pessoas que tentam fazer uma literatura que não tem nada a ver com vendas, não tem nada a ver com o que quer o espírito do tempo”.
“Portanto, são escritores também que eu admiro no sentido de intransigentes, fazem o que querem. E eu, sinceramente, também tento isso, tento fazer o meu percurso e, portanto, é uma grande alegria e honra estar ao pé desses escritores”, declarou.
Para Gonçalo M. Tavares, a atribuição do prémio aproxima-o simbolicamente desses autores, o que o deixa “contente”, mas, ao mesmo tempo fá-lo sentir o peso da distinção.
“É tanta gente extraordinária que eu fico muito quase espantado, até porque eu tenho 55 anos e estar aqui ao pé destes nomes é assim uma coisa muito forte. São autores que eu acho que são absolutamente radicais, são escritores intransigentes, que fazem o que querem, tentam traçar caminhos diferentes”, frisou.
Ainda assim, assegura que mantém inalterável a sua postura em relação à escrita: “Eu sou muito tranquilo e vou fazendo o que quero fazer. Sou totalmente também intransigente em relação à minha obra, vou fazendo o que quero fazer apenas, sem ser influenciado por nada”.
Referindo-se ao seu mais recente livro, “O Fim dos Estados Unidos da América”, publicado em novembro do ano passado pela Relógio d’Água, o autor reiterou a sua independência criativa, afirmando que tenta fazer o que acha que deve fazer.
“Eu faço o que quero, quando quero, em termos de escrita, não é? E uma epopeia, por exemplo, de 900 páginas é uma coisa completamente fora do século XXI, parece uma coisa fora quase de moda. Já não se fala em epopeia. Livros grandes, as pessoas dizem que não fazem sentido, que as pessoas leem pouco e leem coisinhas pequeninas. Isso não me interessa nada, interessa-me apenas fazer o que quero fazer, tentar explorar o humano, a violência humana, a tragédia humana, mas também o cómico do humano”, explicou.
Para o autor, “a tragédia humana não pode estar separada do risível, do ridículo que é o humano”.
“Todos nós somos ridículos e também me interessa na obra, nos diferentes livros que vou fazendo, estudar estas fraquezas e forças do humano”, acrescentou.
Apesar de sentir que as exigências e expectativas aumentam em relação ao seu trabalho com a atribuição deste prémio, o escritor rejeitou qualquer receio quanto ao futuro, afirmando sentir só “uma grande alegria e nada de pressão para o que possa vir a acontecer mais tarde, ou não”, porque quer apenas escrever e seguir o seu caminho.
De acordo com o júri do prémio, constituído por escritores, críticos, editores, académicos e outras personalidades ligadas à literatura, de diversas nacionalidades, como a italiana Elide Pittarello, o britânico Gerald Martin ou a espanhola Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago, “o escritor português pertence à genealogia literária dedicada a contar o reverso da realidade”.
O Prémio Formentor das Letras, assim como a Fundação Formentor, foram criados em 1961, por um grupo de editores europeus como Carlos Barral, Claude Gallimard o Giulio Enaudi, para dar “continuidade aos encontros culturais iniciados em 1930” nas ilhas Baleares (na ilha de Formentera), tendo como mecenas duas famílias espanholas (Barceló e Buadas), segundo a informação da própria entidade na página oficial na Internet.
Gonçalo M. Tavares, nascido em 1970, é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.
Multipremiado e aclamado pela critica internacional, Gonçalo M. Tavares tem obras traduzidas e publicadas em mais de 50 países e adaptadas a projetos diversos como peças de teatro, objetos artísticos, vídeos de arte ou ópera.
Lusa





