Durante grande parte da história, a relação entre humanos e animais foi guiada pela utilidade. Os animais eram parceiros de trabalho, proteção ou sobrevivência, mais do que objetos de afeto. É precisamente por isso que a mudança observada nas últimas décadas é tão relevante: a relação funcional deu lugar a um vínculo emocional profundo, que hoje se traduz em cuidado, investimento e responsabilidade.
O afeto, que antes não estruturava esta relação, passou a ter expressão concreta na esfera económica e social. Cuidar de um animal deixou de ser apenas um gesto emocional para influenciar escolhas de consumo, decisões de investimento e dinâmicas de inovação. O vínculo afetivo ganhou peso económico — e esse facto diz muito sobre a maturidade da sociedade em que vivemos.
Hoje, as decisões que os tutores tomam em relação aos seus animais aproximam-se cada vez mais das que tomam para si próprios. Critérios como qualidade, prevenção, longevidade e bem-estar deixaram de ser exclusivos da saúde humana e passaram a ser aplicados, de forma consciente, à saúde animal. Isso é particularmente visível nas escolhas alimentares. A alimentação é possivelmente o reflexo mais claro desta transformação. Noventa e sete por cento dos tutores recorrem a ração seca, mas uma maioria diversifica a dieta com alimentação húmida, snacks ou comida caseira, e cerca de um quinto recorre ainda a suplementos, num sinal claro de maior consciência preventiva e preocupação com a saúde a longo prazo. Estas escolhas não resultam de impulsividade ou moda. Resultam de uma lógica de cuidado informado, onde o afeto se traduz em responsabilidade.
Este padrão revela uma sofisticação crescente no consumo associado ao setor pet. Longe de um mercado utilitário ou básico, o que se observa é a adoção de comportamentos maduros, planeados e alinhados com uma visão de bem-estar continuado. A incorporação de tecnologia é outro sinal inequívoco dessa evolução. Quase um quarto dos tutores já utiliza soluções tecnológicas no acompanhamento dos seus animais, seja para monitorização, segurança ou gestão da rotina diária. Este dado ilustra uma mudança estrutural: o afeto não se opõe à racionalidade económica, organiza-a. Inovação, prevenção e previsibilidade passam a fazer parte do mesmo ecossistema de decisão.
Mas reduzir esta transformação ao consumo seria uma leitura incompleta. O investimento no bem-estar animal tem impactos sociais e emocionais profundos, muitas vezes invisíveis nas métricas tradicionais. Os animais desempenham um papel proeminente na saúde mental das famílias, contribuindo para a redução da solidão, da ansiedade e do isolamento. Introduzem rotinas, promovem responsabilidade e criam vínculos que reforçam a coesão familiar. Não é por acaso que 95% dos tutores considera hoje os seus animais como parte integrante da família. Este valor social raramente é quantificado, mas é estrutural. Ao cuidar de um animal, não estamos apenas a melhorar a sua qualidade de vida; estamos a criar condições de maior equilíbrio emocional e social para quem o acompanha.
O crescimento sustentado do setor pet care deve, por isso, ser interpretado como reflexo de uma economia em transformação. Tal como acontece noutras áreas ligadas à saúde, ao bem-estar e à sustentabilidade, o cuidado deixou de ser um custo acessório para se tornar um investimento consciente. O afeto deixou de ser um fator intangível e passou a ser um verdadeiro driver de mercado. Uma economia que valoriza o bem-estar, a prevenção e a qualidade de vida é, inevitavelmente, uma economia mais emocional — no melhor sentido do termo.
Esta realidade abre espaço para repensar políticas públicas e modelos de bem-estar social. A relação entre humanos e animais pode ser integrada de forma mais estratégica em áreas como a saúde pública, o envelhecimento ativo ou a inclusão social, não apenas pelo seu valor afetivo, mas pelo impacto concreto que tem na vida das pessoas. Esse impacto vai além do indivíduo: reflete-se na saúde mental, na criação de rotinas, na coesão familiar e, de forma indireta, na redução de pressões sobre sistemas sociais e de saúde.
O valor do afeto, neste contexto, deixa de ser estritamente privado e assume uma dimensão coletiva. Cuidar dos animais é também investir numa sociedade mais equilibrada, informada e preparada para o futuro — porque quando o cuidado é consistente e continuado, os seus efeitos ultrapassam o animal e inscrevem-se na estabilidade emocional das famílias e no bem-estar social.
A economia que se está a desenhar é cada vez mais orientada para o bem-estar, para a prevenção e para relações de cuidado duradouras. E a relação humano-animal é, hoje, um dos exemplos mais claros de como o afeto deixou de ser apenas um sentimento para se tornar uma força económica e social pujante.
Bernardo Soares,
Médico Veterinário e One Health Diretor na UPPartner





