Em 10 anos, a Too Good To Go salvou milhões de refeições e expandiu-se para 20 países. Qual considera ter sido o fator decisivo para esta escala global?
O fator decisivo foi, na verdade, a combinação de uma missão global, um modelo escalável e uma comunidade extraordinária. Desde o início, a Too Good To Go manteve um foco muito claro num objetivo: inspirar e capacitar todos a combater o desperdício alimentar em conjunto. Essa clareza torna fácil para pessoas de diferentes culturas compreenderem o que fazemos e porque é importante. Ao mesmo tempo, o nosso modelo é simples, mas poderoso. Cria um verdadeiro “win-win-win” para empresas, consumidores e para o planeta. As empresas recuperam valor dos excedentes alimentares, os consumidores obtêm ótimas refeições a um preço justo e o planeta beneficia porque essa comida não é desperdiçada. É um modelo pouco comum, que gera valor para todos os lados enquanto promove uma mudança significativa. E, finalmente, diria que a comunidade. Os nossos 130 milhões de utilizadores e 180 mil parceiros em 20 países são a verdadeira razão pela qual alcançámos esta dimensão. Nós construímos a plataforma, mas são eles que lhe dão vida todos os dias. O facto de alguém em Copenhaga, Lisboa, Nova Iorque ou Sydney poder realizar a mesma pequena ação, salvar uma refeição, e, coletivamente, gerar um impacto tão grande, é o que torna este movimento tão poderoso.
“O nosso modelo é simples, mas poderoso. Cria um verdadeiro “win-win-win” para empresas, consumidores e para o planeta”.
O desperdício alimentar continua a crescer em vários países, incluindo Portugal. O que é que ainda estamos a fazer mal enquanto sociedade?
De acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 1,9 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 185 quilos por pessoa por ano. A dimensão do desafio é enorme. Mas aquilo que me dá esperança é que a sensibilização está claramente a crescer. Num estudo recente que realizámos, nove em cada dez portugueses afirmaram que o desperdício alimentar é uma grande preocupação para eles. Essa preocupação é impulsionada por três fatores. Primeiro, a realidade económica: com a inflação, nove em cada dez pessoas sentem hoje que desperdiçar comida é o mesmo que deitar dinheiro ao lixo. Segundo, há uma forte dimensão social: 88% dizem sentir-se mal por desperdiçar alimentos, sabendo que há quem não tenha o suficiente para comer. E terceiro, a consciencialização ambiental está a aumentar rapidamente: oito em cada dez pessoas já pensam no impacto que o desperdício alimentar tem no planeta. Para mim, isto demonstra que o problema deixou de ser invisível. As pessoas preocupam-se e querem agir, e é exatamente esse o tipo de mentalidade de que precisamos para transformar consciência em impacto.
“Cerca de 1,9 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 185 quilos por pessoa por ano”.

O modelo de negócio da Too Good To Go é um exemplo de economia circular digital. Como é que este modelo tem evoluído e que novos caminhos podem surgir nos próximos anos?
Atualmente, o nosso modelo assenta em três pilares: o nosso Marketplace, onde 130 milhões de utilizadores salvam Surprise Bags; o Parcels, que combate excedentes ao nível da produção (ainda não disponível em Portugal); e Too Good To Go Platform, uma solução SaaS que ajuda retalhistas a prevenir e gerir o desperdício alimentar em tempo real. Estamos também a testar, nalguns países, uma nova solução para combater o desperdício no setor de catering, bem como o Too Good To Go Tables, uma iniciativa que permite aos utilizadores desfrutar de refeições a preços reduzidos em restaurantes afetados por cancelamentos de última hora. Esta evolução significa que já não estamos apenas a salvar comida num único ponto, o fim da cadeia de valor. Estamos a ajudar os nossos parceiros a agir mais cedo, de forma mais inteligente e em maior escala. Olhando para o futuro, continuaremos a aprofundar esse impacto e a promover colaborações mais fortes em todo o sistema alimentar.
“Estamos a testar, nalguns países, o Too Good To Go Tables, uma iniciativa que permite aos utilizadores desfrutar de refeições a preços reduzidos em restaurantes afetados por cancelamentos de última hora”.
A inflação e o aumento dos preços da alimentação tornaram os consumidores mais atentos ao desperdício. Isso traduziu-se num aumento de adesão à plataforma?
Sim, a inflação e o aumento dos preços dos alimentos levaram muitos consumidores a repensar a forma como compram e consomem. Segundo um estudo recente que realizámos em Portugal com a Appinio, 9 em cada 10 consumidores dizem que agora fazem um esforço maior do que antes para reduzir o desperdício alimentar devido à inflação. Ao mesmo tempo, 8 em cada 10 portugueses alteraram os seus hábitos de compra no supermercado, por causa da subida de preços. O peixe e a carne são os produtos mais afetados, enquanto 8 em cada 10 estão ativamente à procura de formas mais acessíveis de comprar alimentos. É aqui que a Too Good To Go desempenha um papel importante. A nossa app está a tornar-se uma alternativa prática para que as pessoas possam aceder a comida de qualidade a preços mais baixos, e ainda evitar o desperdício. Os utilizadores podem salvar Surprise Bags em todo o tipo de lojas; por exemplo, no Auchan, podem recolher peixe, marisco, padaria e mercearia a uma fração do preço. Nos últimos dois anos, a nossa comunidade em Portugal cresceu 46%, e os utilizadores que salvam uma a duas Surprise Bags por semana estão a poupar, em média, cerca de 620 € por ano. Isto demonstra que combater o desperdício alimentar não é apenas bom para o planeta, mas também para a carteira das pessoas.
“Nos últimos dois anos, a nossa comunidade em Portugal cresceu 46%, e os utilizadores que salvam uma a duas Surprise Bags por semana estão a poupar, em média, cerca de 620 € por ano”.
Que peso tem o mercado português no universo global da Too Good To Go e o que o distingue de outros países europeus?
O mercado português é uma parte importante das operações globais da Too Good To Go. Atualmente, contamos com mais de 2,6 milhões de utilizadores registados e mais de 4.000 lojas parceiras em Portugal, que em conjunto já salvaram mais de 6,5 milhões de Surprise Bags ao longo dos últimos seis anos. O que é particularmente impressionante é o ritmo do nosso crescimento: até 2023, tinham sido salvas 3,7 milhões de Surprise Bags em Portugal, e só nos últimos dois anos salvámos a mesma quantidade de comida que nos primeiros quatro anos combinados. Numa perspetiva global, isto reflete uma tendência mais ampla que estamos a observar nos nossos 20 mercados: quando as comunidades adotam soluções simples e práticas para combater o desperdício alimentar, a adesão pode acelerar rapidamente. Portugal demonstra que, com utilizadores envolvidos e parcerias fortes, conseguimos escalar tanto o impacto como a sensibilização a uma velocidade notável.
“Nos últimos dois anos, [em Portugal] salvámos a mesma quantidade de comida que nos primeiros quatro anos combinados”.

