No Fórum Banca 2026, iniciativa do Jornal Económico realizada no Hotel Ritz, um painel dedicado à pergunta “A tecnologia vai mudar o sistema financeiro?” acabou por chegar rapidamente a uma conclusão quase consensual: a tecnologia já mudou a banca — e continua a fazê-lo a um ritmo acelerado.
Para Ulugbek Suyumov, CFA e head of Financial Services da Capgemini Portugal, a pergunta que deu título ao painel tem hoje um caráter quase retórico. “Já está a acontecer”, afirmou, sublinhando que a transformação tecnológica no setor financeiro é muitas vezes invisível para o cliente final, mas profundamente estrutural.
Segundo o responsável da Capgemini Portugal, a tecnologia na banca já não se limita a uma melhoria de uma app ou às aplicações móveis. “Isso é quase a pré-história da tecnologia associada à banca”, referiu.
Hoje, na sua opinião, a inovação tecnológica está integrada em áreas críticas como a avaliação de risco, a prevenção de fraude e o desenvolvimento de novos produtos. Ferramentas digitais permitem reduzir o tempo de lançamento de serviços e acelerar processos como o onboarding de clientes, ao mesmo tempo que aumentam a capacidade de monitorização e segurança.
Além disso, Ulugbek Suyumov destacou que a transformação não é apenas tecnológica, mas também organizacional. As equipas tecnológicas estão cada vez mais próximas do negócio, o que reforça o papel da tecnologia nas decisões estratégicas das instituições financeiras.
Uma banca cada vez mais “IT-driven”
Para Pedro Santos Gomes, partner da askblue, a tecnologia tornou-se tão central nas operações financeiras que hoje define o próprio funcionamento do setor. “Hoje em dia a banca é IT-driven”, afirmou.
De acordo com o responsável, seria impossível manter o atual modelo bancário sem o suporte tecnológico. Desde a angariação de clientes até à gestão de risco, passando pelas operações de mercado de capitais, praticamente todas as atividades dependem de sistemas digitais sofisticados. “Sem tecnologia não conseguiríamos ter uma banca pelo menos parecida com a que temos hoje. Já não há volta atrás”, acrescentou.
A evolução tecnológica tem também alterado profundamente a forma como os profissionais trabalham dentro das instituições financeiras. Ferramentas avançadas de análise, automação e inteligência artificial estão a transformar tanto as áreas tecnológicas como as áreas de negócio, permitindo respostas mais rápidas e decisões mais informadas. Ainda assim, Pedro Santos Gomes reconhece que o ritmo da inovação é tão rápido que se torna difícil antecipar o que virá a seguir. “Sky is the limit. Não tenho criatividade suficiente para conseguir imaginar o que virá a seguir”, resumiu.
O desafio da transformação organizacional
Já Rui Ribeiro, diretor executivo da LES, Lusófona Executive School e partner da Zertive Consulting, destacou que não sabe onde fica “esse limite” referido por Pedro Santos Gomes, mas confessa que esse é o desafio. Destaca ainda a confiança que o setor já alcançou e sublinha que a tecnologia só cria verdadeiro valor quando está integrada numa transformação organizacional profunda.
Segundo o responsável, muitas instituições continuam a confundir digitalização com transformação digital. “Digitalização é despejar tecnologia em cima de processos dos anos 70 ou 80”, explicou, dizendo que da mesma forma que não se resolvem problemas despejando dinheiro em cima deles, também não se resolvem problemas de processos e de eficiência despejando tecnologia para cima dos processos da organização. “Transformação é repensar o próprio processo.”
“E, portanto, o desafio é como é que a tecnologia, que é hoje core do processo de decisão de uma organização, do setor bancário, ela faz parte efetivamente do negócio e não é o suporte. E é aqui que, às vezes, o mindset ainda, por vezes, não está aí.”
Para Rui Ribeiro, a banca construiu historicamente o seu valor em torno da confiança e da capacidade de decisão. No entanto, a forma como esses valores são hoje entregues ao cliente mudou profundamente.
Grande parte da interação com os serviços financeiros acontece atualmente “na palma da mão” do cliente, através de aplicações e plataformas digitais. Esse novo paradigma exige mudanças profundas em toda a cadeia de valor das organizações.
Ribeiro apontou ainda a pressão competitiva criada por novos modelos de negócio, nomeadamente as fintechs, que estão a transformar o setor com ofertas totalmente digitais e processos mais ágeis.
Inteligência artificial: potencial e riscos
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais do debate. Para Ulugbek Suyumov, estas tecnologias podem reduzir tarefas repetitivas e libertar tempo para que os profissionais se concentrem no cliente e no negócio. Rejeita a IA como moda e destaca a importância de ver se realmente vale a pena investir em determinada tecnologia.
Entre as aplicações mais relevantes estão a análise de risco em tempo real, a automação de processos de KYC (Know Your Customer), a deteção de fraude e o atendimento inteligente ao cliente.
Ainda assim, os participantes alertaram para os riscos associados à adoção acelerada destas ferramentas. Segundo Pedro Santos Gomes, partner da askblue, a mudança acontece a um ritmo alucinante pelo que é difícil, inclusive acompanhar um modelo. “Muitas vezes as empresas adotam um determinado caminho e de repente surgem outros melhores. Vamos ter de correr esse risco”. O responsável adverte ainda que os algoritmos podem refletir enviesamentos ou erros presentes nos dados com que foram treinados. “Se funcionam bem em 80% dos casos, podem falhar nos restantes 20% — e às vezes de forma repetida porque aprenderam mal. É um risco.”
Além disso, a própria inteligência artificial pode ser usada para fins maliciosos, desde fraudes mais sofisticadas até ataques cibernéticos cada vez mais difíceis de detetar. Por fim, cada vez é preciso criar mais camadas de segurança para validar se se está perante um cliente real.
Governação e ética no centro do debate
Para Rui Ribeiro, o maior risco da inteligência artificial não está apenas na possibilidade de erro, mas na forma como as organizações a utilizam.
“O risco não está na IA errar; está em aceitarmos que, por ser eficiente, deve ser seguida”, afirmou.
Segundo o académico, a IA amplifica decisões humanas — boas ou más. Se os dados forem de má qualidade ou se a estratégia não estiver bem definida, a tecnologia apenas ampliará esses problemas.
Daí a importância crescente da governação da inteligência artificial dentro das organizações. Definir regras claras, políticas de utilização e mecanismos de supervisão tornou-se essencial num contexto em que estas tecnologias atravessam praticamente todas as áreas de uma instituição.
Num setor altamente regulado como o financeiro, o equilíbrio entre inovação, segurança e proteção de dados será determinante para o futuro.
No final do painel, ficou clara uma ideia central: a tecnologia não é já apenas um suporte para a atividade bancária — é parte integrante do próprio negócio.
O desafio que se coloca agora às instituições financeiras não é apenas adotar novas ferramentas, mas garantir que estas são integradas de forma estratégica, ética e governada.
Num setor onde a confiança continua a ser o ativo mais valioso, a capacidade de equilibrar inovação tecnológica com responsabilidade será decisiva para definir o futuro da banca.





