No podcast “Palavrão”, da Livraria Lello, Pedro Pinto, CEO do Grupo Lionesa — grupo que adquiriu a histórica livraria em 2015 — fala da forma como a Lello foi transformada num modelo de sucesso, revelando ainda que a hipótese de alargar o conceito da livraria a outras cidades esteve em cima da mesa, tendo acabado por não se concretizar.
A livraria, que agora passa a adotar oficialmente a designação Livraria Lello Porto, tornou-se um dos projetos culturais mais visitados do país, recebendo mais de um milhão de visitantes por ano, com a particularidade de cerca de 70% das pessoas que entram na livraria acabarem por comprar livros. Mas esse sucesso nem sempre apresentou estes números gordos.
Quando o Grupo Lionesa adquiriu a livraria, a realidade era diferente. Segundo Pedro Pinto, era necessário encontrar uma solução que permitisse transformar as visitas em leitores: “Em 2015, os turistas que entravam na Livraria Lello deixavam ficar quase que uma esmola. Foi preciso pensar numa ideia em que as pessoas pagam, mas a entrada está ao serviço da aquisição de um livro. Criou-se o modelo do ticket-voucher (que parece fácil, mas não é), e que foi pioneiro na altura”, lembra.
Pedro Pinto recorda que o projeto enfrentou ceticismo quando começou: “Quando adquirimos a Livraria Lello, ainda me lembro que alguns profissionais que contratei para trabalhar no projeto diziam ‘vocês vão ser comidos vivos’. Passados dez anos, trabalhamos com essas pessoas e acho que temos — como se diz no norte — um projeto do caraças. E só agora começou”, conclui.
Do Porto para o mundo
No podcast “Palavrão”, o CEO do Grupo Lionesa reforça também a decisão estratégica de manter a Livraria Lello associada exclusivamente ao Porto: “Quando tivermos algum negócio em que, de facto, ele não é bom para a cidade, encerramos esse negócio imediatamente. Todos os nossos negócios são montados com este pressuposto. Amamos a cidade e queremos que a cidade esteja apaixonada por nós. A Livraria Lello só existe no Porto. Já fomos desafiados para abrir noutras localizações bastante distantes, mas Livraria Lello só há uma e é no Porto”, afirma.

Apesar da notoriedade internacional da livraria — frequentemente incluída em listas das mais bonitas do mundo — o grupo chegou a ponderar uma expansão internacional. Pedro Pinto adianta que o grupo chegou mesmo a adquirir uma livraria emblemática no estrangeiro, mas decidiu travar o projeto: “Somos, nitidamente, pessoas apaixonadas. Quando não conseguimos pôr essa paixão nos negócios, não estamos interessados em desenvolvê-los. A paixão é de tal modo que nós, há cerca de dois ou três anos, tínhamos adquirida uma das livrarias que são associadas às livrarias mais bonitas do mundo”, conta.
A decisão de não avançar acabou por surgir dentro da própria família: “A Francisca [Pedro Pinto, responsável pela marca Livraria Lello Porto], um dia, chega à minha beira, começa a chorar e diz: ‘Não podemos comprar, porque não conseguimos ter tempo, não conseguimos dedicar este amor que temos aos negócios que temos na nossa região a outras localizações’”. Foi nesse momento que a família decidiu concentrar o projeto no Porto e no norte de Portugal.
“Decidimos que não queremos negócios em outros lugares do mundo que não o Porto. Mesmo quando formos para outras localizações, primeiro será para o mundo e depois será para outras localidades em Portugal, nomeadamente Lisboa. Eu sou daqueles que defendem que ‘do Porto, não vou para Lisboa’, mas sim ‘do Porto vou para o mundo, do mundo venho para Lisboa’”, sublinha.





