Elon Musk investiu 458 milhões de dólares que não deram em nada

O tweet que Elon Musk tinha fixado no seu perfil — pelo menos até à noite de terça-feira — resume de forma sucinta o que pensa: se os democratas vencessem as eleições intercalares e, depois, as presidenciais de 2028, isso seria "o fim da democracia em qualquer sentido significativo da palavra". Na sua interpretação, os…
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Elon Musk foi o maior doador individual das eleições norte-americanas de 2026, mas os 458 milhões de dólares (389 milhões de euros) que investiu em candidatos republicanos não impediram uma vitória expressiva dos democratas.
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O tweet que Elon Musk tinha fixado no seu perfil — pelo menos até à noite de terça-feira — resume de forma sucinta o que pensa: se os democratas vencessem as eleições intercalares e, depois, as presidenciais de 2028, isso seria “o fim da democracia em qualquer sentido significativo da palavra”. Na sua interpretação, os democratas acabariam com o filibuster – o mecanismo que permite bloquear ou atrasar decisões legislativas no Senado -, aumentariam o número de juízes do Supremo Tribunal, expandiriam o Senado e instituiriam fronteiras abertas. Todas estas políticas, afirma, deixariam os republicanos permanentemente afastados do poder.

Nos últimos dias da campanha, o homem mais rico do mundo pôs o dinheiro onde colocou as palavras, inundando corridas eleitorais por todo o país com pelo menos 458 milhões de dólares (389 milhões de euros), de acordo com os registos da Comissão Federal Eleitoral e outras informações divulgadas. É muito mais do que qualquer outro doador – pelo menos três vezes mais do que o casal de multimilionários Uihlein, que ocupa o segundo lugar, segundo estimativas do New York Times. Mas não lhe comprou grande coisa.

A Forbes procurou acompanhar o destino do dinheiro de Musk e perceber em que corridas eleitorais poderá ter tido impacto. Uma análise dos registos de financiamento das campanhas e de outras informações divulgadas identificou pelo menos dez grupos políticos aos quais Musk doou diretamente, em seu nome ou através de entidades relacionadas. A Forbes analisou depois os registos de despesas até 2 de novembro para determinar que candidatos esses grupos apoiaram financeiramente. Musk também fez donativos diretamente às campanhas de 23 candidatos.

Os resultados constituem uma espécie de boletim de avaliação dos gastos de Musk. Os candidatos em 106 corridas para a Câmara dos Representantes e para o Senado contaram com o seu apoio. Por volta das 2h30 de quarta-feira, hora da costa leste dos Estados Unidos, 18 tinham vencido, todos em lugares que os republicanos já eram apontados como favoritos para conquistar. Outros 44 tinham perdido e 44 disputas ainda não tinham resultados definitivos.

É certo que muitas corridas eleitorais foram inundadas de dinheiro este ano – terá sido o ciclo eleitoral mais dispendioso de sempre – e o facto de Musk ter doado a um grupo que gastou dinheiro numa determinada disputa não significa que o seu contributo tenha feito a diferença. Ainda assim, os resultados indicam que o retorno do investimento de 458 milhões de dólares (389 milhões de euros) não foi propriamente elevado, levantando questões sobre a importância do dinheiro num cenário de vitória esmagadora de um dos partidos.

De longe, o maior beneficiário da generosidade de Musk foi o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, cuja campanha, marcada por polémicas, contra o senador estadual James Talarico se tornou o confronto mais emblemático deste ciclo eleitoral para o Senado.

Eis como se distribuiu o dinheiro: Musk doou 75 milhões de dólares (64 milhões de euros) ao principal super PAC republicano para o Senado, o Senate Leadership Fund (SLF), a 9 de setembro. Enviou-lhe outros 83 milhões de dólares (71 milhões de euros) a 23 de setembro, elevando o total para 158 milhões de dólares (134 milhões de euros). Em ambas as ocasiões, o SLF transferiu montantes equivalentes para outro super PAC, chamado Texas PAC, que apoiava Paxton de forma particularmente intensa.

A America PAC, a sua própria estrutura política, gastou mais 47 milhões de dólares (40 milhões de euros) naquela corrida. Um terceiro PAC, o Lone Star Liberty PAC — que tinha recebido uma doação de 10 milhões de dólares (8,5 milhões de euros) de Musk em agosto — também apoiou Paxton. No total, foram 215 milhões de dólares (183 milhões de euros) de Musk a inundar o Texas com anúncios e campanhas de contacto direto com os eleitores.

A disputa parecia ser pessoal. “Talarico vai votar para tornar os vossos filhos transgénero”, publicou Musk na rede social X, dois dias antes das eleições. Musk é pai de uma mulher transgénero.

E tudo acabou por ser em vão: Talarico alcançou uma vitória por uma margem de dois dígitos na noite de terça-feira, tornando-se o primeiro democrata desde 1988 a vencer uma eleição para o Senado no Texas. Liderou uma lista democrata que também conquistou o governo estadual e poderá até conseguir a maioria na legislatura do Texas.

“Acabámos de provar que todo o dinheiro do mundo não é suficiente para derrotar o povo do Texas”, afirmou Talarico no discurso de vitória. “Mostrámos que uma política de divisão não é suficiente para derrotar uma política de amor. E enviámos uma mensagem a todos os multimilionários que financiam campanhas — a todos os bilionários e até aos futuros trilionários que fazem o mesmo, a todos os defensores corruptos deste sistema político falhado: neste estado, neste país, o poder pertence ao povo.”

“Os centros de dados no espaço parecem bastante apelativos neste momento”, publicou Musk na madrugada de quarta-feira, na sua primeira publicação em nove horas.

A America PAC, financiada integralmente pelos 216 milhões de dólares (184 milhões de euros) de Musk, gastou dinheiro em pelo menos 44 corridas eleitorais por todo o país. Depois do Texas, os maiores investimentos, segundo os registos da Comissão Federal Eleitoral, destinaram-se a apoiar candidatos republicanos ao Senado no Ohio (9,7 milhões de dólares, ou 8,2 milhões de euros), no Michigan (9,2 milhões de dólares, ou 7,8 milhões de euros), no Iowa (3,3 milhões de dólares, ou 2,8 milhões de euros) e no Maine (2,3 milhões de dólares, ou 2 milhões de euros). Os democratas venceram as quatro disputas na noite de terça-feira.

O restante dinheiro de Musk não foi tão fácil de seguir. Para além da America PAC e das doações ao SLF, que depois foram encaminhadas para o Texas PAC, Musk entregou outros 10 milhões de dólares (8,5 milhões de euros) ao SLF, 30 milhões de dólares (25,5 milhões de euros) à organização-irmã do SLF para as eleições para a Câmara dos Representantes, o Congressional Leadership Fund, e 5 milhões de dólares (4,25 milhões de euros) à MAGA Inc., alinhada com Trump. Todos estes grupos distribuíram o dinheiro por campanhas em vários pontos do país.

Musk terá também doado 10 milhões de dólares (8,5 milhões de euros) à Republican Governors Association e 2 milhões de dólares (1,7 milhões de euros) à Republican Attorneys General Association. Estes grupos concentram as suas despesas nas disputas mais competitivas. Por esse motivo, a Forbes inclui na sua análise os resultados de todas as corridas consideradas competitivas para governador e procurador-geral.

Entre as 22 corridas competitivas para governador, venceram seis candidatos republicanos. Nas 11 disputas competitivas para procurador-geral, venceu apenas um candidato republicano. Seis corridas para governador e sete para procurador-geral continuavam sem resultados definitivos.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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