O início de 2026 tem trazido aos mercados uma realidade menos turbulenta do que há um ano, mas isso não a torna mais simples de interpretar. As tensões geopolíticas continuam a fazer manchetes e a abrir noticiários, com a Gronelândia, a Venezuela e o Médio Oriente no radar do mundo. Contudo, para os mercados as consequências não são claras: o preço do petróleo move-se em níveis relativamente contidos e o mercado acionista revela menor volatilidade do que em 2025.
Depois de vários anos marcados por choques sucessivos – pandemia, inflação elevada, conflitos militares, guerras comerciais e aperto monetário –, a economia global entra em 2026 com uma característica inesperada: resiliência.
Contra muitas previsões pessimistas, 2025 mostrou-nos que a economia mundial conseguiu absorver boa parte das tensões comerciais e tarifárias, sustentada por mercados de trabalho ainda robustos, inflação em desaceleração e políticas económicas progressivamente mais acomodatícias. Por enquanto, tudo indica que este fôlego se prolongará durante o ano.
Em 2025, o anúncio de tarifas norte-americanas durante o chamado “Dia da Libertação” desencadeou uma reação do mercado sem precedentes: uma fase de aversão ao risco acompanhada por uma venda generalizada de ativos dos EUA. O dólar, as Treasuries e as ações norte-americanas caíram em simultâneo, adicionando um ponto final a uma correlação histórica.
Meses depois, graças a uma série de acordos alcançados, o impacto macroeconómico revelou-se mais contido do que o esperado. A economia dos EUA deverá ter encerrado 2025 com um crescimento em torno de 2%, apesar do arrefecimento do mercado de trabalho e das tensões comerciais. A Zona Euro também demonstrou resiliência, enquanto a China parece ter conseguido atingir o seu objetivo de crescimento de cerca de 5%, apoiada por exportações sólidas.
Neste cenário, perspetiva-se que 2026 seja um ano de crescimento resiliente, apoiado pela flexibilização das condições financeiras e pelo ciclo de investimento em inteligência artificial, que pode atingir os 527 mil milhões de dólares este ano entre os principais players do setor, segundo estimativas do Goldman Sachs. A curto prazo, o impacto da IA será sentido sobretudo nos EUA e na China, que lideram o investimento tecnológico, o que pode vir a acentuar as divergências globais.
Na Europa, este pode ser o ano que assinala uma mudança de ritmo mais clara. A procura interna mantém-se estável e a inflação está a cair, mas o verdadeiro elemento de rutura é fiscal. O plano alemão de infraestruturas de 500 mil milhões de euros, a implementar ao longo de dez anos, deve começar a produzir os seus primeiros efeitos tangíveis já no segundo trimestre de 2026. As prioridades incluem redes ferroviárias de alta velocidade, transição energética e digitalização da administração pública. Dado o peso da Alemanha na Zona Euro, o impacto poderá estender-se a toda a região.
E que ilações é que podemos retirar daqui? Os choques não desapareceram, mas este cenário revela que o sistema económico global começou a absorvê-los de forma diferente, mais gradual. Estamos perante uma mudança que é, de facto, estrutural. Esta capacidade de adaptação sugere que, mesmo em tempos de incerteza, a economia mundial pode sustentar crescimento moderado, oferecendo oportunidades para investimentos estratégicos e políticas económicas que reforcem ainda mais a resiliência global.
Joana Vieira,
Partner da Ebury