O impacto financeiro da plataforma também é relevante para os parceiros — cafés, padarias, supermercados. Há estimativas sobre quanto conseguem recuperar através das Surprise Bags?
A Too Good To Go não é apenas boa para o planeta, também é boa para os negócios. Em Portugal, trabalhamos com uma combinação de cafés independentes, pastelarias e supermercados, bem como com grandes marcas como a Auchan, a Padaria Portuguesa e o Continente. O valor que um parceiro pode recuperar através das Surprise Bags varia consoante a sua dimensão, o tipo de produtos e o volume de excedentes, mas todas as Surprise Bags contribuem para reduzir perdas. Além disso, as lojas participantes costumam gerar receita adicional, já que muitos utilizadores que vão recolher uma Surprise Bag acabam por comprar outros produtos durante a visita. A sustentabilidade também pesa cada vez mais na decisão de compra: num inquérito que realizámos em Portugal, 8 em cada 10 pessoas afirmaram que mudariam de supermercado por outro que oferecesse os mesmos produtos, mas com um maior compromisso com a sustentabilidade. Ao disponibilizarem Surprise Bags, os parceiros não só evitam desperdício, como reforçam a lealdade à marca, atraem novos clientes e alinham o sucesso do negócio com o impacto social e ambiental.
“As lojas participantes costumam gerar receita adicional, já que muitos utilizadores que vão recolher uma Surprise Bag acabam por comprar outros produtos durante a visita”.
Espanha já tem uma lei contra o desperdício alimentar, apoiada por 90% dos portugueses. A Too Good To Go defende uma legislação semelhante em Portugal?
Portugal ainda não tem uma lei específica contra o desperdício alimentar, mas a Estratégia Nacional e Plano de Ação de Combate ao Desperdício Alimentar está a ser atualizada aos dias de hoje, e vemos isso como um passo importante. Combater o desperdício alimentar é um desafio complexo que exige legislação clara, políticas sólidas e colaboração ao longo de toda a cadeia alimentar. A nossa investigação mostra que 9 em cada 10 portugueses apoiam a adoção de uma lei semelhante à de Espanha, e 92% acreditam que o governo deve agir com urgência. Na Too Good To Go, apresentámos contributos à consulta pública do governo em setembro, sugerindo regulamentos inspirados nos modelos francês e espanhol, incluindo uma hierarquia de prioridades para todos os operadores, o envolvimento do setor privado na medição do desperdício e a introdução de incentivos para a sua redução. Acreditamos que uma legislação nacional, combinada com soluções práticas como a nossa app, pode ajudar Portugal a combater o desperdício alimentar de forma eficaz, envolvendo empresas e cidadãos na criação de um impacto duradouro.

“A nossa investigação mostra que 9 em cada 10 portugueses apoiam a adoção de uma lei semelhante à de Espanha, e 92% acreditam que o governo deve agir com urgência”.
Qual é o maior desafio pessoal de liderar uma empresa cujo propósito é mudar comportamentos?
Para mim, o maior desafio é aceitar que mudar comportamentos leva tempo, e não pode ser forçado. A consciencialização está a aumentar, as pessoas percebem cada vez melhor que o desperdício alimentar está ligado ao dinheiro, aos recursos e ao impacto climático, mas há hábitos que estão profundamente enraizados. O meu desafio enquanto líder é manter a paciência sem perder o dinamismo: criar soluções que sejam simples, compensadoras e até com um toque de diversão, para que ações pequenas e consistentes possam crescer e transformar-se em mudança duradoura. No entretanto, tenho de equilibrar ambição com realismo: temos a missão de impactar milhões de pessoas em vários continentes, mas a verdadeira mudança acontece um utilizador, uma refeição, um lar de cada vez, bocado a bocado. Liderar com propósito significa inspirar continuamente os outros, aceitando que as mudanças de comportamento não são imediatas. A jornada é longa, mas profundamente gratificante quando vemos pequenas ações acumularem-se até se tornarem em algo transformador.
“A jornada é longa, mas profundamente gratificante quando vemos pequenas ações acumularem-se até se tornarem em algo transformador”.





